Documentário “O Caso do Homem Errado” reapresenta morte de operário inocente

Produção pré-estreia nesta quinta, às 20 horas, na Cinemateca Capitólio, em Porto Alegre

  • Por: Italo Bertão Filho (3° semestre) | Foto: | 11/05/2017 | 0
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Foto: Divulgação

Há 30 anos, um caso de abuso de autoridade chocou o Rio Grande do Sul. Três décadas depois, o documentário “O Caso do Homem Errado” apresentará a história de um operário negro que foi detido e morto, mesmo inocente. A produção traz também os depoimentos do fotógrafo Ronaldo Bernardi, que acompanhou o crime, e da viúva do operário, bem como de representantes da luta dos direitos humanos no Brasil.

Dirigido pela jornalista Camila de Moraes, o documentário terá sua pré-estreia nesta quinta-feira (11), às 20 horas, na Cinemateca Capitólio. Os ingressos estão à venda por R$ 10.

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Foto: Divulgação

 

O caso

Anoitecia em 14 de maio de 1987. Pouco depois das 19 horas, cinco homens assaltaram o supermercado Dosul, no bairro Partenon, em Porto Alegre. A Brigada Militar foi até ao local e entrou numa troca de tiros com os assaltantes. Um homem foi ferido e chegou ao Hospital de Pronto Socorro (HPS) morto. Não fossem as lentes do fotógrafo Ronaldo Bernardi, do jornal Zero Hora, seria mais um acontecimento cotidiano da crônica policial. Porém, Bernardi registrou que o suposto assaltante, de identidade desconhecida, saiu com vida da cena do crime, às 19h30min, e chegou morto ao HPS, às 20h07min.

O homem se chamava Júlio César de Melo Pinto. Negro, tinha 30 anos e trabalhava como operário na Corazzi Engenharia, uma prestadora de serviços da extinta Companhia Riograndense de Telecomunicações (CRT). Há tempos sofria com problemas de saúde. Dias antes do crime tinha sido diagnosticado com epilepsia. Passou a ingerir o remédio Gardenal, medicamento utilizado no tratamento de crises provocadas pela doença. Estava sem documentação quando passava pelo local do crime e teve um ataque epilético provocado pelo ambiente violento da cena. Em meio ao tumulto, foi acusado de ser um dos assaltantes pelos populares que acompanhavam o desenrolar do crime. Ouviu frases como “Lincha esse vagabundo!”. Acabou sendo espancado e carregado pelos policiais até a viatura, estacionada perto dali.

Acompanhando a confusão, Bernardi fotografava o caos dentro do supermercado, quando ouviu os gritos e virou a câmera para o lado oposto, registrando Júlio César ser agredido na viatura. Parou de fotografar quando o filme acabou. Junto com o repórter Darci Demétrio, seguiu para o HPS e, mais uma vez, fotografou Júlio César, que estava morto, em uma maca. No dia seguinte, o crime foi para a capa de Zero Hora e ficou conhecido como “O Caso do Homem Errado”. A BM instalou um inquérito para investigar as circunstâncias do caso, mas as imagens comprovam o fato: policiais assassinaram um homem inocente. Seis brigadianos acabaram sendo condenados pela Justiça Militar pela morte do operário. A justiça foi feita.

Assista ao trailer: https://player.vimeo.com/video/212615121