Flávia de Almeida Moura

Mídia ratifica a exploração de trabalhadores rurais do Maranhão, afirma pesquisadora

  • Por: Eduarda Endler Lopes (2º semestre) | Foto: Annie Castro (2º semestre) | 09/07/2015 | 0
Flávia de Almeida Moura
Flávia de Almeida Moura

A mídia é mais uma voz que legitima a exploração de trabalhadores, concluiu a doutoranda Flávia de Almeida Moura, que defendeu, na última sexta-feira (03), a tese “Representações do trabalho escravo a partir da mídia: olhares de trabalhadores rurais maranhenses”, orientada pela professora Dra. Juliana Tonin, no Programa de Pós-Graduação em Comunicação da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS). O estudo da professora da Universidade Federal do Maranhão (UFMA), que fez doutorado na PUCRS por meio do programa Doutorado Interinstitucional (Dinter), começou muito antes da elaboração do trabalho escrito. Dos professores doutorandos que foram selecionados pelo Dinter na universidade, Flávia foi a primeira a defender a tese, concluindo seu trabalho em três anos.

A pesquisa é, na verdade, resultado de sete anos de trabalho. No início, Flávia precisou adequá-lo à Comunicação Social, pois a mídia ainda não estava inserida na delimitação, apesar de já trabalhar com comunicação popular e comunitária. Como procedimento metodológico, ela diz que foram feitos grupos focais com trabalhadores rurais maranhenses, viabilizados com auxílio do Centro de Defesa da Vida e dos Direitos Humanos de Açailândia, que foi o principal mediador. Naquele momento, os trabalhadores assistiram a um conjunto de sete reportagens de quatro emissoras de televisão de canal aberto, veiculadas entre 2009 e 2013, que abordava o trabalho escravo. Após, a pesquisadora conversava sobre o assunto com o grupo de dez trabalhadores e também fazia entrevistas na casa deles, em Açailândia, a 600 quilômetros de São Luiz, no Maranhão.

Para a surpresa da doutoranda, os trabalhadores revelaram senso crítico muito maior do que imaginava, pois percebiam a hierarquia da informação, a sensibilidade de quem fala e como foi feito o encadeamento da reportagem. Flávia ressalta que eles notaram, principalmente, que a última voz na reportagem era sempre do empregador ou do governo, o chamado outro lado do jornalismo, que dá a impressão de que a situação seria resolvida.

Apesar de identificarem as limitações das reportagens, os trabalhadores rurais justificavam a produção de TV, dizendo que os repórteres não têm tempo para fazer uma apuração mais profunda e que as histórias não são contextualizadas. “A mídia participa dessas representações, mas não as determina”, constata Flávia.

A escolha dessa temática de estudo surgiu desde quando Flávia entrou no campo de pesquisa. Ela conta que já presenciou realidades muito duras no Maranhão e que, devido ao conflito de terra, já necessitou usar colete à prova de bala para entrar em algumas áreas. A pesquisadora lembra o caso de um trabalhador que, para fugir sem morrer, teve que se esconder entre o gado, pois os animais têm um alto valor e seu empregador não o mataria se estivesse escondido entre eles. Flávia lamenta a inversão de valores da vida de um ser humano e de um animal e sustenta que é uma questão de direitos humanos. “Isso é um fato simbólico para pensar que o trabalho escravo contemporâneo não é apenas uma irregularidade trabalhista, é um crime à humanidade”, explica ressaltando que a humilhação não é somente física.

A professora maranhense acredita que a tese tem uma contribuição social para os produtores de telejornalismo, pois se deve ter critérios de como lidar, tratar e documentar essas vidas, pois há uma forte exposição. Além disso, enxerga sua pesquisa como forma de dar voz a esses trabalhadores e também irá ajudar a fazer as pessoas refletirem sobre o problema social.

A partir do momento em que os trabalhadores rurais podem se mostrar, isso fomenta um protagonismo e cria uma noção de cidadania que eles poderiam não ter por pura falta de acesso. Mesmo reconhecidos como escravos, eles podem tomar iniciativas. Flávia faz uma relação com os quilombolas e questiona quem os chamou assim. Quando esse grupo se representou como quilombolas, eles deixam de ser um grupo de negros isolados em um local rural. Dessa forma, os trabalhadores rurais, apesar de ainda terem o imaginário do escravo histórico, do navio negreiro, se reconhecem como escravos, mas, atualmente, suas correntes são as dívidas (geralmente com o empregador), fazendo do endividamento a principal característica de escravidão.

O Centro de Defesa articula o acesso dos direitos quando os trabalhadores percebem que estão sendo escravizados. Há um resgate de um grupo, pois dificilmente um empregado sozinho luta pelos seus interesses. Flávia lamenta que muitos dos que são resgatados do serviço escravo reincidem, pois necessitam de emprego. Os trabalhadores rurais chamam isso de “precisão”, isto é, aceitam essas condições, pois não há uma alternativa de trabalho digno.

Doutorado interinstitucional

Segundo informações da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes), o Mestrado Interinstitucional (Minter) e o Doutorado Interinstitucional (Dinter) são turmas de mestrado acadêmico e de doutorado conduzidas por uma instituição nacional promotora nas dependências de uma instituição de ensino e pesquisa receptora, localizada em regiões, no território brasileiro ou no exterior, afastadas de centros consolidados em ensino e pesquisa.