Mesmo com fechamento de grandes estúdios, mercado para dubladores ganha fôlego

Incentivos legais, acesso facilitado à TV de assinatura e surgimento de novos nichos beneficiam os profissionais.

  • Por: Ângelo Passos (8º semestre), Eduardo Deconto (8º semestre), Juliana Forner (8º semestre) | Foto: Divulgação | 27/07/2015 | 0

 

Márcio Dondi dublou filmes como A Origem, Os Infiltrados e Madagascar.

Tão velha quanto o quase centenário cinema falado, a profissão de dublador rejuvenesceu nos últimos anos no Brasil. Incentivos legais, acesso de uma parte maior da população a salas de cinema e à televisão por assinatura e o surgimento de novos nichos para a categoria reanimaram um mercado que parecia ter perdido o fôlego — ou a voz — em meados dos anos 2000.

Antes restritas ao eixo Rio-São Paulo, onde se concentram os principais estúdios, as ofertas de trabalho para o setor hoje se espalham para outros Estados, como Minas Gerais, Bahia e Rio Grande do Sul, sinalizando expansão nesse mercado. Acompanhando esse deslocamento, novos cursos e escolas de dublagem foram criadas em capitais como Porto Alegre e Belo Horizonte, atendendo a uma demanda cada vez maior de estudantes de artes cênicas e teatro que buscam especialização na área.

O bom momento do mercado de dublagem pode até surpreender quem viu, há pouco mais de três anos, estúdios de peso como Álamo e Herbert Richers fechando as portas. Na opinião de Márcio Dondi, que deu voz ao vilão Ultron, personagem do blockbuster Os Vingadores 2 – A Era de Ultron, a derrocada dessas companhias não pode ser relacionada a um possível enfraquecimento do mercado. “Não sei exatamente o motivo do fechamento desses grandes, mas posso afirmar que não fecharam por falta de produções”, garante.

Embora o diagnóstico de Dondi seja apenas intuitivo, vai ao encontro de indicadores do mercado. De uns anos para cá, por exemplo, cresceu o número de filmes de ação e comédia dublados para as telonas do cinema. Essa tendência, antes restrita a animações e a obras infantis, estendeu-se com força para produções adultas.

Pesquisafeita em 2012 pelo Datafolha por encomenda do Sindicato das Empresas Distribuidoras Cinematográficas do Rio de Janeiro mostrou que 56% das pessoas (em um universo com 2 mil entrevistados) preferem assistir a filmes dublados nos cinemas, enquanto 37% optam por legendados. Embora os dados sejam de três anos atrás, um olhar para as salas de cinema da Capital permite a dedução de que pouco ou nada mudou. Dos 15 filmes em cartaz no GNC Praia de Belas na primeira semana de junho, por exemplo, dez são versões dubladas de produções estrangeiras.

Essa alta da demanda por conteúdo traduzido reflete o acesso maior de parte da população — com menor nível de escolaridade e, também, conhecimento de línguas estrangeiras — que antes não tinha dinheiro para este tipo de lazer. O aumento no número desses telespectadores obrigou as distribuidoras a aumentar a oferta de filmes dublados, aquecendo toda uma cadeia de serviços.

O mesmo fenômeno é observado na televisão por assinatura, que conta com outro agravante. Desde 2011, uma lei federal exige que canais transmissores de produções estrangeiras, como séries e filmes, ofereçam opções de áudio em português para os telespectadores.

Das telas para os consoles
Longe das telas do cinema e dos canais de televisão, os profissionais de dublagem também têm observado o crescimento da demanda em novos setores. O caso dos videogames é exemplar.

Se há pouco mais de cinco anos era surpreendente encontrar títulos populares com a opção de áudio traduzido, atualmente, a dublagem para jogos se tornou exigência do público consumidor. Ajuda o fato de grandes desenvolvedoras desse segmento, como Ubisoft, Activision e Eletronic Arts, verem no Brasil um mercado gigante e em franca expansão.

O que começou em franquias de futebol, como Fifa e Pro Evolution Soccer, com a contratação de comentaristas e nomes da mídia esportiva nacional para narração das partidas, espalhou-se para diversos gêneros. Títulos famosos como Assassin’s Creed e Call Of Duty e sucessos de crítica, como o aclamado The Last of Us, entram na lista de games com “versão brasileira”.

Na tentativa de copiar uma fórmula usada nos Estados Unidos, contudo, os estúdios têm apostado na contratação de vozes conhecidas para a dublagem de jogos, o que tem gerado críticas tanto por parte do público quanto dos profissionais da área. Um exemplo recente foi a escolha da cantora paulista Pitty para interpretar uma das personagens da nova versão de Mortal Kombat, um dos títulos mais tradicionais da indústria de videogames.

