Livro resgata história de pesquisador de cemitérios

Precursor no estudo de cemitérios no RS, Harry Bellomo tem carreira retratada na biografia "Harry Rodrigues Bellomo: mestre e estoriador de dois séculos"

  • Por: Rodrigo Oliveira (4º semestre) | Foto: Camila Lara (3º semestre) | 17/09/2015 | 0

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Sessao de autógrafos com Harry Bellomo

Pode ser difícil visitar um cemitério sem ser dominado por um clima fantasmagórico. Reforçada pelas obras clássicas de terror, a relação acontece até mesmo no imaginário de quem não gosta do gênero. Agora, você já parou para pensar no valor histórico que os locais de enterro representam para o registro dos povos? O historiador e ex-professor da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS), Harry Bellomo, pensou. Ainda na década de 1980, defendeu sua dissertação de mestrado intitulada A Estatuária Funerária em Porto Alegre (1900-1950).

Precursor do estudo cemiterial no Rio Grande do Sul, Bellomo teve sua vida profissional biografada por Regina Zimmermann Guilherme no livro Harry Rodrigues Bellomo: mestre e historiador de dois séculos, da Editora da PUCRS (EDIPUCRS). Baseada em entrevistas que totalizam 30 horas de gravação, a pesquisadora relatou a vida do historiador através da metodologia da História Oral.

Embora a análise da arte funerária tenha sido a maior contribuição do biografado para a historiografia, o livro também contempla seus outros trabalhos, assim como sua carreira de docente. Além das muitas conversas com Bellomo, a autora ouviu mais 18 pessoas para enriquecer o registro. Entre elas, professores, funcionários e prestadores de serviços que conviviam com o professor na universidade.

No lançamento da obra para convidados, realizado na segunda-feira (14), na PUCRS, Bellomo se mostrou um sujeito simpático e falante. Muito afetuoso com os convidados, fez questão de riscar dedicatórias durante quase duas horas e de presentear com seus livros a quem podia. “Tem que aproveitar. A gente nunca sabe se é a última produção ou a mais recente”, brincou.

Bellomo é um pioneiro involuntário, um sortudo de primeira categoria. Ao planejar um tema para sua dissertação de mestrado (1979-1988), decidiu pesquisar a imprensa farroupilha no período (1830-1840). Ingênuo, pensou que existiriam em torno de 10 jornais para serem examinados em seu levantamento. A realidade provou o contrário e, quando notou que haviam mais de 60 periódicos pela frente, desanimou. A pesquisa parecia insustentável.

Na ocasião, o professor enfrentava uma rotina desgastante. Acabava suas aulas e visitava o Museu de Comunicação Hipólito José da Costa para pesquisar por uma ou duas horas. Logo, voltava imediatamente para a PUCRS para continuar lecionando. Como se não bastasse, o museu fechava aos fins de semana, tempo livre do mestrando. Mesmo assim, ele resistia e continuava pensando em uma medida eficaz para levar adiante a pesquisa.

 Nesta fase surgiu a ideia de passar o período de férias de verão em Piratini, onde a vastidão de jornais da época estaria disponível para sua análise no Museu Histórico Farroupilha. Ao chegar no arquivo do museu, uma surpresa o esperava pregada na porta: “Fechado. Férias coletivas até março”. Bellomo quase enlouqueceu. Toda a mobilização da viagem e a expectativa de terminar sua pesquisa durante um mês na cidade falharam.

 Este foi o momento catalisador para uma mudança nos planos do professor. De volta a Porto Alegre, precisava de um tema que não dependesse de horários de funcionamento de museus, arquivos ou bibliotecas. Muito menos de férias de funcionários. Depois de muito matutar, surgiu o estalo: pesquisar arte sacra ou arte cemiterial.

 As igrejas apresentavam um ponto desfavorável na disputa. Fecham à noite, a não ser quando está programada uma missa ou celebração. Sobraram os cemitérios, que ficam abertos o dia inteiro. Alguns, inclusive, durante a noite. “Não foi sempre a minha ideia. Aconteceu por eliminação”, confessa.

O estudo da arte funerária
Bellomo conta que pesquisou primeiramente a arte estatuária nos cemitérios da Santa Casa de Misericórdia, São Miguel e Almas e mais duas necrópoles luteranas de Porto Alegre. Conforme a autora da biografia de Bellomo, o crítico de arte e pesquisador baiano Clerival do Prado Valladares (1918-1983) foi o primeiro a pesquisar a arte funerária no Brasil. Entretanto, seu trabalho tinha um caráter de registro. Bellomo, por outro lado, escolheu um enfoque histórico e artístico, ainda inédito.

Depois de defendida e aprovada a dissertação, mais ou menos 20 alunos interessados somaram-se ao trabalho. Com o crescimento do grupo, uma ampliação dos estudos de Bellomo foi possível. Além da arte estatuária, pinturas, vitrais e azulejos se tornaram objeto de observação. Um caráter antropológico também apareceu naturalmente, possibilitando relações entre a simbologia dos epitáfios e as formas com que os vivos encaram os mortos. Os pesquisadores se muniam de câmeras fotográficas e blocos de anotação. Um componente mais inusitado também se fazia presente nas saídas de campo. Levar um giz era fundamental para tornar as inscrições visíveis.

 A pesquisa pioneira de Bellomo e de sua equipe inspirou outras. Segundo o historiador, existem, hoje, pesquisas em andamento em Cruz Alta, Rio Grande, Santa Cruz e Soledade. Além disso, ele conta que a professora e pesquisadora Maria Elizia Borges começou o primeiro estudo de arte tumular em São Paulo (Ribeirão Preto) por influência de seus estudos.

 Com 50 anos de magistério e 40 como docente na PUCRS, Bellomo se tornou uma referência no Departamento de História. Sua paixão pela história, pela docência e pela universidade encantaram Regina: “Minha primeira aula com o Bellomo foi determinante para que eu levasse o curso até o fim”. No segundo semestre da faculdade, a aluna já estava envolvida no grupo de pesquisa cemiterial. No final do curso, em 2006, a aposentadoria do professor coincidiria com a formatura de Regina. Seu tema de conclusão de curso surgiu facilmente: a vida do historiador competente e professor cativante.

A obra pode ser traduzida como um agradecimento ao homem carismático que lecionava História Antiga, História Medieval e História do Brasil Colonial de forma apaixonada, segundo o relato dos próprios alunos. Bellomo era um professor que chamava a atenção dos novatos pelo entusiasmo e pela maneira atraente que apresentava os conteúdos. Ele mesmo esclarece: “Eu tinha uma relação muito boa com os alunos, porque eu sempre procurava trabalhar dentro do interesse deles”. Para ele, a história não é estanque. Tampouco o ensino. O intercâmbio das áreas de conhecimento sempre se fez necessário, assim como a atualização das maneiras de compartilhá-lo.