Desemprego atinge primeira leva de haitianos que chegou a Porto Alegre

  • Por: Eduardo Pinzon (1º semestre) | 26/05/2015 | 0

Nesta semana, devem chegar a Porto Alegre cerca de 300 haitianos, mas esta não é a primeira leva migratória procedente do país caribenho. Na Capital, atualmente vivem outros 300 haitianos que vieram em busca de melhores condições de vida. Não há informações consolidadas sobre a situação de todos, mas são frequentes as histórias de desemprego e de arrependimento por terem migrado para o Brasil.

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Na galeria de fotos abaixo, conheça o local onde os imigrantes ficarão hospedados:

Nos últimos seis meses, 28 foram demitidos de empregos na construção civil. Eles alegam que, por desconhecerem o idioma português, assinaram contrato de experiência cujo vínculo era de 90 dias, previsto na Consolidação das Leis Trabalhistas (CLT). Não se trata de uma ilegalidade, porém, a demissão criou um problema que despertou a atenção do Sindicato dos Trabalhadores na Indústria e Construção Civil de Porto Alegre (STICC/POA).

Os imigrantes começaram a chegar ao Brasil em 2011, depois que a região da capital do Haiti foi devastada por um terremoto em janeiro de 2010. Na ocasião, 320 mil pessoas morreram, e o país mergulhou em uma grave crise econômica e social. O paradeiro preferencial dos imigrantes era a República Dominicana e a Guiana Francesa, mas a segunda passou a impedir sua entrada. Como este pais faz fronteira com o Brasil, eles passaram a ingressar no país.

Dos haitianos que vieram para Porto Alegre, muitos foram atraídos por empregos na construção civil. Algumas empresas, inclusive, assumiram os custos da viagem de ônibus do Amazonas para o Rio Grande do Sul. Sem dominar a língua portuguesa, os imigrantes desconheciam que o contrato de trabalho tinha prazo determinado. Após esse período, foram demitidos pelas empresas, que não tinham obrigação de contratá-los.

Para a procuradora Patricia Sanfelice, do Ministério Público do Trabalho (MPT), não há irregularidade nessa forma de admissão. Ela participou do 4º Seminário de Valorização do Trabalho e Vida, promovido pelo Sindicato dos Trabalhadores na Indústria e Construção Civil de Porto Alegre (STICC/POA), que discutiu, no final de abril, a situação dos imigrantes.

A procuradora afirmou no evento que a língua é a principal barreira enfrentada pelo grupo.  ”Assim como ela não permite que a pessoa compreenda o que lhe está sendo ofertado em termos laborais, também complicará seu relacionamento com os colegas brasileiros”, explica.

Para o secretário-geral do sindicato, Gelson Santana, o país abriu suas fronteiras para os imigrantes, mas não tem nenhuma lei para protegê-los. Além disso, ressalta que a entidade busca acolher todos os haitianos. “O STICC traduziu acordos e convenções para o francês [uma das línguas oficiais do Haiti], para que eles entendam todos os direitos e deveres que têm enquanto trabalhadores da construção civil”, salienta. O próximo passo é a implantação de um curso de língua portuguesa para os estrangeiros, cujas inscrições se encerraram no dia 26 de maio. As aulas ocorrerão de 30 de maio a 7 de novembro.

O embaixador do Haiti no Brasil, Madsen Cherubin, também participou do seminário. Para o diplomata, o problema enfrentado em Porto Alegre pelos seus compatriotas não é o primeiro dos reveses, que começaram ainda quando eles se encontravam no Haiti, país que já sofria com a pobreza antes mesmo do terremoto. Cherubin citou que, em 2004, eram emitidos uma média de 20 passaportes por ano. Agora, cinco anos após o terremoto, o número aumentou para mais de cem.

Desemprego 

Robson Etieni, 27 anos, é um dos haitianos desempregados em Porto Alegre. Ele saiu do país após o terremoto. Durante três anos, viveu na República Dominicana, onde trabalhou na construção civil e vivia bem, pois o país estava recebendo muitos investimentos. “Ganhei bastante dinheiro trabalhando lá, conseguia mandar inclusive para os meus familiares, que seguiam vivendo no Haiti”, relata. Buscando conseguir mais ganhos e motivado por amigos que trabalhavam em São Paulo, Etieni seguiu até o Equador e depois para o Acre, de onde rumou a São Paulo, onde encontraria um primo.

A viagem para o Brasil foi bancada com o dinheiro que guardou durante o tempo que esteve na República Dominicana. Em São Paulo, Etieni se uniu ao primo e a um amigo, e de lá o trio veio para Porto Alegre, onde chegaram em dezembro do ano passado. No dia 5 de janeiro, ele começou a trabalhar em uma obra. Foi demitido em 20 de abril e até agora segue desempregado.

Etieni lamenta ter saído da República Dominicana, onde vivia uma situação confortável. Na capital gaúcha, passa as tardes na casa alugada que divide com o primo e o amigo no bairro Humaitá. Pelas manhãs, busca uma nova ocupação, mas sem sucesso. No Sindicato dos Trabalhadores na Indústria e Construção Civil de Porto Alegre, deixou seu contato, caso surja alguma oportunidade. Etieni conta que também sofre com o preconceito que, ele imagina, decorre da sua origem.

Recomeço

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Jacquelin Saint Fluer, 27 anos, conseguiu efetivação no emprego. (Eduardo Pinzon)

A história em Porto Alegre do pedreiro haitiano Jacquelin Saint Fleur, 27 anos, é diferente da que ocorreu com a maioria dos imigrantes de mesma nacionalidade. Longe de casa desde 2012, ele chegou ao Brasil com a esperança de começar uma nova vida. Antes de desembarcar no país, morou por três anos na República Dominicana, onde trabalhou e estudou engenharia civil, sem concluir o curso. Na capital gaúcha, conseguiu ser efetivado no emprego em uma empresa de construção, porque o tempo que frequentou a universidade o coloca em uma condição melhor do que a dos outros haitianos.

Fleur relata como foi difícil o início no “novo mundo”. Ele não sente vergonha em contar sobre os momentos em que passou fome, a dificuldade de arranjar emprego e de se comunicar. “Saí do Haiti, passei pelo Equador, Peru e depois desembarquei em Manaus. Tudo era muito difícil lá, por isso, segui com um grupo de mais 40 haitianos para Santa Catarina. Depois nos dispersamos e vim parar em Porto Alegre”, descreve, misturando o criole haitiano com o português.