Independência da região Sul é tema de consulta popular

Movimento espera que um milhão de pessoas compareça às urnas em consulta popular neste 7 de outubro

  • Por: Italo Bertão Filho (4º semestre) | 06/10/2017 | 0

Se depender da vontade do catarinense Celso Deucher, Lages será a capital de um novo país. Amanhã, o movimento O Sul é o Meu País — do qual Deucher é um dos fundadores — realiza uma consulta popular com a pergunta: “Você quer que Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul formem um país independente?”.

A consulta ocorre pela segundo ano consecutivo — em 2016, na véspera das eleições municipais, 590 mil votaram pela separação, representando quase 96% do total de votantes na ocasião — 616 mil participaram da consulta.

Para esse ano, a expectativa do movimento é arregimentar um milhão às urnas. Ao todo, 30 mil voluntários estarão espalhados pelos três estados para realizar a votação entre 8h e 20h e o resultado deve ser divulgado ainda no sábado, segundo a organização. Os locais de votação podem ser conferidos aqui.

Em Porto Alegre, serão 39 pontos de votação, com  3.043 urnas. Cédulas de papel com as opções “Sim” e “Não” estarão à disposição  dos votantes. Para votar, é preciso ser maior de 16 anos, estar em um dos três estados da região Sul e apresentar carteira de identidade. Ainda que não exista um processo de verificação, o dedo dos votantes é marcado com tinta antes de colocar a cédula na urna para evitar fraudes.

Chamada de “Plebisul”, a consulta foi proibida de ser chamada de “plebiscito” no ano passado pelo Tribunal Regional Eleitoral de Santa Catarina (TRE-SC), que também sugeriu, na ocasião, à Polícia Federal uma investigação sobre o movimento. Apesar de não ser considerada crime, a votação não tem valor legal, como admitem os separatistas. “Queremos ouvir a população”, sustenta Deucher.

A consulta popular do Sul é o Meu País ganhou na quinta-feira o apoio do Movimento República de Pernambuco, que pede a separação de Pernambuco. Para Deucher – que se considera um separatista – a criação de um novo país configura-se como um movimento natural. “Ao longo dos séculos, as geografias políticas vão se reelaborando. Nenhum estado é eterno”, afirma. A Catalunha, comunidade autônoma da Espanha, vive uma crise separatista após resultado favorável num referendo que questiona sobre a separação da região, comentou.

No entanto, as deliberações sobre um possível país ainda são nebulosas. Apesar de os jornais O Estado de S.Paulo e Zero Hora terem informado que a moeda se chamaria “pila” – termo utilizado popularmente pelos sulistas para identificar o dinheiro – Deucher negou ao Editorial J que o termo seria este. Também não há definição de como seria a bandeira, nem do nome, mas uma sugestão tem força dentro do movimento: União Sul-Brasileira. Lages, em Santa Catarina, seria a capital administrativa, abrigando os três poderes do futuro país. Curitiba, Florianópolis e Porto Alegre continuariam sendo as “capitais históricas”’, segundo Deucher. O regime de governo? Possivelmente, o parlamentarismo.

 

IDEIAS LIBERAIS

Em um possível país, o casamento gay e a liberação da maconha — antes considerados tabus dentro do movimento — entrariam na pauta para discussão. A tônica do discurso do movimento é liberal, segundo Deucher, abrangendo tanto as questões econômicas como sociais. Apesar do discurso liberal, Deucher acredita que o movimento não seja nem de esquerda nem de direita. “Temos membros tanto de esquerda como direita, mas proibimos eles de expressar suas opiniões ideológicas para não contaminar nossa bandeira”, sustenta.

Assim como os estancieiros farroupilhas durante a Guerra dos Farrapos, Deucher acredita que a região Sul contribui muito com a União e recebe pouco em retorno, classificando o fato como ‘absurdo’. “Brasília criou uma série de injustiças. O governo diz que somos um bando de maus brasileiros e que não queremos mandar dinheiro pro Nordeste. Não somos contra a população do Nordeste, mas contra as oligarquias de lá”, explica.

