E os haitianos?

  • Por: Eduardo Pinzon (1º semestre) | Foto: Pedro Zandomeneghi (4º semestre) | 02/06/2015 | 0

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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Quando o ônibus da empresa Santo Anjo estacionou no box 50 da Estação Rodoviária de Porto Alegre no horário previsto, por volta de 22h50min de segunda-feira (1º/6), o time da imprensa se alvoroçou. Eram oito, entre repórteres, câmeras, fotógrafos, motoristas e estudantes de Jornalismo. Todos se posicionaram para esperar seis haitianos provenientes de Florianópolis. Os passageiros começaram a descer e se assustaram com o alvoroço e a luz das câmeras. Quando o último desembarcou, desânimo. Não apareceu nenhuma pessoa que se assemelhasse aos imigrantes que buscam melhores condições de vida depois do terremoto de janeiro de 2010, que destroçou Porto Príncipe, capital do país caribenho, e suas adjacências. Quinze minutos depois, outro ônibus pintado de prata, azul e laranja parou no box 53. Dessa vez, tinha que ser.

A turma da mídia novamente se perfilou à espera dos haitianos. Como 95% da população do país é negra, assim que o primeiro negro desceu, passou a ser acompanhado pelas câmeras, mas bastou falar uma frase quando encontrou seus amigos que o aguardavam para que os jornalistas percebessem que se tratava de um brasileiro. Não era quem esperavam.

Um dos últimos passageiros a descer do ônibus também era negro. Aparentava ter 30 anos, e logo as lentes se voltaram para ele. Assustado, dirigiu-se ao bagageiro para retirar um mochilão alaranjado, típico de viajantes. A primeira pessoa a abordá-lo foi o secretário municipal de Direitos Humanos, Luciano Marcantônio, que trazia em seus ombros uma bandeira do Haiti. Mesmo à distância, ficou evidente que a dupla não conseguia se entender.

– Preciso de alguém que fale inglês – disse o secretário, dirigindo-se aos jornalistas. Acabou socorrido pelo estudante de Jornalismo Pedro Zandomeneghi, da PUCRS. O universitário logo descobriu que o passageiro abordado se tratava de um ganês proveniente de Criciúma (SC) e que embarcaria no Aeroporto Salgado Filho rumo ao Equador. Mais uma vez, não era.

O grupo que tentava noticiar a chegada dos imigrantes se reuniu em círculo enquanto esperava alguma novidade vinda do secretário. Às 23h36min, o aviso de chegada de uma mensagem soa no celular de Marcantônio. Provinha de uma funcionária da área de Direito Humanos da prefeitura de Florianópolis, informando que nenhum haitiano pisaria em Porto Alegre naquela noite. Naquele momento, acabava mais uma jornada de trabalho das equipes de reportagem, que nos últimos dias se agitam a qualquer possibilidade de chegada de imigrantes.

Haitianos e senegaleses eram aguardados desde 21 de maio. A prefeitura de Porto Alegre tomou conhecimento, por meio da imprensa, que o governo do Acre mandaria oito ônibus cheios de imigrantes em direção às regiões Sudeste e Sul, com paradas pelo caminho. A Secretaria de Direitos Humanos da Capital rapidamente iniciou uma mobilização para receber os caribenhos e africanos. Como o alojamento da Brigada Militar estava ocupado, o Centro Humanístico Vida, da Fundação Gaúcha do Trabalho e Ação Social (FGTAS), foi preparado para receber cerca de cem imigrantes – capacidade que poderia ser triplicada. Dos 33 imigrantes que desembarcaram em Porto Alegre, todos tinham onde ficar em casas de familiares no interior do Rio Grande do Sul. Até hoje (2/6), nenhum imigrante utilizou o abrigo preparado pela prefeitura. E a imprensa continua esperando novas histórias, enquanto os jornalistas de plantão seguem perguntando:

– E os haitianos?