Museu da Comunicação reduz atendimento

Pesquisadores precisam agendar consultas que estão restritas às terças e quartas à tarde

  • Por: Vitor Lacourt (3° semestre) | Foto: Clara Godinho (1º semestre) | 07/04/2017 | 0
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Problemas com a segurança e acessibilidade reduziram as visitações.


Em meio às lojas comerciais e prédios históricos da Rua dos Andradas, no Centro Histórico de Porto Alegre, está o Museu da Comunicação Hipólito José da Costa que, desde março, só aceita consultas agendadas ao seu acervo. A visitação às exposições está temporariamente suspensa. A pesquisa nos acervos de Imprensa, Fotografia, Cinema e Publicidade e Propaganda funciona nas terças e quartas-feiras, das 14h às 18h, com limite de quatro pesquisadores na sala e mediante agendamento prévio feito por e-mail.

A crise econômica e dos cofres públicos estaduais se acentua no patrimônio do museu, agravando as condições para seu funcionamento. Para ingressar no prédio situado na esquina da rua Caldas Júnior com a Rua dos Andradas, o visitante precisa ultrapassar a barreira de cheiros de pipoca cuja carrocinha está instalada na calçada diante do museu. Na porta, a recepcionista com uniforme de vigilante esboça um sorriso simpático, pedindo ao visitante que registre nome e CPF no caderno de visitas e diz que subindo as escadas se encontra a sala da secretaria do museu. O cheiro de pipoca já é trocado pelo cheiro de museu.O lugar onde dez funcionários trabalham parece tranquilo. Alguns andares desativados ou com cartazes de “entrada proibida” marcam o caminho até a secretaria.

A agente administrativa Renata Veleda indica o acervo do setor de imprensa, onde um pesquisador mais experiente e um jovem estagiário manuseiam jornais antigos usando luvas nas mãos. O teto da sala mostra resquícios de infiltração,causada por umidade. Renata, de cabelo até a altura do queixo, caminha até a bancada onde trabalha o coordenador do setor de Imprensa, Carlos Roberto da Costa Leite, que tem 25 anos de museu.

Com um pingente no pescoço do famoso olho de Hórus – símbolo usado no Egito Antigo -, Carlos Roberto é uma esfinge guardiã do tesouro do Museu da Comunicação. Empolgado explica a importância da memória encontrada nos jornais, livros, anúncios e documentos. Lembra-se da importância da organização nas listagens e inventários para o consumo dos pesquisadores do material. Ao ser questionado sobre as infiltrações no teto e na parede, lembra que ao “iniciar os vazamentos pelo telhado, começou a diminuir a equipe de funcionários e vieram preocupações com as gestões que foram chegando. Cada vez que o tempo armava, a gente já colocava os baldes e já batia o desespero. No ano passado, o primeiro momento foi fechar o museu e olhar para dentro da instituição. Fizeram uma avaliação e grande levantamento daquilo que tinha condições de ser manuseado, aquilo que precisou ser restaurado e o que pode ser colocado à disposição do pesquisador“. O problema foi solucionado pela Secretaria de Estado da Cultura (Sedac). “A aparência ficou feia, mas o problema da umidade já foi resolvido. Quando se resolveu a questão do telhado, a gente já retomou o atendimento” acrescenta Renata.

Os problemas de manutenção são evidentes no prédio. A parte elétrica é a grande culpada, segundo os funcionários, para a restrição do público. A Caixa Econômica Federal disponibilizará ajuda financeira de R$ 300 mil para a exposição de equipamentos do acervo de cinema. “Com o projeto da Caixa, provavelmente isso será resolvido. Dentro do projeto tem a resolução do problema elétrico. Como vai ser uma exposição dos equipamentos de cinema e a ideia é projetar filmes, necessita-se de toda a parte elétrica”, argumenta Renata. Carlos Roberto lembra que o problema elétrico envolve acessibilidade e segurança: “Imagina um monte de papel e coisas com alta combustão. Uma faísca e acaba com a memória em segundos. Isso era uma grande preocupação do Yuri (ex-diretor afastado). O meu pesadelo também é subir as escadas e não ter o elevador. Os pesquisadores idosos tendo que subir escadas há três anos. Quando tiver elevador, farei no mínimo umas dez viagens”.

Em junho de 2016, o diretor Yuri Victorino da Silva, foi temporariamente afastado pela Procuradoria-Geral do Estado por atuar como diretor e colecionador, o que não é previsto em lei. “Foi um pouco polêmico porque ele estava desenvolvendo uma atividade e não esperava que, por fatores de ter uma empresa e ser colecionador, não poderia. Realmente existe essa lei. Mas independente disso, o foco dele era inventariar o acervo e organizá-lo. Como ele é arquivista, focou nas listagens”.

Quando o diretor interino André Kryszczun assumiu manteve a política de trabalhar com memória, preservar acervo e fazer inventário para a instituição, o que ajuda a informar ao pesquisador sabe exatamente o local do acervo. “No momento em que tem uma listagem e um inventário, o atendimento flui de uma maneira muito melhor. O André de vez em quando vem pra cá, se reúne com a gente, vê as nossas necessidades”, relatou o coordenador do setor de Imprensa. Confiantes no encaminhamento de soluções para os problemas que se apresentam, os funcionários acreditam que, no segundo semestre, as atividades voltem ao normal no museu

“Quando entrei no museu, a média era de 30 a 40 pessoas por dia. Antes era diário, exceto segunda-feira. Cada gestão escolhe um perfil e uma linha de trabalho. Reduzimos em função de ter que dar um tempo. Não adianta o pesquisador pedir um material e ele não estar disponível. O movimento está normal, cinco ou seis pessoas nas terças e quartas. Vai chegar o momento que, conforme evoluir o trabalho, o museu vai abrir as portas direto”, prevê Carlos Roberto.