“A gente não faz jornalismo de acesso a fontes óbvias”, editor do The Intercept Brasil

Responsável pelo veículo que divulgou conversa de Moro e Dallagnol, Leandro Demori comenta sobre jornalismo e o funcionamento do The Intercept Brasil

  • Por: Manuela Neves (5º semestre) e Rariane Costa (3º semestre) | Foto: Lucas Steudel / FAMECOS - PUCRS | 10/06/2019 | 0

O The Intercept Brasil publicou no último domingo uma série de três reportagens expondo conversas do então juiz, e agora Ministro da Justiça, Sérgio Moro com o procurador Deltan Dallagnol. Além dessas, também estão presentes troca de mensagens de desembargadores da Lava Jato, todas na plataforma Telegram. As conversas denunciam a suposta falta de neutralidade nos processos que envolvem o ex-presidente Lula.

O veículo realiza jornalismo investigativo no Brasil desde 2016 (existe nos Estados Unidos desde 2013), focando em política, corrupção, meio ambiente, segurança pública, entre outras questões. À frente do The Intercept Brasil está o jornalista Leandro Demori, como editor-executivo. Em entrevista ao Editorial J, Demori ressalta que o Intercept tem dois tipos de fontes: a primeira é a fonte exclusiva, que tem informações sensíveis, grandes e que os jornais hegemônicos não publicariam; já a segunda são fontes de difícil acesso, em especial para o site dado o teor das matérias que são publicadas. O diretor-executivo destaca que “não fazemos o que a imprensa faz em Brasília”, referindo-se à profundidade e à abordagem do Intercept. No conteúdo publicado no domingo, a fonte que vazou as conversas é anônima e, ao que tudo indica, se encaixa no primeiro tipo citado por Demori.

À parte desta entrevista, Leandro Demori falou em palestra realizada no último dia 6, na Famecos/PUCRS, sobre os processos judiciais e ameaças que a equipe do Intercept sofre. Além de dispor de um setor judicial para defesa dos jornalistas, é feita também uma avaliação prévia das matérias por especialistas jurídicos. Quanto às intimidações, o jornalista conta sobre já ter mudado sua rota de trabalho no período em que sofria ameaças de morte durante as eleições presidenciais de 2018. Ainda na mesma época, a First Look Media, empresa dona do The Intercept, considerou colocar seguranças e equipamentos de blindagem na redação, situada no Rio de Janeiro e sem endereço divulgado.

O escritório brasileiro do Intercept tem 20 jornalistas, número reduzido se comparado a de veículos estabelecidos, como Folha ou Estadão. Mas, segundo Demori, ex-aluno da Famecos que já teve passagens por revista piauí e Medium Brasil, o funcionamento é comum e com a vantagem de haver maior interação entre as pessoas e diferentes editorias e grupos (redes, vídeo, editores, crowdfunding). Assim, ele define a redação como “mais uma banda de punk rock onde todo mundo se conhece e fica no mesmo quarto do que uma orquestra com trezentas pessoas onde você nem conhece o terceiro clarinetista”.

No que diz respeito à relação com o público, os jornalistas são presentes nas redes sociais, em especial no Twitter. Eles não têm uma cartilha do que se deve ou não falar nas redes, variando de acordo com o que cada um acha pertinente de opinar. Nesse contexto, nem sempre as interações são pacíficas, e quando se chama a atenção para algum erro “não temos nenhuma vergonha de apagar, se corrigir, isso é muito de boa também”, diz Demori. Além disso, o Intercept preza pelo impacto na realidade que seus trabalhos podem gerar.

Neste domingo, após a publicação das reportagens, o assunto mobilizou as redes sociais, sendo a tag #vazajato um dos assuntos mais comentados da noite. Hoje, em consequência, as tags mais usadas no Twitter são #morocriminoso e #euapoioalavajato. No Google Trends, ferramenta que mensura o volume das buscas no Google, o impacto da reportagem também se fez presente, conforme o gráfico.