“Jornalistas têm que ser os olhos da sociedade”, diz Krischke

Referência em direitos humanos, ele conversou com estudantes da Famecos que fazem parte da agência de notícias do Editorial J

  • Por: Eduarda Endler Lopes (4º sem.) | Foto: Juliana Baratojo (5º sem.) | 31/03/2016 | 0

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Fundador do Movimento de Justiça e Direitos Humanos, Jair Krischke visitou a Famecos para conversar com alunos que vão participar da agência de notícias especializada em direitos humanos, criada pelo curso de Jornalismo e vinculada ao Editorial J. Krischke ministrou uma palestra com a temática do cenário atual do tema no Brasil. No encontro de duas horas, ele explicou a importância de ter uma agência de notícias dentro da faculdade focada em direitos humanos.

Qual a importância de uma agência de notícias dentro da faculdade abordar direitos humanos?

É fundamental na formação do jornalista. O jornalista tem uma missão profissional importantíssima, que é ser os olhos da sociedade. Aquilo que a sociedade não está enxergando, ele tem que ver e transmitir. Mas transmitir com qualidade. Então, na formação do jornalista, entendo que é essencial o conhecimento sobre o tema. Uma agência de notícias com o foco privilegiado de direitos humanos é muitíssimo melhor, gostaria de aplaudir os professores e os alunos, por que tu vais dar mais conteúdo ao jornalismo e em qualquer matéria que ele venha a fazer. Durante as 24 horas do dia, dificilmente tu deixas de tocar em direitos humanos, então qualquer assunto, qualquer pauta que o jornalista venha a trabalhar, se ele tem noções do que é direitos humanos, será uma excelente matéria, pode ter certeza.

Qual expectativa tu crias [Jair Krischke pediu para não ser chamado de senhor],  em relação à agência de notícias do Editorial J?

Olha, tenho muitas esperanças, por que acompanho há muitos anos essa questão e os jornalistas sempre foram nossos parceiros, estão muito atentos. E acho que tinha um espaço vazio, que não estava ocupado. Com esta formação aqui, tenho certeza que vai melhorar muito, que irá avançar e, depois, como é uma experiência nova, nesse avançar, nesse andar, nesse cotidiano de trabalho, daí sim. É o exercício que nos ensina.

E tu achas que esse aprendizado vai ser mantido depois da faculdade? Os alunos vão continuar produzindo materiais sobre direitos humanos?

Em qualquer profissão, ninguém se livra da sua profissão. Pode, de repente, sair da faculdade e não ter aquele espaço, mas isto vai ficar marcado como formação profissional. Nem com reza brava vocês vão se ver livre. Isso vai ficar escultado, pode ter certeza.

E como que tu vês o jornalismo de direitos humanos atualmente?

Olha, muito fraco. Falta conteúdo, falta conhecimento. Os jornalistas, aqueles que estão na redação, veem esse tema com muita superficialidade. E vou confessar uma coisa que não gosto de dizer publicadamente: às vezes, tenho até medo. Tenho medo de que, quando estou sendo entrevistado, vejo que do outro lado tem alguém que não está, lamentavelmente, capacitado. Então, fica difícil às vezes. Tem temas em que até tem que dizer “senta aqui e vamos conversar primeiro”, pra depois dar uma entrevista.

Como tu achas que o jornalismo de direitos humanos deve ser?

Como direitos humanos são regras de convívio social, o jornalista opera o social. Não tem outro campo. Se ele tiver uma boa formação, ele vai produzir sim um trabalho de excelência, não só como jornalista, mas com esta visão do tema de direitos humanos. Essa repercussão é na sociedade, na formação de conceitos. Às vezes, o jornalista não se dá conta, que aquilo que ele tá produzindo vai sim gerar efeitos na sociedade, chamado de opinião pública. Então é importante. O jornalista, que está bem inserido no tema de Direitos Humanos, ele trata até de futebol, não tem problema. Mas, se ele tem esse conteúdo, vai fazer uma excelente matéria, pode ter certeza.

E tu acha que existe algum desafio para o jornalista produzir matérias de direitos humanos? O que nos limita?

No Brasil, terminou a censura à imprensa. Nós temos vigente a censura de empresa. A censura de empresa existe. Os direitos humanos questionam permanentemente os governos. Todo e qualquer governo. As verbas publicitárias são determinantes. Esta é a dificuldade.

E qual é o espaço que a mídia dá para a temática de direitos humanos?

Poderia te dizer que, ao longo destes últimos anos, vem diminuindo. É um processo. Vem diminuindo, diminuindo, diminuindo. A nossa missão é essa. A gente tem que cobrar e aí melindram os patrocínios e essas coisas. Não acharam uma barata na garrafa de Coca-Cola, mas uma bagana de cigarro na padaria da esquina, acham. Por que será? O problema são os interesses que estão em jogo. O jornalista é um dos raros profissionais que seguido se vê frustrado do seu trabalho. Ele faz o trabalho e, de repente, vai pra gaveta. Ou, o conteúdo é alterado, alguma coisa é suprimida. É diferente de outras profissões. Posso discordar do colega advogado, fica na discordância, mas se respeita. No jornalismo, é diferente. Não há respeito. Se corta, se suprime, se põe na gaveta, há um desrespeito ao profissional.

E tu terias algum conselho para dar aos estudantes de jornalismo que têm interesse em direitos humanos?

Insistir sempre. É uma pauta que não prosperou, é outra pauta que não deu certo, é o insistir, é ser o inconformado. É ser um rebelde. Eu vou ser a voz. Protesta por uma coisa justa e social.