Livro analisa representações de gênero em telenovelas

  • Por: Eduarda Endler Lopes (2º semestre) | Foto: João Mattos/divulgação | 27/07/2015 | 0

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O entretenimento, assim como o jornalismo, contribui para a construção da identidade das pessoas, afirma a pesquisadora Fernanda Nascimento que lança livro sobre a representação de lésbicas, gays, bissexuais, travestis, transexuais e transgêneros (LGBTs) nas telenovelas brasileiras dos últimos 43 anos. “Nós nos reconhecemos de forma coletiva e de forma individual nas telenovelas. Muitas vezes, as pessoas não teriam oportunidade de debater sobre LGBTs se não fossem as novelas. Isso ocorre porque têm alguma restrição ou nunca debateram essa temática, e provavelmente não vão acessar a internet para procurar um filme que trate do assunto, mas, como foi disponibilizado na novela, elas vão consumir”, salienta.

A escolha do tema, portanto, decorre da compreensão acerca da importância da telenovela e de sua ligação com a discussão cultural. Identidades, incluindo as da comunidade LGBT, são construídas, em parte, com os processos comunicacionais. Resultado da sua dissertação apresentada no Programa de Pós-Graduação em Comunicação Social (PPGCOM) da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS), em janeiro de 2015, o livro Bicha (nem tão) Má – LGBTs em Telenovelas será lançado, por  Fernanda Nascimento, no dia 30 de julho, na Livraria Baleia, em Porto Alegre.

A jornalista faz um panorama de 1970, quando aconteceu a primeira exibição de personagem LGBT nas novelas da Rede Globo, na novela Assim na Terra como no Céu, com o personagem Rodolfo Augusto, interpretado por Ary Fontoura, até 2013, quando a emissora apresentou Amor à vida, cujos personagens Félix, Nico e Eros foram analisados de forma mais profunda na pesquisa.

A obra trata de pessoas LGBTs de forma geral e sobre os personagens de Amor à Vida de maneira mais específica. A autora explica que a escolha do tema foi feita por entender a importância das telenovelas, que são o produto de entretenimento mais assistido no Brasil e que alcança todas as classes sociais.

A autora lembra que personagens mais transgressores das normas de gênero têm diminuído nas novelas em relação aos gays considerados comportados. Quanto às lésbicas, elas são praticamente invisíveis. “Vai ter lésbicas chiques nas novelas, mas praticamente nenhuma sapatão, que é a lésbica com uma performatividade de gênero mais fora do esperado para o gênero feminino”, ressalta.

Depois de analisar 62 telenovelas, Fernanda identificou 126 personagens LGBTs e pouca diversidade na representação deles. No total, há 76 gays, número superior a lésbicas e bissexuais, 24 lésbicas e 13 homens bissexuais e três mulheres bissexuais. Apenas um dos 126 personagens era travesti e oito eram mulheres transexuais. Para fechar os 126 personagens, Fernanda também identificou uma personagem com orientação sexual e identidade de gênero indefinidos. Travestis e transexuais são praticamente invisíveis nessas tramas, além de outros aspectos que demonstram pluralidade, quando se pensa em outros marcadores. Nos 43 anos investigados, apenas quatro negros estavam entre os personagens LGBTs. A classe social também tem aumentado. De forma geral, os personagens se dividem entre classes popular e média, mas, nos últimos anos, há uma prevalência da classe média. Conforme a pesquisadora, são personagens com “uma performatividade de gênero muito heteronormativa, isto é, gays comportados”.

Depois da telenovela Amor à vida, houve uma inclusão maior de personagens LGBTs. Na atual novela das 21h da Rede Globo, Babilônia, há duas personagens idosas lésbicas. Fernanda brinca com o termo “sapatosas” usado em um episódio para designar sapatas idosas. Representações de pessoas mais velhas são pouco vistas, de uma maneira geral, nos personagens LGBTs, porque a sexualidade de idosos é pouco discutida. Esses fatores, como a faixa etária, mostram a pluralidade que há dentro da comunidade LGBT.

A telenovela analisada com destaque por Fernanda é, a princípio, uma obra que transgrediu muitas representações, pois apresentou o primeiro beijo entre dois homens do mesmo sexo na emissora, teve o primeiro triângulo amoroso entre LGBTs, com Nico, Félix e Eron, e apresentou a questão da adoção por casais do mesmo sexo, que até hoje é tratada de forma muito tênue nos folhetins eletrônicos. Em Amor à vida, se chegou à discussão da inseminação artificial entre casais homossexuais.

Amor à vida, dessa forma, contribuiu para os debates acerta de temas LBGTs, porém reafirmou outros padrões. Todos os personagens LGBTs eram brancos, gays e de classe média. Poucos tinham perfil na identidade de gênero destoante da mais usual, dessa forma, ela reintegrou padrões. Em específico a personagem Félix, que inspirou o título do livro, pois ficou conhecido como bicha má. Fernanda lembra que ele é um personagem mais complexo do que uma bicha má. “Ele era um personagem que sofria preconceito, mas também era responsável por disseminar preconceitos”, ressalta. Félix é um personagem misógino e sexista. Muitas das suas piadas na trama eram preconceituosas, já que ele detinha muitos privilégios. Excetuando o estigma relativo à sua orientação sexual, ele era branco, de classe média e homem. Detinha privilégios, mas não refletia sobre eles. De forma geral, o livro busca contribuir para se pensar que personagens LGBTs são esses, que existem outros marcadores, além da orientação sexual e da identidade de gênero.

