Especialistas defendem fim da publicidade infantil

Evento na PUCRS abordou as complicações da propaganda e os efeitos do consumismo sobre crianças e adolescentes

  • Por: Wellinton de Almeida (4° semestre) | 25/05/2017 | 0

O fim de qualquer publicidade dirigida ao público infantil foi defendido por profissionais que atuam em programas que atendem crianças na quarta edição do evento Publicidade e Proteção da Infância, realizada na última segunda-feira (22), na Faculdade de Direito da PUCRS. As palestrantes Ekaterine Karageorgiadis, Lúcia Souza D’Aquino e Ana Cláudia Nascimento discutiram diversas abordagens sobre o tema, mas concordaram que, por razões éticas, a publicidade dirigida a este público deve ser extinta.

Ekaterine Karageorgiadis, coordenadora do programa Criança e Consumo do Instituto Alana, Ong que aposta em programas pela vivência plena da infância, relatou a ação de grandes empresas nas escolas brasileiras, que enxergam as salas de aula como um ambiente propício para tentar estimular o consumo, pois é um momento de aprendizado em que a criança costuma confiar e acreditar nas informações recebidas. Empresas como o McDonald’s costumavam distribuir brindes às séries iniciais e assim, garantir a preferência e permanência do público infantil por seus produtos.

Com o objetivo de denunciar campanhas como as da empresa McDonald’s surgiu o programa Criança e Consumo. Segundo Karageorgiadis, a bandeira do programa, e do Instituto Alana, é o fim de qualquer tipo de publicidade direcionada ao público infantil. Apesar de defender essa proteção, ela entende que produtos infantis devem sim ser anunciados, desde que focados nos pais e familiares.

Sobre o papel da sociedade na publicidade infantil, Ana Claudia Nascimento, professora de Legislação e Ética Aplicada à Comunicação na PUCRS, disse que a sociedade deve repensar o consumo de uma maneira geral, não só o consumo infantil. Ana Cláudia entende que o olhar da família sobre os produtos que são consumidos em casa, influenciam também no comportamento da criança. “A consequência já existe, nós temos é que trabalhar na causa”, afirma a professora que considera o problema ser mais ético que jurídico, já que a legislação brasileira é competente para tratar do assunto.

Sobre a identidade de gênero, Lúcia Souza D’Aquino, mestre em Direito pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), assinalou que a publicidade atual continua reforçando estereótipos e projetando preconceitos diretamente no imaginário inconsciente das crianças, “as meninas são retratadas de uma forma maternal, cuidando da casa, e os meninos com atividades externas e relacionadas a carros e esportes”.

A erotização e da adultização precoce de crianças, estimuladas constantemente pela mídia, também foram debatidas no evento. Um dos exemplos apresentados  foi o das camisetas da marca Use Huck, fundada por Luciano Huck, e que continha frases como “se eu não lembro, eu não fiz”. Segundo Lúcia Souza D’Aquino, as frases estampadas nas camisetas, além de adultizar a imagem da criança, também sustentam a idéia de abstenção de responsabilidades, o que se reflete diretamente no comportamento da criança e do adolescente. Comportamentos estes que os jovens levam à vida adulta e que perduram na sociedade por conta da mídia.