Formato de livro em áudio pode beneficiar cerca de seis milhões de deficientes visuais no Brasil

Enganam-se aqueles que imaginam que a Feira do Livro de Porto Alegre conta apenas com editoras e livrarias vendendo livros. Com o tema “Ler é poder”, o evento já completa sua 59ª edição. A cada ano, apresentações, debates e palestras vêm ganhando mais espaço. Neste ano, o Centro Cultural CEEE Érico Verissimo serviu de palco para a apresentação da evolução dos audiolivros.

O formato de livro digital em áudio conhecido como daisy chegou para ajudar mais de 6,5 milhões de deficientes visuais no Brasil. Segundo um dos idealizadores do projeto, Gabriel Schimitt, da Mil Palavras Acessibilidade Cultural, o modelo é um formato de livro eletrônico. “Basicamente ele tem o texto e o áudio do livro sincronizados. Então, a pessoa pode navegar pelo livro da mesma forma que uma pessoa que enxerga utiliza um livro impresso”, explica Gabriel.

O daisy apresenta toda a estrutura de uma publicação impressa, desde capítulos a número de páginas. É um modelo elaborado para que um deficiente visual tenha total desenvoltura para se localizar dentro do livro. Palavras e expressões podem ser procuradas através da fala.

De acordo com Letícia Schawartz, também da Mil Palavras, inicialmente, apenas modelos em versões de áudio eram produzidas. Depois, as versões descritivas também foram apresentadas. Se numa sala de aula um professor pedir, por exemplo, para os alunos abrirem um livro em alguma página, hoje o sistema daisy vai automaticamente para a folha solicitada, ou para o parágrafo ou expressão. É como se um deficiente visual pudesse manipular um livro impresso. “O audiolivro funciona muito bem para quem só quer ouvir o livro, mas para quem quer ‘folhear’ o livro, manipular, o audiolivro não funcionava nesse sentido”, comenta Letícia. Com isso, surgiu a necessidade de inovar.

O deficiente visual André Campelo perdeu a visão com 16 anos. Ele conseguiu não somente concluir o ensino médio, como também se formar em psicologia. Para ele, a tecnologia é um avanço para a independência e autonomia dos deficientes visuais. “Poder ter o acesso a um livro em formato eletrônico que contemple pessoas com deficiência visual, exatamente na mesma formatação que o livro em tinta é extremamente importante.” Para o psicólogo, os deficientes passam a não ser dependentes de outras pessoas para fazer marcações e buscas no livro pelo fato do sistema apresentar sincronia com o livro impresso.

O objetivo também era deixar a interpretação de cada frase mais real. Por isso, artistas leram e interpretaram cada linha dos livros. Porém, os ouvintes do sistema daisy tem a possibilidade de optar tanto pela voz sintetizada quanto pela voz humana. Em parceria com o Instituto Estadual do Livro, a Mil Palavras também ensina qualquer deficiente a mexer rapidamente no sistema, que é considerado simples. E o mais importante: a ferramenta é gratuita.

Texto: Vitória Famer (8º semestre)