Migração muda de rota e de rostos

Centro Ítalo Brasileiro de Assistência às Migrações (Cibai) já atendeu mais de sete mil imigrantes em Porto Alegre desde o ano passado

  • Por: Gabriel Affatato (3º semestre) | Foto: Bernardo Speck (5º semestre) | 03/05/2018 | 0

O Brasil vive uma intensa época de migrações. Desde 2010, o fluxo de haitianos aumentou exponencialmente a partir dos traumas sociais que foram intensificados no país após o terremoto daquele ano. Fugidos do desemprego e da grave crise econômica, vieram mais tarde os senegaleses, em busca de um horizonte laboral. Recentemente, após sucessivas crises políticas, começaram a chegar os venezuelanos, que entram através da fronteira com o estado de Roraima.

Em Porto Alegre, o Centro ítalo Brasileiro de Assistência e Instrução as Migrações (Cibai), situado na Igreja Pompéia, se prepara para o crescimento no fluxo dos venezuelanos, conforme anúncio da necessidade de realocação destes imigrantes feito pelo governo federal em 20 de abril último. A estimativa do Ministério de Desenvolvimento Social é de cerca de mil venezuelanos serem distribuídos a 13 estados da federação, contando com o Rio Grande do Sul. Porto Alegre então, mais uma vez, torna-se um destino para estrangeiros que buscam a retomada de suas vidas.  

Entrada da Igreja Pompéia onde fica o Centro ítalo Brasileiro de Assistência e Instrução às Migrações – Cibai. 

Criado em 1958, o Cibai substituiu a Secretariada Católica de Imigração, que tratava a situação dos italianos que chegavam ao Brasil no período posterior à Segunda Guerra Mundial. No espaço, na rua Barros Cassal, número 220, junto à Igreja Pompeia, ligada à Congregação dos Missionários de São Carlos, funciona o centro de acolhida a imigrantes e refugiados, um dos mais importantes do país.

Em novembro de 1887, João Batista Scalabrini fundou a congregação Congregação dos Missionários de São Carlos. Em 1958, foi criado o Cibai para acompanhar imigrantes italianos que vinham para o Brasil e para Argentina. “O centro é fruto desta congregação”, ressalta padre Gustot Luisean. Gustot é natural do Haiti e veio para o Brasil em 2004, a partir desta congregação internacional presente em mais de 20 países espalhados pelos cinco continentes. “Sempre onde tem um padre scalabriniano, vai ter envolvimento com imigração”, explicou, pois o lema da Congregação provém da frase de Jesus: “Eu era estrangeiro e tu me acolheste“.

Doações de roupas destinadas para os imigrantes. 

ATENDIMENTO JURÍDICO E PSICOLÓGICO

O Cibai oferece aos imigrantes a renovação de passaporte, a busca por demais documentos, atendimento jurídico e psicológico e também cursos de português. A infraestrutura do lugar é amparada economicamente pela congregação, enquanto outros recursos chegam por meio de doações. Grande parte das ações e iniciativas são conduzidas por voluntários.

O centro tem três funcionários e mais de 40 voluntários. Dentre estes está Jurandir Zamberlam, professor universitário aposentado que se dedica há mais de uma década a pesquisas relacionadas à imigração. “Quando completei 60 anos, me aposentei e pensei: chega, agora vou dedicar meus próximos cinco anos ao voluntariado. Até hoje já se passaram 16 anos”, conta o pesquisador que, desde 1962, trabalha junto aos movimentos sociais.

Jurandir Zamberlan, professor universitário aposentando, é o reponsável pelas pesquisas do Cibai relacionadas à imigração. 

Filho de agricultores, Zamberlam, desde a época do colégio, ia para o interior criar sindicatos e debater o tema da reforma agrária, coordenando também grupos de estudos universitários em Cruz Alta. “Nós trabalhávamos com comunidades de 60 famílias, das quais somente um dentre todos possuía emprego formal.” Jurandir também produziu estudos econômicos a respeito dos impactos que a desapropriação de uma terra improdutiva poderia gerar. Natural de Pejuçara, sempre defendeu que a universidade possuísse um olhar mais aguçado a respeito dos imigrantes. “Até o início dos anos 2000, a universidade percebia o fenômeno migratório como um problema demográfico. Nós começamos a debater que é um problema humanitário. Hoje, as universidades perceberam que se trata também de direitos humanos”.

Atualmente, vive-se um dos maiores picos de imigração da história recente do Brasil. Apenas em 2017, o Cibai auxiliou 7.075 imigrantes, dentre eles, muitos refugiados. O número é mais do que o dobro de pessoas assistidas em 2014, quando o centro registrou 3.315 atendimentos. “A migração não para, não é estática. Ela tem esse caminho, muda de rotas e de rostos”, aponta Gustot. Na ausência de políticas públicas que amparem o estrangeiro recém-chegado, a instituição exerce um importante papel.

Na sede do centro, que fica nos fundos da Igreja Pompéia, salas repletas de prateleiras recebem doações de alimentos e de roupas. “O imigrante chega com frio e fome e a primeira coisa que eles procuram é isso. A gente sempre tenta ajudar priorizando a necessidade. Atendemos muitas grávidas e mulheres com filhos menores que estão sozinhas, pois os maridos saíram daqui para procurar emprego em outros lugares”, comenta Rosana Sevallos, assistente que orienta imigrantes nas questões mais difíceis sobre documentação e idioma. Natural do Peru, ela cita que a excessiva burocracia e a língua portuguesa são as principais dificuldades de muitos a respeito da regulamentação. “Os que vêm com o visto estão ok. Aqueles que chegam com o protocolo precisam agilizar antecedentes criminais, com os dois carimbos (embaixada e o do Ministério das Relações Exteriores). Também tem a certidão de nascimento que precisa ser original”, detalha.

Rosana Sevallos relata sua experiência no Cibai. Natural do Peru, ela é reponsável por orientar os imigrantes sobre documentação e idioma. 

As décadas de atendimento permitem ao centro identificar as correntes migratórias conforme os vários momentos históricos. Nos anos 70, os acolhidos eram exilados políticos das ditaduras que aterrorizavam a América do Sul, diferente de hoje. Segundo o site do Cibai, estima-se que já tenha atendido mais de 100 mil imigrantes desde a sua fundação até os dias atuais.