Estudantes de Psicologia promovem ato contra o machismo

  • Por: Bibiana Garcez (5º semestre) | Foto: Dora Dias (Arquivo pessoal) | 07/06/2016 | 0

Protesto contra machismo na Psicologia

Uma frase em uma publicação na internet provocou uma reação de alunas de Psicologia da PUCRS. Na quinta-feira (2/6), às 18h30, foi realizado um ato de repúdio ao machismo na faculdade, no prédio 11 da universidade. A manifestação foi organizada pelo Coletivo de Mulheres da Psicologia PUCRS. De acordo com as organizadoras, cerca de 80 pessoas se reuniram no diretório acadêmico da unidade e, após, se deslocaram até a frente da sala dos professores.

Durante a manifestação, as alunas cantavam palavras de ordem e convidavam colegas a se somar ao protesto. Em seguida, as estudantes leram uma carta aberta à comunidade acadêmica. Elas ainda desceram até o térreo em “apitaço”. O ato foi motivado principalmente pela postagem de um docente da unidade no Facebook. A publicação de um professor foi interpretada pelo grupo como questionadora da influência do machismo e da cultura do estupro no caso da agressão sexual coletiva contra uma menina de 16 anos no Rio de Janeiro.

As organizadoras se recusaram a ser entrevistadas individualmente pelo Editorial J, mas dez alunas da Psicologia expuseram o ponto de vista das manifestantes de forma coletiva. Participaram da entrevista Alice Fagundes, Ana Tittoni, Caroline Albuquerque, Gabriela Pairet, Helena Cifuentes, Isadora Freire, Karen Pamplona, Luísa Hoffmann e Priscila Cardoso. Para elas, o machismo estaria presente dentro da psicologia, inclusive, em alguns casos, tomando como base teorias do curso.

As alunas disseram existir um silenciamento de suas vozes por parte de professores e colegas homens, que ironizariam suas falas e dariam pouco espaço para discussão. Segundo as estudantes, mesmo as mulheres estando em maior número no corpo discente, elas sentem ter menos espaço. De acordo com levantamento do Editorial J, mulheres somam 76,5% do corpo estudantil da faculdade: de um total de 1.428 alunos, apenas 336 são homens.

O Editorial J entrou em contato com o professor, que preferiu não alimentar a polêmica. Seu nome não será revelado, mesmo que a comunidade acadêmica saiba a sua identidade, por dois motivos. Primeiro, porque até mesmo as estudantes disseram que não desejavam personificar a manifestação. Segundo, pois o docente se recusou a conceder uma entrevista formal, na qual poderia explicar o episódio.

Por e-mail, ao justificar sua decisão, escreveu: “Infelizmente, com meu post eu acabei ofendendo e chateando muitas pessoas, o que não foi o meu objetivo. Eu queria apenas propor uma reflexão teórica. Dezenas de pessoas que eu não conheço me adicionaram e me atacaram de diversas formas (com xingamentos, acusações de ser machista, de querer calar vozes femininas e etc). Entre minhas conhecidas, algumas deixaram claro sua insatisfação com o que o que eu escrevi. Por outro lado, muita gente também veio falar que concordava comigo. Enfim, eu prefiro não continuar com a polêmica.”

Durante o ato desta quinta-feira, o nome do professor não foi divulgado. Elas distribuíram aos passantes papeis com frases de teor machista, que teriam sido ditas em aula por outros docentes. Em uma carta aberta à comunidade da Faculdade de Psicologia, lida no protesto, o Coletivo ressalta o impacto do machismo e da cultura do estupro na sociedade e diz acreditar que este espírito também se prolifera dentro da Universidade. Sobre este último contexto, apresentaram algumas situações em que as alunas se sentem oprimidas. A carta é finalizada com reivindicações que valorizam a mulher no estudo e no mercado de trabalho da Psicologia.

A professora Nara Lima, coordenadora do curso de Psicologia da universidade, garantiu se posicionar de forma “neutra” sobre o ato. Em entrevista por telefone, ela frisou que a faculdade sempre abriu espaço para discussão. “Um espaço que poderia ser usado”, argumentou, através de reuniões periódicas abertas durante o semestre. Contudo, ela ressaltou que respeita a escolha das alunas de escolher essa forma de manifestação.

A faculdade deixou o material distribuído pelo Coletivo disponível para os professores. Segundo Nara, a preocupação com o conteúdo é grande. “Afinal, a Psicologia é um curso que estuda a violência doméstica e contra a mulher”, esclareceu. No entanto, ainda sobre o material, a professora lembra que as frases estão descontextualizadas e podem ser interpretadas de forma errada.

O evento da semana passada havia sido discutido em 31 de maio, quando 66 alunas se reuniram para debater a situação do machismo na faculdade. Para elas, não há neutralidade. “Se não nos posicionamos, quer dizer que estamos sendo coniventes”, afirmam, de maneira coletiva.

O objetivo, de acordo com as representantes do grupo, era reunir o maior número de mulheres possível — mas apenas mulheres. “A organização do nosso protesto mostra o crescimento do coletivo”, avaliam. Novas manifestações serão realizadas de acordo com a repercussão da última. O próximo passo é organizar uma reunião com as professoras do curso.

Leia a carta distribuída pelo coletivo feminista durante o protesto:

Carta coletivo feminista PUCRS