Júlio Conte avalia a peça Bailei na Curva 30 anos após a estreia

Um trabalho de jovens intérpretes retratando situações de sua época se transformou em fenômeno de público e crítica do teatro gaúcho. Há 30 anos estreava Bailei na Curva, sob a direção de Júlio César Conte, peça reapresentada, em 18, 19 e 20 de outubro, no Teatro Bourbon, remontada pelo mesmo diretor.

A história se inicia com um grupo de crianças que viviam na mesma rua de Porto Alegre no início dos anos de chumbo. A peça traz suas visões sobre o período da ditadura desde a infância até a fase adulta dos personagens, acompanhando suas experiências em meio ao contexto de repressão. Ao retratar os usos, costumes e pensamentos da sociedade da época de maneira sutil e bem-humorada, Bailei consegue fazer críticas indiretas com a leveza necessária para atrair o público e driblar a censura.

Novamente em cartaz após três décadas, Bailei na Curva reúne diferentes gerações em seu público. Editorial J acompanhou uma noite de ensaio com diretor, elenco e produção. Júlio Conte e o ator Érico Ramos falaram sobre a remontagem comemorativa e o que peça ainda representa no cenário dramático gaúcho e nacional.

J: Quais as principais mudanças e adaptações da primeira para a segunda montagem?

Conte: Estruturalmente, o texto é o mesmo. Foram adaptações porque quando fizemos a primeira montagem, em 83, as cenas finais estavam muito grudadas à vivência. A peça foi criada a partir de improvisações do grupo original de autores. Na parte final estava tudo muito colado a nossa realidade, a gente mantinha um distanciamento crítico. Com o tempo, foi amadurecendo. Na nova versão, a segunda parte do espetáculo ganhou novas piadas, novas configurações, mudamos cenas e mesclamos .

J: Quais foram as reações observadas tanto no público quanto na crítica sobre a primeira versão?

Conte: A primeira versão do Bailei é um marco no teatro nacional e local porque foi a primeira peça no Brasil inteiro que falava sobre a ditadura ainda na vigência da ditadura. É diferente das outras peças na ditadura que falavam sobre a ditadura. Por exemplo, a peça Patética, que contava a história de Vladimir Herzog, foi censurada porque era engajada diretamente com a situação. Era uma peça denúncia. Bailei fala da ditadura sem ser uma peça denúncia, é indireta. Quando é contada por crianças, ela tem um frescor e uma ingenuidade. Ela brincou com isso e foi algo que marcou. Tanto que ganhou um adjetivo de fenômeno que mudou o teatro. Há o antes e o depois de Bailei na Curva. O teatro gaúcho tinha um perfil de público, um perfil de produção. Com Bailei na Curva, criou-se um novo perfil, iniciou um processo de profissionalização dos espetáculos para grandes públicos e mudou o tempo das temporadas.

J: Como era o fazer teatro em 1983 comparado ao que é hoje?

Conte: Cada época de fazer teatro tem a sua dificuldade. O teatro é uma arte milenar que está sempre sofrendo as vicissitudes do momento. Em 83, ainda tinha a vigência da censura. Tínhamos que fazer ensaios para a censura, sempre se corria o risco de cortarem cenas. O Bailei passou pela censura local. No início dos anos 80, tínhamos que mandar o texto três ou quatro meses antes. Era enviado para Brasília e lá se levava trinta dias para fazer a avaliação do texto. E depois, se eles liberavam, voltava para Porto Alegre e encomendávamos o ensaio geral com um sensor. Nesta época (83) já havia uma pequena mudança: avaliava-se texto e encenação juntos, o que dava mais dinamismo. Mas toda semana tínhamos que carimbar uma autorização para se apresentar. Os censores até gostaram da peça.

J: O que vocês esperam desta remontagem, já que o público também será composto por pessoas que não puderam acompanhar a primeira versão?

Érico: O que a gente vê é que há uma grande comoção pela peça. No Rio Grande do Sul e em todo Brasil fazem várias montagens do Bailei na Curva, já assistimos alguns vídeos. Aqui, pra nós, é a nossa história. As pessoas que viram a primeira montagem ainda estão acompanhando, elas querem ver como está agora depois de trinta anos. É uma energia que se regenera, uma peça viva.

J: Vocês acreditam que a peça é tão importante quantos livros de História para a compreensão das pessoas do que foi aquele período?

Conte: Uma das coisas que sempre se atualiza na peça é que ela dialoga com a História. E, o que é mais impressionante, ela dialoga com o presente. Todas estas manifestações de rua que aconteceram e as discussões que houve recentemente fazem parte do mesmo tipo de efervescência que vivemos em 64, 68 e nos anos 70. Acho que as pessoas vão ao teatro para ver histórias que tem a ver com a história da humanidade, de um povo em determinada circunstância. Às vezes são circunstâncias aparentemente isoladas, mas que têm uma universalidade. Esse é o caso do Bailei.

Texto: Julli Massena (3° semestre) e Jéssica Moraes (2° semestre)
Foto: Douglas Roehrs (6° semestre)