“Mais cegos que nós” – Marcha da Bengala reúne deficientes visuais em frente ao Palácio da Prefeitura

Manifestantes acusam prefeitura de não repassar verbas à Associação de Cegos do Rio Grande do Sul

  • Por: Igor Janczura Dreher (3º semestre) | Foto: Igor Janczura Dreher (3° semestre) | 09/05/2017 | 0
Mais cegos que nós
Na chegada ao Palácio da Prefeitura, as portas foram fechadas e geraram insatisfação geral entre os manifestantes

Mais de cem pessoas, a maioria deficiente visual total ou parcial, reuniram-se na tarde de terça-feira (dia 09), para uma marcha rumo ao Palácio da Prefeitura, intitulada “Marcha da Bengala.” O motivo, salientado pela Associação de Cegos do Rio Grande do Sul (ACERGS), é a falta de pagamento do convênio estabelecido entre a associação e a prefeitura. Segundo o diretor de finanças e patrimônio da ACERGS, Airto Chaves, o repasse já ultrapassou a margem trimestral estabelecida em acordo com o governo: “Desde dezembro não recebemos nada. Estamos a ponto de fechar nossos trabalhos por falta de verba.”

O protesto foi realizado em frente à sede da ACERGS perto das três horas da tarde, de onde os participantes seguiram em caminhada. Depois de subir a rua Dr. Flores e descer a Salgado Filho, estabeleceram-se em frente ao Paço.

Houve tumulto quando alguns manifestantes forçaram as portas do Palácio. Um senhor indignado tomou a palavra nas escadarias do Paço, vociferando: “Eles não querem ver nossos problemas. São mais cegos que nós!” 

Depois de alguns minutos, foi autorizada a entrada de uma comissão com seis manifestantes no gabinete do  vice-prefeito. 

A secretária do Desenvolvimento Social, Maria de Fátima Záchia, o secretário da Fazenda, Leonardo Busatto, e o vice-prefeito Gustavo Paim receberam o grupo em uma reunião de 15 minutos. A secretária e o vice- prefeito começaram as conversas salientando a “falta de procura” das associações para com a Prefeitura.

“Sempre estive a completa disposição de todos”, salientou Maria de Fátima. “A mim nunca foi perguntado”, referindo-se aos pedidos da Marcha. Gustavo Paim explicou que a situação enfrentada é resultado de “problemas burocráticos, de aprovação na Câmara e necessidade de suplementação orçamentária.”

Segundo Paim, “não havia previsão orçamentária para o pagamento desse acordo. Estamos com apenas alguns dias de atraso devido a esses problemas, mas até o final da semana o dinheiro será repassado.”

O diretor geral da ACERGS, Gilberto Kemer,  não gostou do tom irônico proferido pela secretária, ao fim da comissão. “Traidor”, disse, com um sorriso amarelo, enquanto levantava da mesa onde ocorreu a reunião: “Vocês sabem que sempre podem falar comigo. Não precisava disso.”

Gustavo Paim ainda disse que: “Isso não havia sido repassado para nós. Caso o contrário, não teria sido necessária [a Marcha].”

Airto salientou a importância da ACERGS para a inclusão dos deficientes visuais no cotidiano da Capital. “Realizamos trabalhos de reeducação social, auxílio psicológico, leitura de braile, entre várias outras financiada unicamente por dinheiro público. É algo extremamente importante e satisfatório para todos nós”, concluiu.