Com repressão violenta da BM, estudantes protestam contra aumento da passagem

brigada militar, protesto, aumento de passagens, estudantes foto: Caroline FerrazNo primeiro dia após o reajuste das passagens de ônibus em Porto Alegre, os estudantes foram às ruas para protestar contra o aumento de R$2,85 para R$3,05 aprovado na semana passada. De maneira pacífica, manifestantes ocuparam a avenida Ipiranga, na frente da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS), entre 18 e 21 horas, mas foram removidos pela Brigada Militar (BM) com empurrões e cassetetes. Após negociação, ficou decidido que um novo ato ocorrerá na quarta-feira, desta vez na frente da Prefeitura.

O protesto foi organizado pelos estudantes através do Facebook. No evento da rede social, mais de mil pessoas confirmavam que compareceriam ao ato, com horário previsto para as 18 horas. No entanto, às 17h45min, pouco mais de uma dezena de jovens se reunia na entrada da universidade.

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Manifestantes cantavam “mãos ao alto, esse aumento é um assalto”, durante o protesto

Fora dos portões da PUCRS, soldados da Brigada Militar garantiam que seu objetivo era um só: impedir que a avenida Ipiranga fosse bloqueada. “Queremos manter o fluxo dos carros. Caso não seja possível, teremos que tomar algumas providências”, avisava Márcio Almino, capitão do 19º Batalhão da Polícia Militar (BPM) e comandante da operação.

“Mãos ao alto, esse aumento é um assalto”, bradavam os estudantes

Em poucos minutos, o número de jovens aumenta e rapidamente o temor da BM se torna realidade. Às 18h20min, os estudantes bloquearam as quatro pistas da avenida Ipiranga enquanto cantavam: “Mãos ao alto, esse aumento é um assalto”. Alguns motoristas passam a buzinar em repúdio ao ato, enquanto motoqueiros tentavam furar o bloqueio de qualquer maneira, até mesmo pelo canteiro da avenida.

Soldados da tropa de choque chegam ao local. Com auxílio de escudos, capacetes, cassetetes, pistolas Taser e armas carregadas de balas de borracha, os policiais tentavam remover os jovens da pista com empurrões. Os que resistiam sentados são levantados à força.

Uma pequena quantidade de tinta vermelha é jogada na direção dos policiais. Os ânimos se exaltam e ocorre um disparo de bala de borracha. Um buraco se abre no meio da multidão, onde uma estudante grita “vai, atira, atira em mim agora”.

Brigada não viu excessos em sua atuação

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Enquanto estudantes se queixavam da atuação da polícia, Brigada Militar garantia que não houve excessos

Em meio à confusão, um brigadiano se queixa. “Alguns querem esculhambar, daí não dá certo”, irrita-se, pedindo para ter seu nome preservado. Com alguns estudantes apresentando ferimentos leves, a Brigada não considera a ação abusiva. “Não estamos agindo com excessos, está tudo dentro da normalidade”, afirmou o capitão Márcio Almino. Na seqüência, Almino minimizou o protesto. “Eles só querem atenção, agora já a tiveram. Liberem a pista”, reclamava.

Do lado dos estudantes, o grito da vez era “polícia fascista”. “Mais uma vez a Brigada age com violência. Eu tomei uma cacetada nas costas e tive um amigo com o pescoço cortado”, revelou a estudante da PUCRS do curso de Geografia Aline Grais, enquanto partia com o grupo em direção ao cruzamento da Ipiranga com a avenida Cristiano Fischer.

A cerca de 50 metros do encontro das duas vias, os manifestantes param e alguns sentam-se novamente, agora sempre deixando uma via para a circulação dos carros. Às 19h10min, um ônibus e uma caminhonete com mais policiais do batalhão de choque chegam. Rapidamente a manifestação está cercada por BMs de todos os lados.

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Quando tentavam avançar até o cruzamento da Ipiranga com a Cristiano Fischer, manifestantes foram “encurralados” pela polícia

EPTC registrou congestionamentos de 5km

Repentinamente, para a alegria dos jovens, chega a informação de que estudantes da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), que também protestavam contra o aumento das passagens, se dirigem do Campus do Vale para a PUCRS.

Enquanto isso, a estudante de Ciências Sociais na PUCRS Lia Veiga não conseguia manter o foco somente no protesto. “Tenho que ir pra casa e dar mamadeira pros meus netos, mas também quero continuar engajada nessa causa, que não é só do estudante, é da cidade inteira”, contou entusiasmada a senhora de 57 anos. Lia era mais uma a criticar o trabalho da polícia. “Eles (BM) não precisavam demonstrar tanta força, afinal essa manifestação é pacífica”, analisou.

Às 19h40min, a mobilização perdia o fôlego e o número de pessoas presentes começava a diminuir. Divergências sobre a permanência ou não no local começavam a fragmentar o movimento. O impacto do protesto no trânsito era enorme, a Empresa Pública de Transporte e Circulação (EPTC) registrava 5 km de congestionamento na avenida Ipiranga no sentido centro-bairro, com reflexos até na avenida Érico Veríssimo.

Com batucada e bandeiras, estudantes da UFRGS reavivam mobilização

Por volta das 20h15min, ao som de uma batucada, com tambores e bandeiras, chegam os estudantes da UFRGS e injetam novo ânimo no ato. Aos poucos, o grande grupo que não tinha líderes ou partido político definido passa a ter alguns interlocutores dispostos a negociar uma saída com a BM. É decidido que voltariam ao pórtico principal da PUCRS para que discutissem o que seria feito nos próximos dias e desocupassem a avenida.

Às 21h15min, seguranças da universidade trancam os portões para que ninguém entre. Da calçada o grupo começou a se dispersar lentamente, mas deixou o aviso de que a luta pela diminuição do preço das passagens continua: “Quarta-feira (dia do protesto no Centro) vai ser maior e cada um daqui vai levar mais um”.protesto, ônibus, aumento de passagens foto: Caroline Ferraz

Texto: Caio Venâncio (3º semestre)
Fotos: Caroline Ferraz (4ºsemestre) e Natália Rech (8º semestre)
Colaborou Lorenço Oliveira (8º semestre)