Historiador ressalta a participação da classe empresarial no golpe de 1964

O empresariado do Rio Grande do Sul também esteve representado na mobilização pela derrubada do presidente João Goulart, em 1964. O historiador Thiago de Moraes acredita que o Instituto de Pesquisa e Estudos Sociais (IPES), que existiu entre 1961 a 1972, foi o principal articulador da classe empresarial gaúcha naquele movimento. Essa é uma das conclusões da dissertação de mestrado “Entreguemos a emprêsa ao povo antes que o comunista a entregue ao Estado: os discursos da fração “vanguardista” da classe empresarial gaúcha na revista Democracia e Emprêsa” do Instituto de Pesquisas Econômicas e Sociais do Rio Grande do Sul (1962-1971), defendida por Thiago de Moraes, em 2012, na PUCRS.

Na terça-feira (25/03), o conteúdo da dissertação foi apresentado pelo historiador em palestra realizada na universidade. De acordo com Moraes, o IPESUL, divisão gaúcha do IPES, participou da articulação do movimento através da propagação de artigos anticomunistas na grande mídia. A instituição era responsável pela publicação da revista Democracia e Emprêsa, que circulava entre empresários e associados. Ainda que o instituto fizesse oposição ao Estado, o órgão recebia isenção fiscal para a produção da revista.

Com grande utilização de recursos visuais, como gráficos, mapas e estatísticas, as reportagens da Democracia e Emprêsa sobre a ameaça comunista causavam a impressão de que o modelo soviético dominava a maior parte do globo. Na matéria “Amostra da Infiltração Comunista”, publicada na edição de agosto de 1964, um encarte várias vezes maior que o tamanho da própria publicação trazia um infográfico com tabelas que mapeavam pessoas e instituições comunistas, supostamente infiltrados em diferentes setores da sociedade civil. Na mesma edição, artigos antijanguistas alarmavam sobre um possível contragolpe do presidente deposto, apenas quatro meses após a tomada militar, em reportagem intitulada “Situação atual do comunismo e sua infiltração particularmente na América Latina e no Brasil”. De acordo com o texto, a descoberta de um “Plano Nacional de Rearticulação Comunista”, organizado por estudantes porto-alegrenses, evidenciara a articulação de uma retomada ao poder, liderada por grupos brizolistas.

Revista “Democracia e Emprêsa” foi o objeto da pesquisa do historiador Thiago de Moraes.

O IPES também teria pagado jornalistas e articulistas para que levassem determinadas pautas para a grande mídia. Segundo consta em atas do IPES-RJ de 1962, levantadas pelo historiador Hernán Ramírez, o instituto recrutou um grupo de 30 pessoas reconhecidas na esfera pública para formarem uma equipe destinada a escrever artigos sobre pautas determinadas pelo instituto. Os contratados recebiam remuneração base de cinco mil cruzeiros — cerca de R$ 140 em valores de hoje — por artigo, cujo pagamento era efetuado pela empresa Antártica.

Além do alarmismo político, discussões empresariais eram publicações frequentes. Um mês antes do golpe, no artigo “Relações humanas na empresa”, a revista apresentava a ideia de um novo modelo de gestão para empresários, que desestimularia as demandas do trabalhismo. O instituto ficou marcado pela tentativa de implementar um novo conceito de administração empresarial, concebido como uma “humanização do trabalho”. Para combater a suposta ameaça comunista e apaziguar as reivindicações trabalhistas, os empresários construíram a ideia de que era preciso ceder benefícios aos trabalhadores como, por exemplo, ofertar ações da empresa, possibilitando a distribuição de parte do lucro com os empregados. A ideia de cogestão entre empresários e funcionários é resumida por Thiago Moraes no título da sua dissertação: “Entreguemos a empresa ao povo, antes que o comunista entregue ao Estado”.

Liderado pelo então presidente da Federação das Associações Comerciais e de Serviços do Rio Grande do Sul (Federasul), Álvaro Coelho Borges, o instituto contou com importantes nomes do empresariado gaúcho. Entre eles, consta Antônio Jacob Renner, fundador das Lojas Renner, patrocinador da revista Democracia e Emprêsa e sócio-fundador do IPESUL; Donald Charles Bird, agente do FBI na 2º Guerra Mundial, fundador da rede de supermercados Real (atual Nacional) e sócio-fundador do IPESUL; e Paulo Vellinho, sócio-fundador do IPESUL, também patrocinador da revista e integrante, de 2010 a 2012, do Conselho de Desenvolvimento Econômico e Social do Rio Grande do Sul.

A sede do IPESUL era localizada no atual prédio do Palácio do Comércio, no Centro Histórico de Porto Alegre. De acordo com Thiago de Moraes, o instituto gaúcho era um dos mais ativos do país, ao lado do IPES de Minas Gerais.

Clique aqui para acessar a dissertação de Thiago de Moraes em formato pdf.

Texto: Gabriel Gonçalves (3º semestre)