Jovem cria jornal para dar voz ao Complexo do Alemão

All star, jaqueta e braços cruzados pelo frio. Assim o carioca Rene Silva, 19 anos, andou pelo campus da PUCRS, onde esteve para participar do 26º SET Universitário. Com um tímido “vamos lá, vamos lá”, ele aceita tranquilamente conceder entrevista. Enquanto a repórter o conduz pelos corredores da Famecos, explica a importância do evento para os alunos. “O pessoal é muito receptivo e está empolgado com a ideia do jornal”, confidencia, animado.

Em Porto Alegre pela segunda vez, Rene Silva foi bastante requisitado para entrevistas – tanto que ainda nem teve tempo de provar churrasco. O motivo da popularidade é Voz da Comunidade – jornal que traz as notícias do Complexo do Alemão e os arredores e que se tornou famoso na ocupação militar da favela, em 2010, pelas informações que postava no twitter.

Com o impresso e mensal parado por um tempo – volta em novembro deste ano, quando completar três anos que a polícia invadiu o local –, Rene explica que o jornal on-line dá bastante retorno. “Sei que hoje muitos moradores do Alemão têm acesso à internet, porque a notícia do Voz da Comunidade se espalha rápido e muitas pessoas ficam sabendo”, conta. No entanto, fazer a publicação voltar a circular é uma questão de necessidade, pois moradores mais velhos não sabem usar o computador, nem acessar as redes sociais.

A equipe do Voz da Comunidade é formada por Rene e por mais 15 pessoas, de 13 comunidades diferentes do Complexo Alemão, que trabalham voluntariamente para levar as notícias aos moradores. “Tenho uma pessoa em cada lugar para representar o Voz”, explica. Os voluntários, a maioria jovens da comunidade, ficam no máximo quatro horas por dia. “Temos espaço para todo mundo. Todo mês, abrimos vagas para novas pessoas”, conta. As vagas são tanto para o jornal quanto para o Voz da Comunidade social, que promove ações durante o ano inteiro.

Rene, que pretende estudar jornalismo e continuar no projeto, diz que ficou bastante impressionado com a explosão que seu jornal teve nas redes sociais – principalmente quando twittou, em tempo real, sobre a invasão da polícia no Complexo do Alemão, em 2010. “Se não fosse a internet, não haveria esse alcance, a popularidade. Muitas coisas não estariam acontecendo hoje na favela”, comemora.

A popularidade não é o único motivo da comemoração de Rene. Para ele, hoje, a mídia cobre muito mais as favelas do Rio de Janeiro. Ainda há muita cobertura negativa, mas ressalta que a mudança é um processo demorado. “Não é possível mudar da água para o vinho”, explica. “Mas a gente já começou essa mudança, e acho que começar é um bom passo”. Sobre trabalhar na grande mídia, ele diz que não pensa nisso no momento – quer continuar tocando o projeto. “Posso, no futuro, até ter uma coluna em um jornal, mas nunca quero deixar de dar voz à comunidade”, justifica.

Uma das coberturas da imprensa que costuma ser parcial é a da ação da UPP, que raramente é mostrada com viés negativo. Rene avalia a ação policial-militar como positiva, apesar dos problemas que, segundo ele, são normais, já que esta iniciativa é um processo novo. “As pessoas não estão acostumadas com a polícia andando nas ruas. Estão acostumadas com as regras da comunidade de antes do tráfico”, explica. Para ele, a UPP pode ser a solução – se agregada a outros projetos sociais, o que não acontece hoje.

Empolgado com o projeto que contribui para a transformação da situação, o estudante e ativista descreve como é o trabalho da equipe do Voz da Comunidade na busca de pautas. “A gente sobe o morro e pergunta para os moradores como está a situação”, conta. Quando as pessoas começam a reclamar, a equipe faz fotos e vídeos e tenta publicar no mesmo momento. Depois da denúncia, entram em contato com o governo e com a prefeitura para que resolvam a situação. “Antes de sermos populares, o retorno demorava muito mais”, relata. “Hoje a resposta é rápida”.

Cruzando os braços para se proteger do frio da cidade, ele revela estar feliz com o reconhecimento. “Fico mais feliz por que as pessoas nos veem como referência para que jovens se inspirem e também façam trabalhos como esse”, explica “Acho de extrema importância um canal de comunicação nas comunidades para reclamações”.

Durante o Rock in Rio, o Voz da Comunidade fez cobertura do evento, ideia que surgiu numa conversa entre Rene e Roberta Medina, filha de um dos criadores do evento. A equipe ganhou 10 ingressos e quatro deles foram credenciados. Além disso, o Complexo do Alemão também foi beneficiado, pois foram feitas inscrições no local para o concurso de street dance, que ocorreu em um dos palcos do Rock in Rio. Rene contextualiza a competição: “É como a batalha do passinho do funk, mas no ritmo de street dance”.

O ativista tem projetos, como conectar-se com emissoras de TV de outros estados para a exibição de quadros sobre a cultura das comunidades de várias regiões do país, não apenas do Complexo do Alemão. Ele ressalta as diferenças de acordo com as regiões, como o fato de favela ser “vila” no Rio Grande do Sul. Essa é a intenção: mostrar as diferenças. “Queremos que as pessoas entendam como funcionam as comunidades”.

Outro projeto enfim se concretizou, em Porto Alegre, após a entrevista. Por volta da meia-noite, Rene postou no Twitter: “Comendo um churrascão aqui no Barranco Porto Alegre”.

Texto: Bibiana Dihl (6º semestre)
Foto: Giovanna Pozzer/Famecos/PUCRS