Medo, sentimento dos moradores do bairro Menino Deus

Comércio local fechou as portas na quarta-feira (09/9), após morte de conhecido comerciante do bairro, vítima de bala perdida.

  • Por: Bibiana Garcez (4º semestre) | Foto: Juliana Baratojo (4º semeste) | 10/09/2015 | 0

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Comerciantes da região fecharam parte das lojas e exibiram cartazes em protesto à onda de violência que assola o bairro Menino Deus.

Medo é a palavra mais repetida pelos moradores do bairro Menino Deus, de Porto Alegre, quando se referem aos acontecimentos de 4 e 5 de setembro que culminaram com a morte de um comerciante, atingido por tiros disparados, na Avenida Getúlio Vargas, na perseguição policial a suspeitos de terem cometido assalto.

Na terça-feira (8), morreu Elvino Nunes Adamczuk, proprietário de padaria situada no início da Avenida Getúlio Vargas, e muito conhecido no bairro. Ele foi vítima de uma bala perdida – durante um tiroteio entre suspeitos e a Brigada Militar, na noite de sexta-feira (4). Elvino foi atingido no abdome. Sua morte sensibilizou a comunidade. Na hora do enterro do comerciante, na quarta (9), lojistas da Avenida Getúlio Vargas fecharam as portas dos estabelecimentos por 30 minutos, em um protesto silencioso, organizado pelo movimento SOS Menino Deus. Nas vitrines cartazes anunciavam o luto pelo falecimento do vizinho.

Há cinco meses, a reportagem do Editorial J já havia constatado as reclamações de que eram comuns os arrombamentos e assaltos no bairro. Agora, com a greve dos servidores públicos estaduais, a insegurança não é apenas uma sensação generalizada, tornou-se fato.

Carla Kohlrausch, dona de um restaurante e uma das articuladoras do SOS Menino Deus, explicou os significados da manifestação. “Alguns eventos, embora muito tristes e negativos, acordam a população para um problema, antes muito distante. Foi também uma forma de mostrar que nós, lojistas, estamos indignados com a situação”, desabafou.

O SOS Menino Deus reúne moradores e comerciantes da região que buscam encontrar alternativas para diminuir a violência e os perigos. O movimento já atingiu cerca de 400 pessoas. “A gente sente e pensa o bairro”, relatou Carla. Além da indignação, os moradores veem-se impotentes. Izmália Ibias contou que se tornou prisioneira dentro de casa. “À noite, eu não saio, nem que seja para passear com meus cachorros. As ruas ficam praticamente desertas e a Polícia está em greve, então o medo é frequente. Não conseguimos mais andar livremente”, reforçou.

José Otávio Albuquerque, que mora no bairro por 25 anos, falou das mudanças no local. “O Menino Deus sempre foi um bairro muito bom, residencial, mas se tornou muito violento recentemente. Na sexta-feira, por exemplo, eu não saí de casa por medo”, disse.

O delegado César Carrion, titular da 2ª Delegacia de Polícia de Porto Alegre, situada no bairro, relata que, recentemente, aumentaram os roubos a pedestres e os arrombamentos de carros e de espaços comerciais. “Talvez os bandidos entendam que houve uma fragilização dos organismos de segurança pública, em função desses protestos por parcelamento de salários. Na verdade, há polícia, mas a Polícia Civil só atende casos graves. A Brigada Militar não tem o direito de fazer greve, mas vemos que há algo como uma greve branca, um agir que não condiz com como deveriam atuar”, observou Carrion sobre o aumento da criminalidade durante a baixa no efetivo de policiamento.

Quanto à atuação dos policiais civis neste período, ele concordou que está  limitada. “No momento, a gente só registra crimes graves. Os menos graves são feitos pela internet e, se não houve possibilidade (pela Delegacia Online, os Boletins de Ocorrência podem não são deferidos)… o que se vai fazer? É uma maneira de a gente protestar”, argumentou o delegado. Essa medida, reconheceu, pode, contudo, afetar os índices de violência e/ou criminalidade.