Eleitores de primeira viagem e a ressaca das manifestações de 2013

  • Por: | 05/10/2014 | 01

“É chato”, manifestou Anderson de Oliveira, 19 anos. O estudante de Engenharia Mecânica evidenciou insensibilidade em relação à sua primeira participação como votante. Assim como Anderson, os jovens, em especial os eleitores de primeira viagem, demonstram descrença na política e no voto como ferramenta de mudança. Mesmo após a grande mobilização causada pelas manifestações de 2013, eles ainda se sentem apreensivos em relação ao futuro político do país.

Despertados pela imposição do aumento da passagem de ônibus nas principais capitais brasileiras, milhões de pessoas tomaram as ruas reivindicando seus direitos. Compostos por maioria jovem, os protestos de junho de 2013 marcaram o ano. Por todo o país, gritos clamavam por melhorias no transporte público, na educação e na saúde, além do fim da corrupção. Organizados através de redes sociais, os movimentos começaram a ganhar força e a atrair participantes unidos por objetivos em comum.

Assim surgiram blogs como o Liberte-se do Sistema , do estudante Bernardo Sommer, 22 anos. Com o objetivo de divulgar opiniões e informações não veiculadas na mídia tradicional, Bernardo encontrou na internet o meio ideal para atingir um público maior e que apresenta ideais semelhantes, podendo fazer a diferença.  Devido as ferramentas multimídia, os protestos tomaram proporções maiores do que o esperado.

Em São Paulo, 200 mil pessoas tomaram as ruas no dia 17 de junho, posteriormente conhecido como “Segunda-feira Branca”. Participante das manifestações ocorridas na capital paulista, Rafael Mentges, 31 anos, disse que nunca havia vivenciado momento parecido. “Consegui sentir que as pessoas estavam se propondo a efetivar uma grande mudança”, declarou. Rafael descreveu a noite do dia 17 como uma ocasião extraordinária, em que nem mesmo os motoristas se deixaram atrapalhar pela paralisação do trânsito. De acordo com ele, a pacificidade do protesto trouxe aos presentes um sentimento nacionalista que permitiu minimizar desavenças em prol de um objetivo maior.

Esse período se reflete no voto dos jovens eleitores, como Débora Chaves, 16 anos, que exerceu, pela primeira vez em 5 de outubro, o direito de voto. A estudante conta que as manifestações influenciaram na decisão de votar, pois viu a revolta contra o modo de governo que existia e sentiu vontade de entrar na luta. “Decidi votar para fazer minha parte nessa mudança”, acrescenta.

A vontade da mudança através do voto, porém, não é unânime. Desacreditado da política, Matheus Oliveira, 19 anos, deixou para fazer o título de eleitor na última semana prevista.  “A gente vota, elege e continua a mesma coisa. Eles não fazem nada por nós’’, falou indignado, após votar também pela primeira vez.

A ficha limpa e a história no meio político foram os principais pontos de pesquisa para o estudante de jornalismo Cassiano Teixeira, 20 anos, decidir para quem dar seu voto. Segundo ele, os protestos de junho serviram para alertar o povo. Em relação à sua primeira eleição em 2012, ele evidenciou um amadurecimento político pessoal, ressaltado pelas manifestações. “Nós é que estaremos aqui no futuro”, lembra mostrando a importância da conscientização na hora de votar.

A divergência é clara entre a nova geração de eleitores. Enquanto alguns mostram otimismo quanto ao futuro político do Brasil, existem os que não acreditam em mudanças por parte do governo. “Posso votar em uma pessoa pelas suas propostas, mas nada me garante que ela manterá o que promete”, lamenta Bernardo Sommer, que vê nas políticas públicas a verdadeira transformação nacional.

“Gostaria que todos nós – brasileiros – pudéssemos ter uma vida digna, podendo, principalmente, ter moradia, sistema de saúde de qualidade e acesso à educação. Assim, todos nós poderemos ter orgulho do país em que vivemos” argumenta Gabriela Hantt, 17 anos. A estudante do terceiro ano do Ensino Médio acredita que, através do voto, o povo pode se manifestar e escolher os candidatos com quem mais se identifica, esperando que estes defendam os interesses da população. Ressalta, ainda, que é de extrema importância que cada cidadão vote de maneira consciente e responsável.

O voto facultativo a partir de 16 anos foi um direito conquistado pelos jovens e incorporado a Constituição de 1988. Antes do último dia para a realização do título de eleitor, o número de votantes entre 16 e 18 anos já ultrapassava a casa de um milhão. O reflexo das ruas mo
lda o perfil da nova geração de eleitores brasileiros e pode vir a representar uma diferença até o encerramento do período eleitoral.

Este material integra a cobertura realizada pelos alunos do Editorial J, laboratório do curso de Jornalismo da Famecos-PUCRS, com supervisão dos professores Alexandre Elmi, Fábian Chelkanoff, Fabio Canatta, Flavia Quadros, Ivone Cassol, Marcelo Träsel, Marco Antonio Villalobos, Tércio Saccol e Vitor Necchi.

Texto: Eduarda Endler Lopes (1ªsem.), Giovana Fleck (2ª sem.) e Isabella Mércio (3ªsem.)
Foto: Frederico Martins (6º sem)