Na opinião de Pablo Raphael, crítico de games do site do Uol, jogadas de marketing desse tipo podem prejudicar o trabalho de dublagem de todo um título, o que é ruim para os consumidores “Jogos dublados são importantes para o mercado brasileiro, da mesma forma que filmes e programas de televisão. Mais do que respeitar os consumidores, dublar os jogos é um investimento elevado, que dá resultados em vendas e agrega valor ao produto. Isso conta muito na percepção de quem vai colocar a mão no bolso e pagar de R$ 200 até R$ 250 em um game no lançamento”, pondera Raphael, ao comentar, no portal Uol, a escolha do cantor Roger Moreira para dublar um dos personagens de Battlefield: Hardline.

De mãe para filho
Gabriel Noya tem 26 anos e trabalha com dublagem há 20. A entrada precoce no ramo é um reflexo da influência da mãe, Fátima Noya, dubladora consagrada. Ao se dar conta de que as personagens crianças também precisavam de uma voz, ela começou a levar o filho aos estúdios. A entrada na profissão, então, acabou sendo natural. “Minha mãe ficou extremamente feliz de eu seguir o trabalho dela. Ela é minha fã número 1, daquelas corujas e orgulhosas”, disse.

Natural de Santa Maria, mudou-se para São Paulo ainda novo e mora lá até hoje. É formado em Comunicação Social com ênfase em Rádio e TV pela Faculdade de Belas Artes, e sua voz já deu vida, em Pokémon, à Pokédex e ao Paul – um dos rivais do protagonista, Ash –, em Dragon Ball Kai, ao Dendê, em Hey Arnold, ao Garoto Chocolate, em Ginger, ao Carl Foutley, em Yu-Gi-Oh, ao Mokuba, e, em Glee, ao Sam Evans. Gabriel também atua como diretor de dublagem e locutor, sem nunca recusar nenhuma proposta, por mais que o papel não tenha nada a ver com ele. “Eu me desdobro na frente do microfone e procuro fazer o melhor possível sempre. Cada trabalho é diferente, e temos que procurar nos aproximar o máximo possível do áudio original”, conta.

Com uma rotina corrida e sem horários pré-determinados, Gabriel admite que as dificuldades são muitas, sendo a principal a instabilidade (o profissional acaba se tornando um freelancer, sem carteira assinada). No entanto, afirma que nunca pensou em desistir por amar o que faz. Sobre ouvir a própria voz sendo enunciada por outra pessoa, relata que odiava quando criança, mas que se acostumou.

Para Gabriel, o trabalho mais complexo de sua carreira foi no final de 2014, com o filme O Dono da Festa, dublando Ryan Reynolds. A primeira dublagem do filme ocorreu em 2003, no lançamento, e o jovem participou gravando algumas “pontas”. Adolescente, assistiu o resultado no cinema e adorou a personagem principal, Van Wilder. Anos depois, seria ele a dar vida a ela, com o privilégio de fazê-lo sob o comando de um ídolo, o diretor Nelson Machado.Além de ser responsável pela personagem principal, o diretor de dublagem era Nelson Machado, ídolo do jovem.

Ouça um trecho da entrevista com o dublador Gabriel Noya

Próprio negócio
Adorador de séries e desenhos animados dos anos 1980, como O Incrível Hulk, Christiano Torreão, 42 anos, decidiu fazer um curso de dublagem aos 17 anos e se apaixonou pela atividade. Com formação de ator, foi contratado pela primeira vez em 1993 pelos estúdios VTI, aos 20 anos. Desde então, se tornou a voz de Leonardo DiCaprio em filmes como A Origem, Os Infiltrados e Gilbert Grape – Aprendiz de Sonhador, James em Dawson’s Creek e Mork em Madagascar. Hoje, tem o próprio estúdio de dublagem, o K Stream Brasil, inaugurado em julho do ano passado. “O mercado está enorme, cada dia melhor. Nós trabalhamos com seriados, como Forever, da Warner, e começamos a fazer games também”, afirma.

Torreão salienta que, ao contrário do que muitos pensam, o objetivo é não ficar marcado com a voz de um único personagem, chegando o mais próximo possível do áudio original. “No início era estranho, olhar a voz na boca do cara e achar verdadeiro, mas sempre foi desafiante”, lembra.

As dificuldades da profissão, conforme Torreão, incluem a inserção em um mercado caracterizado pela terceirização e o ritmo industrial. “É tudo muito rápido. Deveria ser de forma mais artística, o dublador deveria poder assistir as gravações e entender a personagem antes de trabalhar”, opina. Ele explica que, normalmente, a única pessoa que tem acesso ao vídeo original antes do processo de captação da dublagem é o diretor, e, por isso, não há um estudo da personagem como acontece com a atuação.

Prática e cuidados com a voz
A simpatia de Márcio Dondi é percebida desde o primeiro contato. Solícito, pede um minuto para estacionar o carro e poder conversar melhor com a reportagem em contato telefônico. Nada de interrupções e devaneios com problemas decorrentes do trânsito. O carioca quer foco total para falar de suas paixões e profissões há 19 anos: a dublagem e a locução. Atividades que demandam cuidados e são praticadas a exaustão.

