Deusa Nimba está no saguão da biblioteca da PUCRS

Estátua da deusa africana fica em exposição até final de outubro.

  • Por: Manuela Neves (4º semestre) | Foto: Eduardo Seidl | 26/09/2018 | 0

Uma deusa africana ocupa o saguão da Biblioteca Central Irmão José Otão, da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS) desde essa quarta-feira, 26 de setembro. É a estátua da Deusa Nimba, artefato encontrado nos anos 1980 por pescadores em meio aos cascalhos e à areia durante a seca que atingiu o rio Ijuí, na região Noroeste do Estado, que ficará em exposição até 31 outubro.

Após a descoberta feita pelos pescadores, Getúlio Soares, cidadão de Santo Ângelo conhecido por dar atenção a objetos de arte, adquiriu a estátua. Em 2016, o coordenador do Núcleo de Estudo de Culturas Afro-Brasileira e Indígena (NEABI) da PUCRS, professor Édison Hüttner, estava em Santo Ângelo para uma exposição e, ao dar uma entrevista no rádio, comentou sobre a possibilidade da existência de peças importantes na região. Ao ouvir a entrevista, Soares decidiu ceder a deusa Nimba para pesquisa.

A dúvida que motivou o estudo foi a origem da deusa, que aparentava ser inca ou africana. A pesquisa foi conduzida até este ano, quando se confirmou a raiz africana dela. De acordo com o professor Hüttner, a estátua encontrada é brasileira e produzida por afro-descendentes da etnia Baga, vindos do oeste africano. Estima-se que essa reprodução da deusa Nimba date de 1765 em diante, período em que o maior grupo de negros da Guiné veio ao Brasil, porém há outros momentos históricos possíveis. O coordenador do NEABI diz que o motivo que manteve a estátua preservada por centenas de anos é seu material. A madeira Guajuvira, típica do Rio Grande do Sul e de outras regiões do Brasil, é muito forte e resistente à água. “Se fosse outra madeira ela não existia mais”, observa Hüttner.

Estátua em madeira da Deusa Nimba, referente à etnia Baga, encontrada na década de 80 no município de Santo Ângelo. Foto Eduardo Seidl/Famecos/PUCRS

Há registros de rituais com a divindade desde 1615 na Festa do Arroz Vermelho, em nascimentos e falecimentos e na colheita do arroz. Embora exista mais de uma reprodução da deusa Nimba, todas se enquadram em um padrão. O professor Hüttner explica que “ela tem uma trilogia: a cabeça, o peito e os quatro pés”. Na cabeça a crista, em referência ao pássaro calau, e cabelos trançados junto ao couro cabeludo; dois seios grandes, significando fertilidade, um modelo de beleza e o cuidado com os filhos até a infância; e os quatros pés, pois a deusa era usada nos ombros em dias de festa. As diferenças identificáveis entre as representações dizem respeito ao tamanho do pescoço, presença de metal em algumas e forma dos olhos. Além disso, a encontrada no Estado não tem nariz, pois foi esculpida no tamanho do bloco de madeira e não restou espaço, e tem o formato ideal para a música e dança.

O pesquisador explica que “é muito interessante que a peça nos faz refletir sobre as raízes da cultura africana”, visto que ao virem para o Brasil as etnias africanas normalmente eram apagadas, deixando descendentes africanos sem saber sua exata origem. Ele acredita também que expondo o artefato é possível que pessoas identifiquem peças similares em casa que possam ser de interesse público. Após 31 de outubro, a ideia é levar a deusa para outras exposições por alguns meses, ainda sem previsão de um destino final para ela, que pertence à família de Getúlio Soares e está sob os cuidados do NEABI.