Geneton aconselha que repórter precisa viver em crise

“Rebelem-se! Não se acomodem!”, provocou o repórter Geneton Moraes Neto para uma turma de aproximadamente 60 alunos de jornalismo que participaram da oficina “Reportagem: a essência do jornalismo”, ministrada na tarde de ontem (23/9) no 27º SET Universitário. O evento é promovido pela Faculdade de Comunicação Social (Famecos) da PUCRS. A aula durou quatros horas e iniciou-se com a exibição do documentário Garrafas ao mar: a víbora manda lembranças, dirigido por Geneton.

O filme serviu como base para os ensinamentos que Geneton, que trabalha na Globo News, compartilhou com a turma. A obra, que conta a história do jornalista Joel Silveira (1918-2007), conhecido como Víbora, começa com a apresentação de frases de grandes autores, como Carlos Drummond de Andrade e João Cabral de Melo Neto. Chega ao seu ápice com a entrevista que Geneton fez com Joel, de quem acabou se tornando amigo, uma relação que durou 20 anos, até a morte do entrevistado. Joel se consagrou pela cobertura de guerras e pelo contato com personalidades brasileiras, incluindo presidentes. Ele pretendia fazer um jornalismo mais chamativo e vivo, para, por fim, transformar o Brasil em um país menos banal.

Repórter contou histórias dos 40 anos de carreira.

O velho jornalista, percebendo que Geneton tinha talento para reportagem, o chamava de “Coisa investigativa”. E estava certo. O repórter da Globo News nunca se acomodou. Sempre foi atrás dos seus objetivos, analisando, investigando, descobrindo os detalhes e cobrindo-os. Toda essa experiência, que já somam 40 anos de profissão (ele começou a trabalhar aos 16 anos no Diário de Pernambuco), foi a base da oficina com a qual pretendia apresentar o caminho para se fazer uma boa reportagem. Mais do que isso, ele pediu para que os alunos se rebelassem. Foi assim que o “Coisa investigativa” motivou a turma a lutar contra a mesmice, o tédio, a desilusão, a arrogância e contra o deslumbro da profissão. “Se declarem em estado de prontidão contra todas as coisas ruins do Jornalismo”, pediu.

Geneton salientou que, acima de tudo, o jornalista deve ter iniciativa, que os melhores jornalistas são os que se autodiplomam. Provou isso ao contar uma de suas histórias, quando entrevistou por telefone Carlos Drummond de Andrade, 17 dias antes da morte do poeta, o que lhe rendeu 90 páginas transcritas. O jornalista esperava não ser atendido, já que o escritor desgostava de entrevistas, mas teve a iniciativa e conseguiu. Resultado: Geneton obteve uma grande entrevista que foi considerada uma espécie de derradeiro balanço que o poeta fez da sua vida.

Essa história foi lembrada na oficina do SET Universitário para enfatizar que jornalista não pode descartar matéria antes mesmo de fazê-la. E, aos risos, aconselhou que repórter precisa viver permanentemente em crise, tanto pessoal quanto profissional. Geneton, depois que os alunos pararam de sorrir, explicou que a crise deve estar sempre presente para que o repórter não deixe de refletir. Atualmente, ele mesmo não sabe se jornalismo é o que deseja, tanto que se licenciou da emissora para tocar projetos particulares.

Próximo do fim da aula, Geneton declarou guerra contra o óbvio, pois o público deve sempre ser surpreendido. “O leitor tem que se engasgar com a torrada do café da manhã ao ler a manchete”, brincou, mas falando sério. Mesmo com dúvida em relação ao jornalismo, salienta que é preciso acreditar no que se faz, pois a história que se conta pode ser importante para alguém.

A fala do repórter prendeu a atenção de todos, como a estudante de jornalismo Maria Eduarda de Mello Levy. Ela se inscreveu na oficina porque considerou uma oportunidade única, já que admira o trabalho de Geneton. “Achei uma experiência maravilhosa! O bom humor e o amor que ele tem pelo jornalismo me cativaram muito”, acrescentou.

Texto: Eduarda Endler Lopes (1º semestre)
Foto: Edissa Waldow/ Famecos/ PUCRS