Combate às opressões
Fernanda, 27 aos, que é uma mulher lésbica, negra e oriunda de classe popular, conta que o interesse pela temática LGBT e a militância não são recentes. O marco da militância aconteceu em 2007, quando ingressou na universidade e estava recém descobrindo sua sexualidade. Assim, começou a problematizar a temática do seu livro. A partir disso, participou como dirigente regional da Executiva Nacional dos Estudantes de Comunicação, que tem três bandeiras: combate às opressões, qualificação do comunicador e democratização da comunicação. Ela militava mais especificamente na primeira frente, pensando que, muitas vezes, as pessoas deixam de lado esse debate. Quando percebeu que havia concordância da necessidade de combater as opressões, mas que isso não era discutido, começou a se preocupar com essas questões dentro da Executiva. “Assim como a sociedade, ela era toda perpassada por machismos, racismos, sexismos e homofobia, então, de forma mais acentuada, comecei a me preocupar com essas questões lá dentro”, assinala Fernanda.

A autora conta que não há neutralidade nenhuma no que faz, pois a sociedade é perpassada por identidades. “A gente tem que reconhecer as características da nossa identidade, como se compõe, porque isso também integra os nossos estudos. Acho que é uma decisão política também”, diz. Ela entende que esse discurso de neutralidade é problemático, até mesmo na temática de gênero e sexualidade, de se falar que o sexo é biológico. A biologia é uma ciência, e o gênero não tem nada de científico. “A biologia é uma ciência tão subjetiva quanto às demais ciências, no sentido de que é perpassada pela moral”, pondera Fernanda. A autora cita Judith Butler, Gayle Rubin e Thomas Laqueur, segundo os quais a noção de sexo construída está atrelada a valores morais. “Mesmo quando a gente for pensar que a homossexualidade foi considerada doença em diversos momentos, isso era científico, uma verdade científica ancorada na moral que não respeitava homossexuais”, enfatiza.

Atualmente, a transexualidade é considerada um transtorno de identidade de gênero, e existe um movimento para que ela saia da Classificação Internacional de Doenças (CID). Fernanda afirma que a ciência está perpassada por uma subjetividade do sujeito e também por uma construção cultural e social. “Tem uma pressão da sociedade, tem um movimento cultural sobre isso, então acho que ser lésbica, negra, mulher e militante não fez com que meu estudo fosse menos sério”, salienta.

Para compreender os 126 personagens pesquisados, Fernanda leu 11 teses e dissertações que falaram sobre a temática do seu livro e também pesquisou o site da emissora Globo, para inserir dados, pois nenhum desses trabalhos anteriores pensava sobre marcadores. Dessa forma, o trabalho de Fernanda não se tornou menos científico. “O meu posicionamento teórico e político é de que não existe neutralidade e que a gente está sempre perpassada por esses valores individuais, valores culturais e os valores sociais que se tem”, lembra.

Fernanda tem como proposta fazer a sociedade repensar de forma mais complexa sobre essas identidades, pois os marcadores são muito isolados. Isto é, as experiências não são as mesmas, já que cada pessoa é diferente.  Ela ressalta que não se pode simplesmente reduzir LGBTs a uma sigla, pois é muito complexo e tem uma diversidade de grupos dentro de um grande grupo, ou seja, esses marcadores que mostram as diferenças. “A gente vai questionar ‘por que só tem uma bicha afetada na novela, se eu conheço uma bicha mais discreta?’. Ok, elas existem, há homossexuais de todas as formas, mas a gente não faz a mesma crítica quando é um personagem dentro da norma. Quando é uma lésbica, a gente não se pergunta por que não é uma mulher sapatão. Então, a gente tem que repensar a crítica, pra ela não estar sendo uma crítica que reforça normas e padrões”, salienta. A jornalista considera essencial repensar a multiplicidade de identidade, reconhecer e perceber que são normativas diferentes dentro de uma sigla frequentemente universalizada. Ela percebe, também, que isso acaba inviabilizando os mais excluídos. A sigla LGBT muitas vezes é vista como GGGG, pois inviabiliza os outros grupos da comunidade.

A autora espera que sua obra contribua para a discussão e para novos estudos, pois é um campo em construção e muito recente na comunicação. No dia do lançamento do livro “BICHA (NEM TÃO) MÁ – LBGTs em telenovelas” às 20h15, Fernanda Nascimento participará de um bate-papo com Débora Fogliatto e Samir Oliveira, integrantes do grupo Gemis – Gênero, Mídia e Sexualidade. Os exemplares estarão à venda na livraria Baleia por R$ 40. A livraria Baleia está localizada na rua Santana, 252, em Porto Alegre.