Esquecidos da história: o exército da borracha

Livro “Soldados da borracha: o exército esquecido que salvou a segunda guerra mundial”, foi lançado dia 25/05, na PUCRS

  • Por: Analine Broniczack (5º sem.) | Foto: Wellinton Almeida (2° sem.) | 30/05/2016 | 0

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O cheiro da borracha, da extração, é um defumado por causa da queima de  látex. Após 75 anos de existência, essa memória continuava presente na vida de Nyekolav Kostrhun (1923-1997), sobrevivente e herói não condecorado da Segunda Guerra Mundial (1944-1948). A história deste imigrante que veio para o Brasil, em 1927, foi contada por sua filha Iara Kostrhun que esteve no lançamento do livro, escrito pelo jornalista Gary Neeleman e sua mulher, Rose Neeleman, “Soldados da borracha: o exército esquecido que salvou a segunda guerra mundial”, ocorrido no dia 25 de maio de 2016, na PUCRS.

Com quatro anos, Kostrhun saiu da Iugoslávia (atual Croácia), com a família, atravessou o Atlântico e chegou às terras tupiniquins. Com espírito aventureiro, aos 20 anos foi para a Amazônia, para servir na guerra, pois como era estrangeiro e não podia lutar ao lado dos aliados na Europa. Resolveu ser soldado de guerra na Amazônia. Mas se tornou um dos soldados não reconhecidos como heróis, isto é, um dos esquecidos, que não ganharam medalhas, não cantaram o hino nacional antes de embarcar, não ganharam pensão pelos serviços prestado ao País na guerra e ficaram ausentes dos livros de histórias.

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Iara Kostrhun preserva a história do pai

“A juventude da época, toda queria ir para guerra para ser herói, e com a forte propaganda do Governo de Getúlio Vargas (1930 a 1954) que usava o slogan: Mais borracha para a vitória!”, conta Iara Kostrhun. Dessa maneira, o governo atraiu milhares de homens ao extremo norte do Brasil. Homens aventureiros, pobres, que tinham a esperança de enriquecer, com o “ouro do látex”.  Foram para a guerra, 25.000 soldados, enviados para a Itália pela Força Expedicionária Brasileira (FEB). Não incluíram nas estatísticas, os 55.000 soldados da árvore que chora, que enfrentaram o medo da guerra com o homem, e a guerra da selva.

Os heróis da Amazônica passavam fome, não chegava comida ao acampamento, morreram de malária, hepatite, febre amarela, dengue, beribéri e dezenas de outros problemas da região. Para atravessar os rios, saiam boiando fingido que eram troncos, para passar pelos jacarés.  A filha de Kostrhun, Iara, relembra as memórias do pai, que escutou durante sua vida, dos amigos que morreram e dos perigos da mata:  “A floresta é muito fechada, escura, quase não entra sol, tinha um faixo de sol, mas o pai (Kostrhun), não podia tomar banho de sol, pois neste lugar já havia muitas cobras, e para passar tinha que ir com uma vareta, jogando tirando os bichos do caminho”.

Após presenciar o sofrimento da primeira geração de seringueiros e o descaso do governo brasileiro, Kostrhun contraiu febre amarela e com receio de morrer na selva, resolveu descumprir os dois anos de contrato e fugiu da guerra do garimpo. O imigrante morreu em 1997, com câncer nos pulmões, de acordo a filha eram as marcas da febre amarela, e das outras doenças contraídas na Amazônia, durante a guerra que não foi soldado.

Na batalha da borracha, que ocorreu de 1942 a 1945, além de Kostrhun, foram enviados à Amazônia para extrair látex, milhares de nordestinos. Getúlio Vargas foi o primeiro presidente da República a visitar a região, com o intuito de preservar o território, e estabeleceu uma aliança com o presidente dos Estados Unidos (EUA), Franklin Roosevelt para de obter equipamentos e treinamentos para forças armadas.

“Quando Pearl Harbor foi bombardeada 1941, 97% da borracha estava nas mãos dos japoneses, e precisavam da borracha para indústria bélica”, relata Gary Neeleman, explicando por  que era importante a produção de borracha no Brasil. O atual cônsul honorário do Brasil em Utah, Estados Unidos, é autor do livro “Soldados da borracha: o exército esquecido que salvou a segunda guerra mundial”, junto com sua esposa, Rose Neeleman. Para Neeleman, essa história foi esquecida e os seringueiros e seus herdeiros não foram indenizados pelos prejuízos causados pelo abandono, após o término da guerra.