Em Porto Alegre, Dilma defende-se de acusações e afirma legitimidade de seu governo

Presidenta afastada participou de lançamento do livro A Resistência ao Golpe de 2016 e de manifestação contra seu impedimento na Capital

  • Por: Alícia Porto (3º sem.), Aristoteles Junior (4º sem.) e Victoria Urbani (3º sem.) | Foto: Sara Santiago (3º sem.) | 04/06/2016 | 0

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A presidenta afastada Dilma Rousseff esteve em Porto Alegre, na sexta-feira (3), para prestigiar o lançamento do livro A Resistência ao Golpe de 2016. A obra é uma coletânea de artigos, feitos por intelectuais e acadêmicos, sobre a conjuntura política atual e sua semelhança com o golpe militar de 1964. O ato aconteceu no Teatro Dante Barone, da Assembleia Legislativa do Rio Grande do Sul. Após o evento, Dilma seguiu para a Esquina Democrática, onde participou de manifestação contra o seu impeachment.

13329461_1048536681893439_7109939414419003960_oFora da Assembleia, uma longa fila se formava com aqueles que esperavam para ouvir a presidenta afastada discursar. Além dela, aliados políticos e representantes de organizações ocuparam o palco do Dante Barone, revezando-se ao microfone. Os petistas Olívio Dutra e Raul Pont foram os mais celebrados pelo público, que lotou o teatro e o lado externo do local.

Um telão foi disponibilizado para que o público que não conseguiu acesso ao teatro acompanhasse o ato de solidariedade. Na lateral do prédio, um grupo de participantes de coletivos feministas encontrava-se com tambores improvisados, entoando palavras de ordem contra o machismo, em apoio à Dilma.

O cantor Nei Lisboa abriu oficialmente o evento, com uma música composta em apoio à presidenta. A letra Dilma Já Vai voltar; é Dilma, e Fora Temer estabeleceu o tom dos discursos, que enfatizaram o fato de a presidenta afastada ser uma mulher forte e ocupar um cargo de poder e influência. Logo após a sua apresentação, Dilma, emocionada, recordou e homenageou o irmão do artista,  Luiz Eurico Lisboa, militante político preso durante a ditadura militar e desaparecido desde então.

“A escolha da frase ‘Ordem e Progresso’, estampada em nossa bandeira do século 19, como slogan do governo Temer representa o retrocesso que estamos vivendo”, afirmou uma das autoras Magda Biavaschi. A economista disse ainda que muitas das razões para que o impeachment esteja ocorrendo estão localizadas no fato de Dilma ser a primeira mulher presidenta do Brasil.

O ex-governador do Rio Grande do Sul Tarso Genro deixou as homenagens de lado e promoveu um discurso inflamado contra o presidente interino Michel Temer (PMDB). “Eles (oposição) organizaram uma confederação de denunciados, processados, investigados. Organizaram uma confederação de corruptos para tentar depor a nossa presidenta”, afirmou. Tarso foi muito aplaudido e saudado com gritos de “volta Tarso” e “fora Sartori”.

Bem-humorada, Dilma iniciou sua fala brincando com o fato de a Casa Civil ter proposto que ela pudesse viajar apenas para Porto Alegre. Segundo a presidenta afastada, os gaúchos deveriam se sentir “tristes e felizes, ao mesmo tempo” com a proposição, a qual considera como um escândalo. Dilma, porém, categorizou: continuará viajando pelo Brasil inteiro, para encontrar com seus apoiadores.

Em cerca de 45 minutos de discurso, Dilma defendeu-se de acusações e afirmou a legitimidade de seu governo, concluindo que o impeachment é um golpe à democracia. “Se a democracia pudesse ser representada por uma árvore, o golpe militar de 1964 foi um machado, que destruiu essa árvore. Enquanto isso, o golpe parlamentarista de 2016 é como um parasita: destrói a árvore internamente, de forma lenta”, comparou.

A presidenta, eleita em 2014 com 54 milhões de votos, alertou seus apoiadores: “O que está em jogo no Brasil não é o meu mandato, é como teremos os processos democráticos daqui para frente. Como garantiremos que os direitos não sejam tomados por um retrocesso político”. Dilma ressaltou que todos os governos buscam articulação com o centro, que possui hegemonia da direita, para garantir governabilidade, e que utilizou das mesmas ferramentas econômicas que Fernando Henrique Cardoso (PSDB) e Lula (PT), sendo a única indiciada por crime de responsabilidade.

Dilma deve passar por 14 capitais para a divulgação do livro e discursar sobre a conjuntura política atual do país. O deputado federal Henrique Fontana (PT-RS) apontou a importância da mobilização do povo brasileiro, “É possível derrotar esse golpe, retomar a democracia brasileira, recolocando a presidenta da cadeira de onde ela jamais deveria ter saído”, completou.

A deputada federal Maria do Rosário (PT-RS), que estava presente no evento, destacou o papel histórico do Rio Grande do Sul na defesa da democracia do país. Ela ainda denunciou o governo de Temer, em função das ameaças às políticas sociais. “No que trata a questão dos costumes e questão cultural da nação, é um governo conservador, e até mesmo retrógrado. Ele atua contra direitos fundamentais das mulheres, da comunidade LGBT, dos povos indígenas”, afirmou.

No lado de fora do Dante Barone, a corretora de imóveis Janice Machado acompanhou os discursos pelo telão. “Todos que têm consciência da atual situação política precisam dar força a Dilma, que não possui contas no exterior. As investigações sobre ela não apontam absolutamente nada”, afirma. Janice considera que o presidente do Superior Tribunal Federal, Ricardo Lewandowski, sabia dos fatos contra o Cunha, que teve contas secretas na Suíça reveladas pelo Ministério Público do país, e, ao segurar seu afastamento, serviu aos interesses do que chama de “golpe”.

Por volta das 17h30 se iniciou uma concentração, na Esquina Democrática, para a manifestação contra o impedimento de Dilma, organizada pela Frente Brasil Popular. Após a cerimônia no Teatro Dante Barone, Dilma seguiu para o local, onde brevemente denunciou atos do governo, afirmando que ele está “destruindo e violentando a nossa democracia”.

13323285_1048536705226770_8784291377406127661_oDepois dos discursos no local, durante mais de três horas, os manifestantes percorreram o centro de Porto Alegre até a Avenida Independência. A multidão parou em frente à Igreja Universal do Reino de Deus, onde leram um manifesto pela diversidade sexual. Dentro do estabelecimento, alguns curiosos se direcionaram às janelas e foram fortemente vaiados pelos participantes.

O grupo seguiu pela Rua Conceição onde, no viaduto, se encontravam apoiadores com cartazes pedindo a demarcação de terra. Na Avenida Independência, os manifestantes passaram em silêncio na frente do Hospital Beneficência Portuguesa.

O protesto organizado pela Frente Brasil Popular acabou pacificamente em frente à sede do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), que se encontra ocupada em protesto contra o fim do Ministério da Cultura. Os manifestantes demonstraram seu apoio à ocupação com músicas exaltando a importância da cultura na democracia.

Os ocupantes, por sua vez, agradeceram com saudações calorosas ao apoio. Lá, foi lido, da sacada da construção, um manifesto pela cultura. Produzido pela própria ocupação, declarava: “Não compactuamos com uma estrutura governamental composta por homens brancos, heterossexuais, religiosos e intolerantes a diversidade”. Eles ainda enfatizaram a falta de representatividade dentro dos ministérios: “Queremos ser representados de fato, pelas nossas próprias vozes”.