Juca Kfouri: “Futebol brasileiro é pré-capitalista, ainda na base da pirataria, como faziam os ingleses”

A estrutura do futebol brasileiro é “profundamente reacionária, refratária a qualquer tipo de mudança, profundamente corruptora, corrompida e incompetente”, na avaliação do jornalista Juca Kfouri.

Com 44 anos de carreira no jornalismo esportivo e um histórico de quem dividiu a juventude entre os gols de Pelé na Copa de 1970 e a militância na Aliança Libertadora Nacional, durante o regime militar, Kfouri participou, na última terça-feira (26/08) de um debate promovido pelo Diretório Central dos Estudantes (DCE) da PUCRS no auditório da Faculdade de Comunicação Social (Famecos).

Crítico incansável, o comentarista dos canais ESPN e colunista do jornal Folha de São Paulo, Juca Kfouri lamentou a atuação dos gestores do futebol e sugeriu mudanças estruturais neste mercado brasileiro. Na entrevista concedida, antes do debate, foi ainda mais contundente nas suas considerações, resumidas abaixo.

Copa do Mundo de 2014
“O balanço que começa a ser feito, mostra que o Brasil perdeu com a Copa, que o país gastou mais do que entrou. Construiu pelo menos cinco elefantes brancos, não teve o fluxo que turistas imaginado – pois o turista que vem para esse tipo de evento, tem uma mochila nas costas e dorme em albergue – e os feriados da Copa, realizados para evitar congestionamentos, custaram R$ 30 bilhões referentes ao não funcionamento da indústria. Ou seja, em junho e julho, os feriados para a Copa custaram outra Copa”.

A relação entre a Fifa e o governo brasileiro
“A Dilma foi mais dura que o Lula, principalmente em relação à CBF. A presidente não recebeu o Ricardo Teixeira, nem o José Maria Marin (atual presidente da CBF) na abertura da Copa. E nem fazia sentido. O Marin é fartamente responsável pela prisão e morte do jornalista Vladimir Herzog (encontrado morto no Doi-Codi, em São Paulo, em 1975). Ela não poderia estar ao lado deste cara (Marin)”

O futebol brasileiro hoje
“Engatinha-se, por exemplo, com a movimentação do Bom Senso FC. Engatinha-se com algumas campanhas presidenciais querendo assumir programas que levam em consideração, a necessidade de democratização do nosso futebol e esporte. Mas, infelizmente, eu não tenho muita dúvida em dizer que o futebol é uma das instituições mais retrógradas do Brasil e talvez seja uma das últimas a mudar. A estrutura do futebol é profundamente reacionária, refratária a qualquer tipo de mudança, profundamente corruptora, corrompida e incompetente. Destronar esta gente é tão complicado, que você já teve gente bons presidentes de clube, tragados por essa estrutura.”

Conversa com a presidente
Poucas semanas antes da Copa, Kfouri foi convocado, junto com outros colegas de profissão, para uma reunião com a presidente Dilma Roussef, quando debateram o evento e a situação do esporte no país .”Eu falei pra ela sobre o retrato que faço do futebol brasileiro: é pré-capitalista, ainda está na fase da acumulação primitiva do capital, na base da pirataria, como os ingleses fizeram, e isso tem que ser implodido”.

Democratização do futebol
“Tem que mexer na estrutura. Para mexer na estrutura, tem que democratizar, dar voz ao torcedor. Você deve ter sócio-torcedores com direito de eleger o presidente do clube. Este presidente, deve ser o representante do clube numa liga de clubes, que cuida do campeonato destes times. A confederação nacional cuida da seleção de futebol, pois não é atribuição dela cuidar do campeonato nacional. A democratização redunda numa melhor organização das competições”.

Corrupção no esporte
“O Brasil tem condição de fazer frente (aos campeonatos europeus). Não faz porque a má gestão e a corrupção impedem. A corrupção, diga-se de passagem, não é um privilégio nacional. A corrupção se dá no mundo do esporte de maneira generalizada. Acabamos de ver o presidente do Bayern, de Munique, em cana por evasão de divisas. Vimos a Fifa dizimar quatro ou cinco cartolas, por que a justiça suíça os pegou. Isso se dá porque não existe, hoje, na indústria do entretenimento, uma área para lavagem de dinheiro do que o esporte, devido à intangibilidade dos preços”.

Texto: Gabriel Gonçalves (4ºsemestre)
Fotos: Frederico Martins (6º semestre)