Ex-preso político vota pela primeira vez em 65 anos

  • Por: | 05/10/2014 | 0

O ex-preso político Peter Ho Peng votou pela primeira vez nesta eleição, em Porto Alegre, após a redemocratização do país. Ele teve a cidadania brasileira cassada durante a ditadura militar e somente a recuperou no ano passado.

Peng hoje reside nos Estados Unidos e fez questão de vir ao Brasil votar pela primeira vez. “Eu vim por que essa é a primeira vez que voto nos meus 65 anos”, contou. “Vim por minha vontade, e agora o dever está cumprido e eu sinto paz e de que algo finalmente se completou”, explicou ao lado do presidente do Movimento de Justiça e Direitos Humanos, Jair Krischke, que prestou auxílio jurídico a Peng.

“Eu perguntei se ele queria a naturalização por ser casado com uma brasileira, ou se ele gostaria de reaver sua identidade brasileira furtada dele pelo regime militar. Alertei que demoraria mais tempo e mesmo assim ele escolheu a segunda opção”, contou Krischke.

O ex preso-político Sérgio Luiz Bittencourt também sentiu uma grande emoção ao votar nesta eleição, pois considera que seus primeiros votos foram anulados. “Aos 18 anos, em 1970, a orientação da esquerda clandestina era votar nulo. Outros setores, como os trabalhistas, optaram pelo voto nulo”, explicou.  “Nas primeiras eleições nós não nos sentíamos representados pelo MDB”, conta ao se referir aos pleitos de 1970 e 72.

Em 1967, Bittencourt começou a militar no movimento estudantil. Com o decreto do Ato Institucional nº 5, ele sentiu necessidade de buscar alternativas diferentes de oposição. Bittencourt procurou a Organização Popular Marxista Leninista, que tentava organizar clandestinamente as massas. “Procuramos alternativas, não existiam mais espaços democráticos e surgiram as atividades clandestinas”, relembrou.

Apesar de só ter votado em partidos após 10 anos de regime militar, em 1974, Bittencourt vê as eleições como um momento alegre. “A eleição sempre foi uma festa, mesmo no período de repressão era instrumento de luta. Hoje é instrumento de manutenção da democracia. A minha alegria mesmo é ver que hoje diversas posições estão sendo levantadas”, concluiu.

Texto: Carolina Hickmann (6º semestre)
Foto: Arquivo Pessoal

Este material integra a cobertura realizada pelos alunos do Editorial J, laboratório do curso de Jornalismo da Famecos-PUCRS, com supervisão dos professores Alexandre Elmi, Fábian Chelkanoff, Fabio Canatta, Flavia Quadros, Ivone Cassol, Marcelo Träsel, Marco Antonio Villalobos, Tércio Saccol e Vitor Necchi.