Crise econômica afeta mundo da música

Alta do dólar, diminuição de shows, ingressos caros e pouco público reduzem a oferta de espetáculos no país

  • Por: Adriane Oliveira (6º sem) | Foto: Edu Defferrari | 18/11/2015 | 0

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   Monsters Tour (Ozzy Osbourne, Judas Priest e Motorhead), no Estádio do Zequinha, em Porto Alegre/RS

A crise brasileira que acarreta demissões e diversos cortes de gastos se reflete na diminuição de investimentos e no aumento dos custos para as empresas. Uma das áreas bastante afetadas é a do entretenimento. O mercado de eventos que registrava crescimento considerável nos últimos anos – movimentou R$ 59 bilhões em 2014 frente aos R$ 4 bilhões de 2002, segundo a Associação Brasileira de Empresas de Eventos (Abeoc) -, em 2015 teve uma grande queda e não chegou nem a metade do ano passado.

No mercado musical nacional, mesmo os artistas em evidência, como Claudia Leite, Ivete Sangalo e Paula Fernandes, já declararam que sentem a crise atingir o seu trabalho, através da considerável redução de shows em suas agendas.
No Rio Grande do Sul, artistas gaúchos também encaram a crise, mas torcem para que ela acabe logo. Para Tati Portella, vocalista da banda Chimarruts, a crise econômica atinge diretamente o entretenimento. Os shows acabam se tornando supérfluos, pois não são itens de grande necessidade como alimentação, remédios e vestuário. Além disso, Tati conta que os próprios contratantes preferem chamar um DJ e pagar uma única pessoa, do que contratar a banda completa e sua equipe de produção, gerando mais gastos com passagens aéreas ou ônibus, hospedagem, alimentação, entre outros.

A cantora comenta uma forma de os artistas lidar com a crise. “Hoje, a pessoa que começa na carreira de cantor, dançarino ou até quem lida com teatro, se muniu muito com a crise fazendo suas próprias leis de incentivo, assim tu podes conseguir fazer um planejamento de shows e, assim, excursionar o Brasil todo, sem ficar dependendo de ser contratado por casas noturnas ou festivais”.

Assim como a Chimarruts, o cantor Serginho Moah, vocalista do Papas da Língua, também relata que este é um momento delicado para os artistas. A média da banda é fazer de cinco a dez shows por mês, mas esse ano foi diferente: “É claro que nós não podemos nos entregar, mas a crise afeta o entretenimento de uma maneira geral. Para ter uma base, em setembro desse ano, o Papas da Língua teve apenas um show. Não é brincadeira. E está todo mundo falando a mesma coisa”, comenta.

Para que este segmento continue crescendo, as produtoras precisam se adequar aos transtornos que surgem e “fazer mais com menos”, buscando soluções de otimização. A Hits Entretenimento, situada em Porto Alegre, fez mais de 60 eventos em 2013. Em 2014 desacelerou prevendo que alguns shows nacionais que vinham se repetindo não estavam mais tendo a mesma venda. Neste ano, devido à crise e à alta do dólar, reduziu ainda mais, fazendo em torno de 25 shows desde os primeiros meses de 2015 até agora.

O diretor da Hits Entretenimento, Lucas Giacomolli, prevê inclusive, para 2016, a quantidade de eventos deve se manter nesse nível ou diminuir ainda mais. Algumas atrações nacionais que vinham com frequência para o Estado, a produtora optou por não agendar novamente. “Ninguém vai deixar de sair ou de curtir o artista que gosta, mas aquele show que já assistiu nos últimos tempos ou que o público sabe que pode vir daqui um ano ou dois, não vai gastar o dinheiro agora. Quando for anunciada aquela atração rara que talvez será a última chance de ver, o fã com certeza vai com comprar o ingresso e garantir presença”, calcula Giacomolli.

