Documentário retrata superlotação e facções do Central

Produtores de Central debatem, na PUCRS, documentário sobre o longa

  • Por: Victoria Urbani (4º sem.) | Foto: Mia Sodré (2º sem.) | 20/10/2016 | 0

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Em média 38 pessoas ocupam uma cela com capacidade máxima de apenas oito. Os números indicam a superlotação do Presídio Central de Porto Alegre que tem vaga para 1.984 detentos, mas atualmente conta com cerca de 4.500. O documentário Central, que mostra a realidade do presídio, foi exibido no último dia 18, no prédio da Faculdade de Informática da PUCRS, em um debate promovido pelo Programa de Pós-Graduação em Ciências Sociais da mesma universidade, em conjunto com o Grupo de Pesquisa em Políticas Públicas de Segurança e Administração da Justiça Penal.

O documentário, de Tatiana Sager e Renato Dorneles, exibe a situação de um dos maiores presídios da América Latina e é baseado na obra Falange Gaúcha, de Dorneles. Segundo o coordenador do Programa de Pós-Graduação de Ciências Sociais e líder do grupo de pesquisa em Políticas Públicas de Segurança e Administração da Justiça Penal, Rodrigo Azevedo, o crescimento da ação da polícia militar contra o mercado de drogas, leva à prisão de pequenos traficantes o que provoca a superlotação. Devido a essa circunstância, os presidiários sofrem com problemas de esgoto, energia elétrica e água. De 1500 mortes ocorridas em 15 anos no sistema penitenciário estadual, 89% são decorrentes de doenças, como a tuberculose, enquanto 11% pela violência.

O longa vencedor do Festival de Cinema Itinerante da Língua Portuguesa (FESTin) de 2016, além de revelar as condições dos presidiários, apresenta depoimentos de policiais e autoridades, como o juiz Sidinei Brzuska, da Vara de Execuções Criminais, e o promotor de Justiça Gilmar Borolotto. Produzido pela Panda Filmes, Central pretende ser uma obra cinematográfica didática, provocando a reflexão do público.

Alvo de constantes denúncias à Organização dos Estados Americanos (OEA), por violação dos direitos humanos, o Presídio Central de Porto Alegre também enfrenta problemas com  as facções criminosas que lá se organizaram. Para as imagens serem feitas dentro das galerias, houve negociações e foram entregues câmeras aos líderes das facções, conhecidos como “plantões de galerias”. “O mais grave hoje é que todas alas são administradas por grupos que submetem os presos as suas regras. São regras das facções, e não do Estado”, ressalta Azevedo. Assim, há menor interferência do Estado, que possibilita maior incidência criminal. De 2010 a 2012, foram apreendidas 44 armas, 50 quilos de drogas e 3000 celulares no Central, de acordo com o tenente Osvaldo Luis.

O documentário também revela o perfil das pessoas que estão no Presídio Central:

– 68% são analfabetos funcionais;

– 67% está na faixa etária entre 18 e 24 anos;

– 33% são negros (16% da população gaúcha é negra, ou seja, há o dobro no Presídio Central);

– Menos de 10% cometeu homicídio, crime considerado o mais grave.

“Foi difícil lidar com os líderes das facções. Fizemos uma reunião com a ‘cúpula’, formada por 26 presidiários, com o propósito de denunciar essa superlotação. Mas, para minha surpresa, eles a aprovam por conseguirem mais controle dentro das galerias”, conta Tatiana, produtora, diretora e roteirista do longa, que começou a ser filmado em 2013.

A cineasta tem planos de criar uma série em 2017, para abordar outros temas que foram deixados de lado no documentário, como a área segregada de transsexuais e a relação dos confinados com os familiares.

TRAILER – CENTRAL from Panda Filmes on Vimeo.

Confira também a galeria de fotos realizada pela equipe do Editorial J nos corredores do Presídio Central.

Presídio Central de Porto Alegre