Lupicínio Rodrigues: Exemplo de Consciência Negra em Porto Alegre

A exposição escancara as experiências de discriminação racial na trajetória do compositor porto-alegrense

  • Por: Rafael Stuermer Machado (4º semestre) | 14/11/2017 | 0

A VIII Semana da Consciência Negra, que começou nesta segunda-feira, está sendo celebrada nos corredores do Palácio Farroupilha. Entre tantos eventos, um se destacada pela sua conexão com a cidade de Porto Alegre. A exposição “Vida e Obra de Lupicínio Rodrigues”, organizada por seu filho, Lupicínio Rodrigues Filho, exibe em banners fotos do acervo pessoal, assim como curiosidades da trajetória do compositor. Em conversa por telefone com a reportagem, Lupicínio Filho relembra que viajou com a exposição por vários locais do Brasil, quando ela fora montada no centenário de seu pai em 2014. Entretanto, destaca que adaptações vão sendo realizadas. Por exemplo, fotos inéditas agora ilustram o salão “Vestíbulo Nobre” na assembleia. A exposição não visa nenhum retorno financeiro. A entrada é franca. “O objetivo realmente é revisitar a trajetória de meu pai “, afirma Lupicínio Filho.

A ligação dos movimentos sociais que militam pela consciência negra com a trajetória de Lupicínio é instantânea. O compositor marcado pela boêmia já enfrentou discriminação em bares da capital. Em determinada ocasião, chegou a ser expulso de um estabelecimento por sua cor. O dono de origem portuguesa, não queria receber mais negros no recinto. Lupicínio, então, protestou e prestou queixa à polícia. Amparado pela recém aprovada lei Afonso Arinos, a qual fora assinada por Getúlio Vargas em 1951 e proibia a discriminação racial no Brasil, fez o português responder judicialmente. Esta reação deu voz a uma parcela da população porto-alegrense que sofria discriminações raciais calada.

Como se vê Lupicínio sempre teve interesse por. A proximidade ideológica com o trabalhismo e a admiração que nutria por Getúlio Vargas, Leonel Brizola e João Goulart podem ser vistas em fotos na exposição.

Lupicínio trabalhou como auxiliar de mecânico na Carris aos seus dezoito anos. O carinho pela estatal é realçado segundo Lupicínio Filho por seu pai dar o nome à sala dos mecânicos na empresa. Perguntado sobre o cenário de possível privatização da companhia, Lupicínio Filho garante não ter dúvidas que seu pai, caso em vida, estaria militando pela estatal e seus servidores.

O amor pelo Grêmio, bem como a composição do hino tricolor é de conhecimento público. Contudo, os motivos do carinho pelas cores azul, preto e branco são curiosos. Por volta de 1907, Lupicínio, em conjunto com outros amigos mulatos, queria espaço no futebol. Assim, fundaram o clube Rio Grandense. Anos depois, ao ter a inscrição na Liga negada por clubes da capital, o compositor gaúcho se revoltou com a negativa do Sport Club Internacional. O colorado se auto intitulava “Clube do Povo” em oposição ao Grêmio, de origem alemã e que não aceitava negros em seus quadros esportivos. Essa frustração com o Internacional, fez Lupicínio se tornar aficionado pela equipe gremista, apesar de o time só passar a aceitar negros a partir do ano 1912.

Essas e outras curiosidades podem ser visitadas até o dia 24 de novembro. Até a tarde de hoje, 22 pessoas tinham assinado o caderno de presenças.