Marcas das ditaduras latino-americanas

O som abafado dos áudios gravados no período das ditaduras militares da América Latina contrasta com a atmosfera pesada das imagens das pessoas desaparecidas na época e que hoje estão expostas na Usina do Gasômetro. Em vermelho e preto, a decoração incita aqueles que viveram o período, décadas de 1970 e 1980, a lembrar das mortes e da escuridão, enquanto quem nasceu depois se emociona calado ao conhecer essa triste história de um passado nem tão remoto assim.

A exposição “Movimento de Justiça e Direitos Humanos – Onde a Esperança se Refugiou” causa espanto, tristeza e emoção aos visitantes. Até 5 de maio, estão disponíveis fotografias, áudios, vídeos e documentários que abordam episódios ocorridos nos países que enfrentaram regimes militares ao final do século 20.

Mostra estará na Usina do Gasômetro até o dia 5 de maio.

A mostra está dividida em cinco partes. Na primeira, o visitante conhece os momentos históricos das ditaduras na América Latina. Utilizando vídeos e painéis, na segunda, são abordadas as circunstâncias e os desdobramentos dos regimes militares. Na terceira seção, é apresentado o Movimento de Justiça e Direitos Humanos (MJDH), com suas ações de proteção às vítimas da perseguição política e o número de desaparecidos no período. Em seguida, é tratada a transição política no Cone Sul, da ditadura para a democracia. Na quinta e última seção são destacadas as Comissões da Verdade, suas peculiaridades e cronologias no Brasil, Argentina, Uruguai e Chile.

Segundo o administrador da exposição Flávio Enninger, o objetivo do evento é mostrar para os jovens um período triste que faz parte da história e que, muitas vezes, não é conhecido. “Se ninguém lembrar o que aconteceu, alguém inventará algum motivo e aí estaremos na ditadura de novo. Queremos fazer quem viveu a época relembrar, além de alertar os jovens para que esse período não se repita”.

Para a fotógrafa Gênova Wisniewski, 21 anos, a exposição é muito importante, pois complementou seus conhecimentos sobre o período e esclareceu alguns fatos com relação às ditaduras da Argentina e do Uruguai. “Eu acho que a exposição é essencial porque precisamos voltar a falar sobre isso. As pessoas devem ter consciência do que aconteceu, o quão grave e sério foi”. A jovem reclama da maneira banal com que as ditaduras são tratadas nas escolas. “É preciso um estudo mais aprofundado sobre o assunto. Tu não vês as pessoas falando sobre isso, enquanto tem uma multidão esperando, até hoje, por justiça”.

O jovem Felipe Santana, 20 anos, elogia a produção da mostra e conta ter entendido um pouco mais sobre a época. “Não consigo ver pontos positivos na ditadura e ainda existem alguns resquícios dessa cultura aí na rua”. Para o músico e jardineiro paulista Diego Rizzo Vieira, 28 anos, os acontecimentos estão esquecidos e soterrados aqui no Brasil. Ele conta ter feito um tour pelo Chile e Uruguai, quando notou que lá as marcas da ditadura são muito mais vivas e presentes do que aqui. “A ditadura acabou, mas a democracia deixa a desejar”, afirma.

A exposição chama a atenção, inclusive, de pessoas que, na período, eram favoráveis ao regime. O aposentado Laureci Henrique Lara, 68 anos, comenta que na época “eu era militar, mas não tive nenhuma participação direta nos acontecimentos, apenas acompanhava os fatos pelo noticiário”. Indagado se a mostra correspondia ao que ele viveu na época, o aposentado afirma: “Corresponde. Não vou dizer que não, porque corresponde”.

Na mostra há também duas réplicas de telefones públicos forrados com recortes de cartas, fotos, documentos relacionados às vítimas da perseguição. No interior do telefone, é possível se ouvir áudios de fragmentos retirados de cartas enviadas ao MJDH por familiares e vítimas das ditaduras: “Suplicamos, encarecidamente, que o paradeiro de nossos filhos e netos não se perca na escuridão”.

A mostra estará em exibição até o dia 5 de maio, na Usina do Gasômetro.

Veja uma galeria de fotos sobre a exposição:

Texto: Laísa Mendes (3° semestre)
Foto: Guilherme Testa (5° semestre)