Jornalista relata a experiência de ser preso exercendo seu trabalho

Matheus Chaparini, repórter do Jornal Já, foi preso enquanto cobria desocupação do prédio da Secretaria da Fazenda

  • Por: Eduarda Endler Lopes (4º sem.) | Foto: Sara Santiago (3º sem.) | 17/06/2016 | 0

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Na última quarta-feira (15), o repórter Matheus Chaparini, do Jornal Já, foi preso com mais 46 pessoas, durante uma desocupação do prédio da Secretaria da Fazenda pela Brigada Militar. Depois de ser encaminhado para a 3ª Delegacia de Pronto Atendimento, o jornalista foi levado para o Presídio Central, considerado um dos piores do país pela CPI do Sistema Carcerário, em 2008, na investigação conduzida pela Câmara dos Deputados.

Em entrevista ao Editorial J, na redação do Jornal Já, um lugar pequeno e simples, Chaparini contou que chegou ao prédio ocupado por volta das 9h e que ninguém da imprensa estava lá. Anteriormente a uma coletiva de imprensa, nenhum veículo conseguia acessar o prédio. Pelas 10h, pôde entrar e andar por todo o prédio, fazer imagens e conversar com os estudantes. Quando a Brigada Militar chegou, presumiram que o jornalista era um manifestante. Criticado pela BM por estar dentro de uma ocupação, o jornalista questionou: “Onde mais eu poderia estar para fazer aquela pauta?”. A matéria do jornalista era sobre a ocupação da Secretaria da Fazenda.

Chaparini, com aparência cansada por ainda não ter dormido depois de todo o ocorrido, ressaltou que é impossível o jornalista ser totalmente isento. “Somos seres humanos, a gente vê o mundo, a gente tem opiniões, a gente tem ideologias, a questão é tu não deixares isso passar por cima do teu trabalho”, lembra. Quando criticado por estar envolvido em manifestações contra o atual governo, Chaparini lembrou da reprovação do jornalista Felipe Daroit, da Rádio Gaúcha. “Felipe Daroit cobre com postura crítica incisiva. Será que não é a mesma coisa pro outro lado?”, questiona.

O jornalista, que só havia entrado em presídios para fazer entrevistas, conta que ficou preso com estudantes que recém completaram 18 anos e estupradores, em uma cela fria e pequena durante seis horas no central. “É desagradável tu sair pra tua pauta, 8h da manhã, pensando que daqui a pouco está na redação e então, 2h da madrugada estão te soltando da cadeia”, lamentou. Chaparini, no entanto, ainda foi capaz de reagir com humor diante do episódio: brincou dizendo que geralmente só criminosos são presos e que não é comum a pauta do repórter acabar no Presídio Central.

Surpreso com o apoio que recebeu, ele explicou que os jornalistas são uma categoria pouco unida, mas que mesmo assim recebeu mensagens de força e apoio. O Sindicato de Jornalistas do Rio Grande do Sul mandou uma advogada para o repórter do Jornal Já. Ele lembrou que o ocorrido feria a liberdade de imprensa e prejudicava o trabalho do jornalista: “Não é meu problema. Aconteceu comigo, mas podia acontecer contigo. Quem estivesse cobrindo aquela pauta daquela forma ia ser preso.”

 

Confira a íntegra da nota da SSP sobre a prisão do jornalista:

ESCLARECIMENTO SOBRE A CUSTÓDIA DE MATHEUS CHAPARINI

A Secretaria da Segurança presta os seguintes esclarecimentos sobre a custódia de Matheus Chaparini, ocorrida em virtude da invasão do prédio da Secretaria da Fazenda, na data de ontem (15):

1. A prisão em flagrante foi efetuada porque, durante todo o tempo, ele estava dentro do prédio invadido, agindo como integrante do grupo militante que praticou a invasão.

2. Ele se identificou como jornalista quando já estava consumada a prisão pelo ato de invasão. Na Delegacia de Polícia, quando da lavratura do auto de prisão em flagrante, negou-se a falar, permanecendo em silêncio e optando por falar somente em juízo.

3. Portanto, a prisão se deu em virtude do ato individual de invasão, do qual ele foi parte ativa, e não do exercício da atividade profissional de jornalista, cujas garantias são historicamente prestigiadas e asseguradas pelos órgãos de segurança do Rio Grande do Sul.

4. Os profissionais de imprensa presentes na ocorrência em questão, respeitando o trabalho da polícia, tiveram garantido o exercício de sua atividade profissional.

5. A Brigada Militar e a Polícia Civil cumpriram suas obrigações funcionais, resguardadas no princípio constitucional de que todos são iguais perante a lei. Eventuais equívocos serão apurados nos termos da legislação em vigor.

6. Ao Poder Judiciário, no momento oportuno, caberá decidir sobre a responsabilidade penal dos adultos presos e indiciados no ato, garantido o contraditório e a ampla defesa.