Há quatro meses sem diretor, museu da comunicação cai no esquecimento

  • Por: Georgia Ubatuba (4º semestre) | Foto: Yanlin Costa (4º semestre) Georgia Ubatuba (4º semestre) | 29/04/2015 | 0

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Referência em pesquisa no Sul do Brasil e em países vizinhos, o Museu de Comunicação Hipólito José da Costa agoniza. A falta de funcionários em alguns setores e de organização do acervo contrastam com a importância do lugar para a memória da comunicação. No prédio localizado na esquina da Caldas Júnior com a Andradas, em Porto Alegre, é possível consultar cartazes publicitários, jornais, revistas, roteiros de televisão, filmes e documentários, discos musicais e imagens históricas da Capital e do Estado, além de equipamentos como máquinas de escrever e câmeras fotográficas. Mas o acesso à riqueza material do acervo está prejudicado. Um dos reflexos do descaso com que tem sido administrado: há quatro meses o local aguarda a nomeação de um diretor.

O Editorial J esteve na instituição, no dia 26 de março, para consultar alguns materiais e percebeu falhas. Entre elas, uma infiltração com manchas pretas que ocupa metade da parede direita de quem entra no local reservado para abrir as coleções de imprensa. Com a falta de estagiários, jornais e revistas consultados por usuários, em pesquisas, se encontravam nas mesas. A instituição limita o número de pesquisadores. Teoricamente são oito pessoas diariamente, porém, durante a visita havia 26. Algumas delas olhando as coleções no chão. Para agravar o problema administrativo, o museu está há quatro meses sem um diretor.

      No primeiro dia que o Editorial J foi ao museu (26 de março) a sala de pesquisas excedia o limite de oito pessoas por vez
No primeiro dia que o Editorial J foi ao museu (26 de março) a sala de pesquisas excedia o limite de oito pessoas por vez

Além disso, o J teve acesso ao local destinado a guardar as coleções de imprensa. Lá existe uma janela que expõe diariamente jornais e revistas ao sol. Segundo a professora de Museologia da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) Jeniffer Cuty, a luz natural tem todos os tipos de radiação. “A degradação é de um dia para o outro”, explica a especialista. Outra observação é sobre a falta de orientações aos pesquisadores. Não foi pedido o uso de luvas e nem de máscaras para o manuseio dos materiais. “O usuário precisa ser educado. E o usuário quer essa educação, essa orientação”, salienta Jeniffer. No entanto, existe uma dificuldade para que os esclarecimentos sejam oferecidos: o setor do acervo da imprensa tem apenas um funcionário com qualificação para dar explicações.

Os acervos de rádio, de fotografia, de publicidade e propaganda, de cinema e o núcleo educacional e de pesquisa também estão com apenas um profissional. E os setores de reserva técnica e de som e vídeo estão sem profissionais. A atual diretora interina, Eliana Alvares, está sozinha na administração do Hipólito, acumulando três funções: diretoria, administração e recursos humanos. Para que o acervo fosse organizado, os nove funcionários se reuniram, fizeram um mutirão e guardaram boa parte dos exemplares. A iniciativa ilustra a frustração com o estado do museu. “É tudo no amor”, menciona Eliana. O cenário de mobilização não ficou restrito às tarefas de organização. Os funcionários também precisaram tirar dinheiro do próprio bolso para arrumar a caixa d’água da instituição, que estava com foco de dengue e a tampa quebrada. Estes fatores prejudicam a preservação dos materiais oferecidos.

A insuficiência de estagiários dificulta a fiscalização acerca do manuseio nos materiais do acervo que é utilizados pelo público para pesquisas.
A insuficiência de estagiários dificulta a fiscalização acerca do manuseio nos materiais do acervo que é utilizados pelo público para pesquisas.

O jornalista e pesquisador Marcello Campos faz consultas regulares no museu há 10 anos. Por meio de pesquisas em revistas e jornais da coleção de imprensa, ele lançou livros. “Ele (museu) não é um depositário de jornais. Ele é um depositário da história”, descreve Campos em relação à importância da instituição. Para o pesquisador, a história nada mais é que relatos das coisas que aconteceram e nada melhor do que os jornais para conta-las. Grande parte das oportunidades profissionais de Campos surgiram por causa do conhecimento adquirido através dos acervos consultados. “Me considero certamente como pessoa e profissional muito mais qualificado e mais consciente depois dos jornais que eu pesquisei”, assegura o pesquisador e jornalista.

A professora de museologia, Jeniffer, ressalta que a próxima direção, quando assumir, precisará construir uma política para o museu. Esta política é um documento, bem objetivo e conceitual, que vai entender esse espaço e que vai trazer diretrizes e princípios para ações de conservação e documentação, porque essas duas andam juntas. Em especial, a especialista destaca os cuidados exigidos pelos volumes de imprensa. “O jornal é muito sensível. Então projetos de digitalização, projetos de educação do usuário vai a serviço dessa conservação e preservação”, conclui a especialista. Todos esses fatores são essenciais para que o museu continue funcionando. Ainda assim, é necessário que as autoridades responsáveis pelo Hipólito percebam, como Campos definiu: “É a história que está indo embora com os jornais.”

 O estado em que se encontra a sala de pesquisas depende de quantos funcionários há no dia, já que apenas um não consegue monitorar tudo sozinho.
O estado em que se encontra a sala de pesquisas depende de quantos funcionários há no dia, já que apenas um não consegue monitorar tudo sozinho.

A Secretaria da Cultura do Rio Grande do Sul foi contatada pelo Editorial J. Perguntas foram encaminhadas, porém a assessoria informou que só serão respondidas quando um novo diretor, ainda não nomeado, tomar posse. Algumas das perguntas enviadas foram:

Qual a previsão orçamentária destinada para o Museu da Comunicação Hipólito José da Costa em 2015?

Nos últimos 4 anos, quanto foi executado para o museu anualmente?

Em que as verbas são aplicadas?

Por que o museu ainda está sem diretor?

 Quando ele será nomeado e começará a trabalhar?

 Quais os planos do atual governo para o museu?