Segundo as produtoras, os shows vão continuar acontecendo no Brasil, mas em menor quantidade. Para Giacomolli, a economia do país ficou muito forte nos últimos anos, vinha em um crescimento muito alto, mas fora da realidade em que a população vive. Com a economia enfraquecida, o setor também sente os reflexos. “Nada vai parar, mas sim ter uma diminuição muito grande. Nos últimos dois anos, a gente diminuiu quase 50% dos shows, mas também é um número que provavelmente não vai mais baixar, pois tem um público fiel, as pessoas querem consumir, gostam e colocaram o entretenimento na sua rotina”, finaliza o produtor.

Programação menor
A atual situação de instabilidade vivida pelos brasileiros, e que até então parecia não ter afetado este setor, começa a acender o alerta vermelho. Além dos produtores culturais, outras pessoas ligadas ao meio se preocupam, mas tentam manter o pensamento positivo. É o caso da coordenadora comercial do Grupo Fiergs, Cristiane Foppa. “Se o evento perde seu patrocínio, ele se inviabiliza. Se o patrocínio é reduzido, compromete sua divulgação e produção. O entretenimento é um dos primeiros itens a ser reduzido durante a crise. Mas, sou muito otimista e fico orgulhosa quando vejo a capital gaúcha recebendo grandes atrações internacionais, como Foo Fighters e David Gilmour, em um ano de crise”, comenta a coordenadora.

Para o ano de 2016, o Centro de Eventos Fiergs terá o show da banda Maroon 5, programado para março, e mais dois bloqueios, não confirmados, no Estacionamento. No Teatro do Sesi, que faz parte do grupo, Cristiane conta que tem alguns bloqueios para shows que já foram solicitados, mas ainda estão em negociação. “Na minha opinião Porto Alegre já conquistou seu espaço no circuito cultural. Cabe a nós, centros de eventos e produtores, nos alinharmos para mantermos este cenário em funcionamento”, comenta Foppa.

Na contramão da crise, alguns artistas não veem diferença no público de seus shows. O cantor MC Jean Paul ressalta que para o funk não houve diferença em diminuição de datas. O cantor comenta ainda que sentiu mais o fato da tragédia que ocorreu na Boate Kiss, em Santa Maria, em 2013, quando teve uma queda no número de lugares para se apresentar devido as normas solicitadas pelos bombeiros, do que a crise atual vivida pelo país. “Por incrível que pareça, na área em que eu atuo, a crise não afetou. As pessoas ainda estão guardando recursos para o entretenimento. A gente tem ido aos shows e a galera também. Está sempre cheio, e isso é uma coisa que até me espanta”, explica Jean Paul.

Da mesma forma, outro músico que encara a crise com um olhar diferente da maioria é Duca Leindecker, vocalista da Cidadão Quem. Para ele, fica difícil avaliar o que é o momento do artista do que é a crise. “Pegando um artista exclusivamente, eu acho bem difícil de avaliar, porque a carreira do artista também tem uma oscilação grande, dependendo do que ele está fazendo. Eu, por exemplo, nesses meses recentes estou lançando meu DVD e estou tendo um excelente público”, comenta o cantor. Duca acredita que tudo depende do momento da carreira do artista, se ele está sem nenhum material novo, apenas trabalhando o mesmo DVD ou disco há bastante tempo, pode ter menos público e atribuir isso a crise. Para o músico, apenas os eventos que dependem de dinheiro público tiveram uma queda, como shows de prefeituras e feiras, devido à corte de verba. “Aí teve um impacto bem grande e cancelamento de shows. Mas com relação às turnês e os públicos que já são fiéis ao artista, eu não senti muito”, finaliza.

Com o dólar cotado a cima de R$ 3,80, os donos de casas de espetáculos e os produtores culturais devem refazer suas estratégias para 2016. Cada área tem sentido a seu modo e investido em novas formas de arrecadação para fazer o show continuar. A esperança é de que o momento restritivo seja passageiro e ficar atento ao comportamento dos consumidores para identificar a melhor forma de fazer o mercado retomar o rumo.

Entrevistas
Lucas Giacomolli
Serginho Moah
Tati Portella
MC Jean Paul
Duca Leindecker