Exposição Queermuseu deverá seguir para outros estados

Museus e Secretarias de Estado, junto com a curadoria, registram intenção de reabrir a mostra artística fora do Rio Grande do Sul

  • Por: Valentina Rodrigues (2° semestre) | Foto: Clara Godinho (1° semestre) | 14/09/2017 | 0
Performance dos manifestantes no ato
Performance dos manifestantes no ato

Pelo menos quatro estados brasileiros demonstraram interesse na exposição Queermuseu, fechada na semana passada devido às críticas sobre algumas imagens exibidas. A informação foi dada pelo curador da mostra, Gaudêncio Fidelis, durante manifestação de protesto realizada na última terça-feira (12) em frente ao Santander Cultural, no Centro Histórico de Porto Alegre.

Questionado sobre a possibilidade de reabertura da exposição, Fidelis confirmou que não havia nenhuma chance de isso ocorrer no Rio Grande do Sul, mas citou Brasília, São Paulo, Rio de Janeiro e Belo Horizonte como algumas das cidades com intenção de abrigar as obras. “A população, a comunidade internacional uma parcela enorme da população brasileira, a comunidade artística e acadêmica, as pessoas que gostam de arte, todas querem que a exposição seja aberta”, esclareceu.

A exposição denominada Queermuseu – Cartografias da Diferença na Arte Brasileira foi aberta ao público no dia 15 de agosto e reúne 263 obras de artistas renomados, como Lygia Clark, Cândido Portinari, Adriana Varejão e Fernando Baril. Ações violentas de repúdio à mostra, feitas por integrantes vinculados ao Movimento Brasil Livre (MBL), resultaram na decisão do Santander Cultural de encerrar a visitação no dia 10 de setembro – um mês antes do previsto. A decisão provocou revolta do público, especialmente na comunidade LBGT, que organizou uma manifestação em frente ao museu.

O Ato pela Liberdade de Expressão Artística/Contra LgbttFobia, assinado por pelo menos 13 ONGs e grupos LGBT teve início por volta das 15h30 da terça-feira (11). Líderes de ONGs levantavam bandeiras e cartazes clamando pela livre expressão e pelo respeito à diversidade, reivindicando a volta da exposição. Participaram da manifestação pessoas de diversas faixas etárias, dentre elas a aposentada Gilda Santos, 62 anos. Para ela, a arte expõe a realidade, suas diferenças, explorando a diversidade e provocando outras formas de pensar e refletir. Para o jornalista e coordenador da ONG Somos-Comunicação, Saúde e Sexualidade, Gabriel Galli, “não era uma exposição apenas sobre questões envolvendo a população LGBT, ela bradava a importância de repensar a diversidade. ”

O ato contou também com a presença de grupos de artes cênicas da UFRGS, que se posicionaram na escadaria da entrada do prédio e tinham fitas tapando suas bocas onde se lia “censura”, assim interpretando a decisão do Santander. Um grupo de cerca de seis mulheres posicionadas em frente ao museu, enroladas em bandeiras do Brasil e empunhando cartazes, protestavam contra a manifestação. Condenavam a comunidade LGBT por ferirem os valores cristãos e não respeitarem a diversidade, enquanto distribuiam panfletos em que pediam a intervenção militar, sob justificativa de que essa comunidade seria muito violenta.

O protesto dessas mulheres foi abafado pelos manifestantes, que entoavam cânticos que diziam “fascistas, golpistas, não passarão! ” e “eu beijo homem, beijo mulher, tenho o direito de beijar quem eu quiser!”. Provocações verbais foram trocadas entre os dois grupos e cartazes foram rasgados. Até aquele momento as manifestações eram pacíficas.

“Essa manifestação sem precedentes na história da arte brasileira e das exposições brasileiras acontece em um momento que é visível para todo mundo, é inegável. É isso que as pessoas querem,” comentou o curador da Queermuseu acerca da importância daquele ato.  

Por volta das 18h, a manifestação começou a sair do controle, resultando em duas pessoas detidas e no ataque à uma jornalista realizado por um soldado da Brigada Militar. O Editorial J entrou em contato com a assessoria de imprensa do Santander, que apenas repassou a nota divulgada para seus clientes, a qual se encontra disposta abaixo na íntegra:

 

“Prezado cliente,

Agradecemos seu contato sobre a exposição Queermuseu – Cartografias da diferença na Arte Brasileira.

Reconhecemos que, além de despertar a polêmica saudável e o debate sobre grandes questões do mundo atual, infelizmente a mostra foi considerada ofensiva por algumas pessoas e grupos.

Nós, do Santander, pedimos sinceras desculpas a todos aqueles que enxergaram o desrespeito a símbolos e crenças na exposição Queermuseu. Isso não faz parte de nossa visão de mundo, nem dos valores que pregamos. Por esse motivo, decidimos encerrar antecipadamente a mostra neste domingo, 10/09.

O Santander Cultural tem como missão incentivar as artes e dar luz ao trabalho de curadores e artistas brasileiros, para gerar reflexão positiva. Se esse objetivo não foi atingido, temos o dever de procurar novas e diferentes abordagens. Seguimos, portanto, comprometidos com a promoção do debate sobre diversidade e inclusão, entre outros grandes temas contemporâneos.”

Confira a nossa galeria no Flickr:

Artistas e comunidade LGBTT protestam contra encerramento da exposição Queermuseu