Manifestantes de Porto Alegre denunciam o funeral da democracia

“Fora, Temer!” foi grito do protesto contra o impeachment da presidenta Dilma Rousseff nas principais ruas da Capital

  • Por: Eduarda Endler Lopes (5º sem.) e Raquel Souto (4º sem.) | Foto: Camila Lara (4º sem.) | 01/09/2016 | 0
Manifestantes protestaram em frente a sede do PMDB
Manifestantes protestaram em frente a sede do PMDB

Velas acessas ao redor de um caixão representaram o funeral da democracia em ato que reuniu milhares de manifestantes, no final da tarde de quarta-feira (31), nas principais ruas de Porto Alegre. A chuva que caiu antes do inicio do ato não impediu que os manifestantes protestassem contra o afastamento de Dilma Rousseff da presidência da República e a posse de Michel Temer. Além de denunciar o impeachment como golpe, as pessoas reclamavam respeito ao voto direto, um pilar da democracia, que para elas foi desrespeitado pelos senadores que aprovaram o impeachment.

Ao entardecer, no centro da Capital, no cruzamento das ruas Borges de Medeiros e Andradas, com o cessar da chuva e com tímidos raios de sol, um coro de insatisfação tomou os ares da Esquina Democrática. O ato lúdico representou o funeral da democracia, cena realizado por estudantes do Departamento de Artes Dramáticas da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). Na intervenção, os jovens se ajoelharam e acenderam velas ao redor do caixão que representava a democracia.

Nascido em 1964, ano marcado pela tomada dos militares ao poder, Basílio Santiago, professor de Física e Astronomia da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), fez um pequeno relato do que a situação significa para ele. “Fui concebido sob estado democrático de direito, mas quando vim ao mundo, eu já vim debaixo de uma ditadura”, enfatiza Santiago. O professor destaca que só pôde votar aos 25 anos, e, por esse motivo, estava no ato por valorizar o seu voto direto: “não aceito que o meu voto, do qual não me arrependo, tenha sido violentado dessa forma e é por isso que estou aqui.”

Os estudantes de Direito da UFRGS chegaram ao local em grande número, após concentração no Centro Acadêmico André da Rocha (CAAR), erguendo uma faixa escrito “Estudantes de Direito contra o golpe”. De acordo com as jovens Vitória Battisti da Silva e Caroline Maróstica, membros da organização do centro acadêmico, a gestão sempre teve seu posicionamento com bases na esquerda e mantêm atuação política dentro do curso. “É inadmissível que estudantes de Direito se calem diante desse golpe jurídico que foi dado”, frisa Vitória. As estudantes acreditam que no novo governo, importantes direitos das minorias, como mulheres, negros e LGBT’s, serão extinguídos.

“Jamais esperei que tivesse que passar por isso de novo.” Heloisa Brandão Rubenich, engenheira aposentada, conta que, em 1984, esteve presente nas Diretas Já, movimento civil contra o governo militar que reivindicou por eleições diretas. “As pessoas que estão aqui sentem a mesma sensação, uma tremenda injustiça”, explica. Heloisa julga que, com o impeachment, os 54 milhões de votos diretos que elegeram a presidenta foram rasgados. “Esse ato simbólico é realmente o velório da democracia”, lamenta.

Por volta das 20h, os manifestantes contra a retirada da presidenta eleita do poder começaram a se movimentar em direção à Avenida João Pessoa. O sentido bairro-centro da via estava trancado por conta do bloqueio da Empresa Pública de Transporte e Circulação (EPTC) para que o movimento seguisse em segurança. Parado no trânsito que já havia se formado, o advogado Livio Sabatti revela curiosidade em relação à manifestação ser formada, majoritariamente, por jovens. “Acredito que faz parte, cada um tem uma opinião, o direito de se manifestar. Esse aspecto é importante”, aponta. Quanto ao impeachment, Sabatti revela sua opinião favorável, mas discorda do PMDB, partido do presidente Michel Temer. “Acho que tem um problema que se instalou e tem que começar a limpar por algum lugar, esse é rumo da solução do Brasil”, acredita.

Em frente à sede do PMDB, ainda na Avenida João Pessoa, os estudantes do Departamento de Artes Dramáticas da UFRGS terminaram a intervenção iniciada no centro queimando o caixão da democracia. Até o momento, o ato seguia pacífico. Contudo, manifestantes invadiram a sede do partido, derrubando a porta de entrada do prédio e colocando um container de lixo dentro, aos gritos de “lixo, lixo, lixo”. Em seguida, a Polícia Militar agiu com bombas de gás lacrimogênio para dispersão, causando correria e desespero entre os participantes.

O pelotão de choque se posicionou em frente ao prédio da RBS, onde um grupo de manifestantes começou a queimar pneus
O pelotão de choque se posicionou em frente ao prédio da RBS, onde um grupo de manifestantes começou a queimar pneus

Após a retomada da organização da caminhada, a multidão seguiu para a Avenida Ipiranga até a sede do Grupo RBS. Em frente ao prédio do grupo, o Batalhão de Operações Especiais (BOE) bloqueava as duas vias do cruzamento da Avenida Érico Veríssimo com a Ipiranga. Com a queima de pneus no local, os policiais do BOE lançaram bombas de gás lacrimogênio e utilizaram armas com balas de borracha. Atrás do bloqueio formado pelo BOE, em frente ao posto de gasolina ao lado do Grupo RBS, algumas pessoas observavam a movimentação. Entre eles, um rapaz que preferiu não se identificar, vestindo uma camiseta com a estampa “#bolsomito”, criticou: “não tô vendo nenhum movimento, o que tô vendo é vandalismo e crime”. Ao ser questionado pela sua vestimenta, ele argumenta: “soldado que vai à guerra e tem medo é covarde”.

Depois de alguns minutos em frente ao Grupo RBS, os manifestantes seguiram até a Cidade Baixa, terminando a caminhada em frente ao Largo Zumbi dos Palmares. No local, foi marcada uma assembleia popular no Centro dos Professores do Estado do Rio Grande do Sul (CPERS), para domingo (04), às 16h.

As manifestações têm sequência nesta quinta com dois eventos previstos, “Anulação do golpe FORA TEMER ou Diretas Já!” e “Não ao Golpe: a Resistência É Na Rua”, ambos marcados para às 18h na Esquina Democrática, mesmo local que marcou o inicio do ato na quarta-feira (31).