Copa pouco impulsiona procura por cursos de idiomas

A procura por cursos de idiomas por conta da Copa do Mundo não foi expressiva em Porto Alegre em 2013. Empresários do setor de ensino constataram aumento de nem 5% na frequência por cursos de idiomas até o final do ano passado, conforme informações do presidente do Sindicato das Escolas de Idiomas do Rio Grande do Sul, Hipérides Ferreira de Mello.

A expectativa inicial era de que haveria um incremento de 20% na procura comparado a 2012, por conta do mundial. Hipérides atribui isso à falta de investimentos das agências de turismo e dos hotéis e restaurantes na preparação para o evento. “Em 2013, a novidade no mercado de idiomas foi a procura originada pelo programa Ciências Sem Fronteiras” (do governo federal que proporciona a universitários experiências em cursos no exterior) “aliado a maior procura do público infanto-juvenil pelas escolas de idiomas”, esclareceu o presidente do Sindicato das Escolas de Idiomas.

Ensino do português

Embora o interesse por idiomas estrangeiros não tenha crescido muito, o mesmo não acontece com o ensino do português para estrangeiros em geral. A professora Silvana Souza Silveira, do curso de Letras da PUCRS, observou um aumento no número de convênios da PUCRS com universidade estrangeiras nos últimos anos. Silvana conta que empresas brasileiras de idioma têm se especializado mundo afora, mas também reconhece que alguns alunos dizem que vieram estudar português porque era a única universidade com que a instituição onde estudam tinha convênio. “Um lugar que manda intercambistas seguido para cá é a Universidade de Sofia, do Japão. O curioso é que, para muitos alunos, o curso é exótico, falar português é exótico”.

A professora relata que, apesar da rapidez com que aprendem as coisas, a maioria dos alunos tem dificuldade com a língua portuguesa. “Cada um tem suas dificuldades, para os alemães são os subjuntivos que não existem na língua deles; para os espanhóis, o mais complicado é distinguir a ortografia das palavras”. Entre seus alunos, as dificuldades não são tão grandes, pois segundo Silvana, a maioria dos estudantes que frequenta suas aulas já fala um ou dois idiomas estrangeiros.

Estrangeiros no Brasil

Para entender como um cidadão de outro país aprende a língua portuguesa, Editorial J conversou com quatro alunos intercambistas sobre os desafios para conhecer a língua de Luís Camões. O coreano Roberto Lee mora atualmente em Seoul. Embora tenha vivido algum tempo no Brasil (estudou na Universidade Federal do Rio Grande do Sul), Lee ainda não consegue compreender a língua completamente e exemplifica isso contando a historia de outro coreano que conheceu, quando fazia intercâmbio, que dizia que, nem até a morte, iria conseguir entender 100% do que é dito em português. Para ele, isso se explica em parte pela grande diferença que existe entre o português e a sua língua nativa “do alfabeto, passando pela gramática até a maneira de se entender o que é dito, tudo é amplamente diferente”.

Um das razões desta dificuldade de entendimento, na opinião de Lee, está nas diferenças de pensamento e de coração entre o brasileiro e o coreano. Apesar das dificuldades, Lee diz que valeu a pena a experiência ao ponto de ser o único empregado que pode falar e entender português na empresa onde trabalha hoje na Coréia do Sul.

A estudante espanhola Marta Menor Valls que fez intercâmbio no Brasil, pois tinha vontade de conhecer novas culturas, lembra que a maior dificuldade para aprender eram os verbos, que se tornaram um dos obstáculos para formar frases direito. Outro empecilho eram palavras com sons que não existem no espanhol como é o caso da palavra pão. “Eu tentei muitas vezes pronunciar essa palavra, mas não conseguia nunca, pois este é um vocábulo muito complicado para os espanhóis”.

Marta destaca também as similaridades entre as línguas que a ajudaram a ter rapidamente uma boa compreensão do português. “Por volta de três meses depois de chegar ao Brasil, eu já conseguia entender o que as pessoas diziam quando elas falavam devagar.” A maior surpresa foi conhecer palavras com significados diferentes, os chamados falsos cognatos. “Na Espanha, sempre dizemos ADIOS quando nós despedimos, mas aqui no Brasil significa um tchau para sempre”.

O estudante francês Jean Batiste chegou ao Brasil já conhecendo o espanhol, além do francês. Por isso, ele somente teve dificuldades na gramática e em algumas palavras especificas. “No inicio, tive dificuldade para pronunciar palavras com R pelo fato de ser muito diferente do francês, mas hoje não tem palavra que eu não consiga pronunciar”. Quanto ao tempo que levou para aprender Jean diz que em seis meses já conseguia manter conversas normais com as pessoas. “Eu me sentia bem a vontade, principalmente porque os brasileiros são muitos simpáticos e pacientes, dando todo o apoio que eu precisava para aprender português”, acrescenta.

Outro francês que aprendeu português foi o Maxime Morin. Ele conhecia poucas palavras em espanhol e nada de português, por isso teve mais dificuldades. “Pouco a pouco, percebi que português, espanhol e francês são bem parecidos, já que todos vieram da raiz latina. Mesmo assim, achei difícil aprender as formas verbais em português, pois elas são muito diferentes do francês”, comenta.

Maxime ressalta que o idioma falado no Brasil é uma língua muito aberta, dinâmica e alegre. Com dois meses no Brasil, ele já começou a formar frases curtas da vida cotidiana, mas o problema era escrever os trabalhos da faculdade que eram mais complicados.

Em geral, Maxime lembra que seus colegas na época acreditavam que ele se adaptou rapidamente ao idioma. “Os brasileiros diziam que eu aprendi muito rápido a ponto de adotar expressões gaúchas como bahh!” Maxime dá a dica para quem pretende aprender outra língua. O sucesso no aprendizado consiste em treinar conversações em grupo de alto nível sem se preocupar com questões de conjugação ou gramática.

Texto: João Pedro Arroque Lopes (6° semestre)