A voz grave e bem postulada rende frutos a Dondi desde 1996. Diz mais sobre ele do que um encontro pessoal poderia retratar. Pois é a voz que possibilita ao locutor representar, ao mesmo tempo, a maldade do vilão Ultron, em Vingadores – A Era de Ultron, a luta contra a corrupção do deputado Agostin Morales, na série mexicana A Ditadura Perfeita, e a sensibilidade do apaixonado, Teobaldo, na novela Corações Indomáveis.
Permite ainda que narre os fatos históricos da Segunda Guerra Mundial, a presença de Ovnis ou a vida selvagem de leões na Savana Africana, nos documentários gravados para os canais National Geographic, Fox Life e Discovery. Tudo isso, sem soar “caricato”. “Não existe um trabalho mais difícil, tudo é uma questão de prática, quanto mais você faz, melhor vai ficando”, afirma o locutor.

Dondi ressalta ainda que é preciso adotar cuidados especiais, como não gritar e evitar comidas gordurosas para manter a voz em boas condições. A locução ganhou espaço em sua vida em 1996, na área de publicidade. A dublagem foi apresentada por ele pelo ator Marcos Oliveira, o “Beiçola” de “A Grande Família”, três anos mais tarde. Foi “amor à primeira vista”. De lá para cá, o locutor procurou se especializar em cursos de interpretação e teatro. O diferencial em sua vida profissional, porém, surgiu dos ensinamentos do dublador Márcio Seixas, voz de atores como Clint Eastwood, Sean Connery e Roger Moore. “Ainda tenho um longo caminho pela frente, mas ele foi o diferencial na minha vida. Tenho uma gratidão de vida com o Márcio. Comecei a dublar com ele, mas profissionalmente só em 2010, após concluir meu segundo curso de dublagem, no Instituto Artístico Brasiliro (IAB). Hoje, vivo de locução e de dublagem. Mais de dublagem, é verdade. O mercado de locução está prostituído demais”, pondera.

Em meio aos cuidados diários com a voz, Dondi costuma refletir sobre a profissão e o mercado, aquecido, apesar do fechamento de estúdios importantes, como Álamo e o Hérbert Richers. Ele adota discurso crítico. “Infelizmente, estão pecando pela qualidade. Não brigamos por novas casas, mas por um acordo coletivo para controlar a qualidade do trabalho que entra na casa do telespectador. Essa é nossa maior propaganda”, destaca.

Ouça um trecho da entrevista com o dublador Marcio Dondi

Dondi não recorre a agentes, nem faz pedidos a empresas para que solicitem sua locução. Tampouco aposta apenas em seu portfólio e em sua capacidade de locução. Leva tudo mais a sério do que isso. “A dublagem possibilita que o cinema, que uma novela, um seriado, chegue à vida das pessoas e toque a vida das pessoas. Permite que possa compreender um enredo. Isso não tem preço. É o que me move”, ressalta.

Do teatro à dublagem
Lina Rossana não conseguiu materializar o sonho de criança de se tornar uma atriz profissional. Após algumas aparições em filmes e séries, como o Sítio do Picapau Amarelo,  a carioca abandonou os palcos e sets de filmagem. Ela, no entanto, nunca deixou de interpretar e dar vida a personagens icônicas. Se a vida lhe fechou algumas portas, a voz lhe abriu tantas outras, para atuar como dubladora.

Tudo graças a um convite de Hommer Simpson, ou melhor, do dublador Waldyr Santana,  que dá voz ao pai de família amarelo e dirige um estúdio de dublagens. Bastou o convite para Lina ingressar no mundo das locuções. “Não era minha área preferida, mas foi a que me acolheu. E eu me encontrei nela. É um trabalho de atriz dos mais complexos, ainda que eu só use minha voz. Na dublagem, eu me exercito num palco imaginário, em que ainda tenho que ter reflexo, velocidade de leitura e muita humildade para não comprometer o trabalho de quem estou interpretando”, analisa.

O talento de Lina logo a fez conquistar grandes estúdios, como o Herbert Richers e grandes papeis. A dubladora já deu voz a Audrey Hepburn, em Bonequinha de Luxo, a Olívia Palito, do desenho animado Marinheiro Popeye, e à Vovó do Piu-Piu e Frajola. Lina conquistou a dublagem. E vice-versa. “Dublar é tentar brilhar ficando à sombra. Fazer a mágica de as pessoas esquecerem que o filme é falado em outra língua e acharem que a voz da atriz que aparece na tela é a minha.

Ouça um trecho da entrevista com a dubladora Lina Rossana

Após o lamentado fechamento da Herbert Richers, em meio ao declínio e à má administração dos grandes estúdios, a dubladora vive a “loucura” de encaixar sua agenda na das pequenas produtoras. “Infelizmente, os grandes estúdios não suportaram a concorrência selvagem dos pequenos. Hoje, os estúdios nos escalam para determinado horário, dia tal. A nossa agenda é uma loucura”, constata.