Deucher nega que a iniciativa tenha raízes preconceituosas, ressaltando que seu movimento surgiu em 1992 como contraponto a outro, que, segundo o separatista, era ligado às questões étnicas. O catarinense se refere ao grupo capitaneado pelo jornalista Irton Marx — de Santa Cruz do Sul, no Vale do Rio Pardo — que queria proclamar a chamada “República do Pampa Gaúcho” em 1993.

“Como eu sou descendente de alemães, a primeira coisa que disseram é que eu era admirador do Hitler. É muito fácil tu destruíres uma pessoa com a palavra ‘nazista’”, acredita Irton, que foi investigado pela Polícia Federal e teve material de propaganda separatista apreendido quando da ascensão de seu movimento. Irton também rechaça o movimento de Deucher. “A militância crê que ele é separatista, mas na verdade é federalista”, argumenta.

Deucher rebate Irton argumentando que o movimento do santa-cruzense é composto de apenas uma pessoa: o próprio Irton Marx. “O Irton é um doido. O movimento dele foi a pique pelas bobagens que fala. O separatismo dele sempre foi étnico e não tem nada a ver com o nosso, que é político e econômico”, alega.

 

PRECONCEITOS

O historiador Mário Maestri, professor da Universidade de Passo Fundo (UPF) e autor de várias obras com foco na história do Rio Grande do Sul, acredita que grupos separatistas como os de Deucher e de Irton são preconceituosos. “Eles expressam setores fortemente racistas [da sociedade]. É uma das bases desse movimento”, identifica. Maestri opina que a justificativa apresentada pelo movimento O Sul é o Meu País — de que o governo federal concentra os recursos e não os repassa de volta aos estados — é simplória. “É como se todos os males viessem de uma classe política [instalada] em Brasília. A questão não se dá através de uma rejeição estrutural, não se vê a questão social”, sentencia.

Para a socióloga Caroline Kraus Luvizotto, professora da Universidade Estadual Paulista (UNESP) e autora do livro “Cultura gaúcha e separatismo no Rio Grande do Sul”, o movimento separatista tem várias faces e, apesar de o discurso étnico existir, ele não está ligado ao preconceito racial. “Esse discurso nunca foi oficial dentro do O Sul é o Meu País. O que eles apontavam era a existência de uma identidade étnica que existe no Sul do Brasil servindo como um dos motivos para a separação. Não como uma identidade superior, mas diferente”, analisa.

Caroline também avalia que o discurso separatista sempre retorna em momentos de crise. Maestri concorda, mas acredita que o movimento atual ocorre pela crise que o Rio Grande do Sul enfrenta há décadas. “Temos 30, 40 anos de decadência incessante, que impacta o rio-grandense e fortalece esse movimento. Estamos numa catástrofe”, comenta.

Mais de 170 anos após o fim da Revolução Farroupilha, os ideais dos maragatos ainda sustentam a base ideológica dos separatistas. “Esta terra tem dono”, frase atribuída a Sepé Tiaraju, por exemplo, foi a inspiração para o nome do movimento O Sul é o Meu País. Entretanto, Maestri acredita que a perpetuação do pensamento farroupilha é prejudicial. “O elemento conservador dessa ideologia é a Revolução Farroupilha”, afirma.

O orgulho do gaúcho por sua terra motiva uma possível independência, na visão de Caroline. “A autoimagem do sul separatista se coloca como diferente dos demais brasileiros, não se identificando com a cultura nacional”. A socióloga cita um exemplo prático: no desfile de abertura dos Jogos Olímpicos de 2016, os gaúchos se sentiram excluídos ao não serem representados na apresentação do Brasil, o que acentua a sensação de distância em relação ao centro do país.

Entretanto, após realizar uma pesquisa de campo em quatro cidades do Estado — Porto Alegre, São Leopoldo, Santa Rosa e Tucunduva — Caroline descobriu que os separatistas não queriam colocar em prática suas ideias. “Vi que as pessoas não estavam dispostas a entrar numa luta armada pela separação”, relembra. Enquanto isso Deucher não titubeia em lutar pelos ideais separatistas caso seja convocado pelos sulistas: “Se a população decidir que devemos lutar, eu vou estar lá”.