Nem só de cuia e bombacha vive o Acampamento Farroupilha

Logo na entrada da Feira de Artesanato do Acampamento Farroupilha, ouve-se uma música. Não, não é fandango; tampouco chula. O som que invade a feira vem do tambor de Mor, senegalês que vive no Brasil. “Não falo português”, ele adverte o passante. Bouba, também senegalês, é quem fala com os visitantes da bonita tenda de artigos africanos.

Bouba está há cinco anos no Brasil e participa pela primeira vez do Acampamento Farroupilha. A Maison D’Afrique (Casa da África) é uma tenda de comércio informal no evento, uma das poucas diferenciadas que não vende artigos gaúchos. Como o próprio nome sugere, Bouba vende máscaras, estátuas e bijuterias artesanais africanas – quando há movimento. Segundo ele, durante a semana há poucos visitantes, mas o número aumenta aos sábados e domingos.

Com sotaque francês e perguntando “entendeu?” ao fim de cada frase, Bouba explica que as máscaras e estátuas, todas em madeira e feitas pelo irmão Ablaye, são as que mais vendem. “Muito, muito” é a definição do quanto os visitantes se interessam pelas histórias africanas. “Cada uma representa um país e cada uma ‘fala’ uma coisa”, explica o senegalês, mostrando estátuas e procurando palavras em português para explicar seus significados. Os artigos, que custam entre R$ 250,00 e R$ 500,00, chamam a atenção dos visitantes.

Bonecos a venda no Acampamento Farroupilha,
Tenda aposta na venda de produtos não relacionados à cultura gaúcha.

Os artigos de Liane, outra vendedora estreante no Parque Harmonia, também chamam a atenção. Ela já está acostumada com feiras, pois participa de muitas ao longo do ano, inclusive fora do estado. Nesta edição do acampamento, nos finais de semana, ela tem atendido cerca de 150 pessoas por dia e vende cerca de 120 artigos. Durante a semana, o movimento cai e Liane trabalha sozinha das 10h às 22h, quando recebe cerca de 10 pessoas e concretiza a venda para 70% delas.

Em um pavilhão onde estão expostas botas, roupas gauchescas e cuias de chimarrão, a tenda de Liane mostra quadros, imãs e enfeites com os mais variados motivos – cantores, marcas de cerveja, desenhos etc. “Saem mais coisas diferentes do que com motivos gaúchos”, explica ela. Dependendo da feira, o casal que fabrica os artigos escolhe um tema como “carro-chefe” – o tema gaúcho, neste caso –, mas também expõe outros produtos. Estes são os mais vendidos. “O que mais saiu foi relacionado a cervejas”, conta Liane que explica: “Na feira, quase tudo é relacionado à mulher, e aqui o homem encontra coisas para ele”.

Se os homens acham produtos para si na loja de uma mulher, as meninas que vão à Feira de Artesanato no Parque Harmonia encontram o paraíso das bonecas na loja de um homem. Luis Edmilson Schuch vende algo inesperado no Acampamento Farroupilha, roupas para boneca Barbie. Trabalhando há quatro anos com feiras e pela segunda vez no evento gaúcho, ele procura se adaptar. Na parede, são expostos vestidos de prenda – para Barbie, é claro. “Logo vou trazer a roupa de gaúcho”, conta. Para o Ken.

Quem costura e inventa os modelos é a esposa de Schuch, mas é ele quem vende – vestidos de prenda, vestidos de festa e “roupa normal”, a que mais sai. Quem mais compra são crianças que estão com os pais, mas, segundo ele “sempre tem uma tia e uma madrinha que leva para a criança”. Assim como nas outras tendas, durante a semana o movimento é baixo. Tudo muda no final de semana. “Fica uma loucura, um formigueiro”, conta Schuch.

A procura é tanta que a tenda possui Facebook. Schuch participa de feiras durante o ano, mas não costuma ir muito longe. “Em Novo Hamburgo já sou conhecido”, revela. Durante o ano, permanece na cidade e em lugares no entorno, como São Francisco e Bento Gonçalves. “Fico num raio de 100 km de Novo Hamburgo, a não ser quando vou para a praia”.

Não muito longe da cidade de Schuch, Acuab e os índios da Aldeia Charrua produzem bijuterias artesanais indígenas. A aldeia fica do lado da cidade de Viamão, mas Acuab, a primeira mulher cacique-geral da tribo Charrua do estado, ressalta que é em Porto Alegre. “Eu que não queria pertencer àquele homem de Viamão”, explica. “Dentro de Porto Alegre já é difícil para o índio”.

Há quase dez anos no Acampamento Farroupilha, a índia, com um cocar azul, diz que, neste ano, nem as plantas, nem os artigos indígenas estão fazendo sucesso. “O pessoal não está se interessando muito pela saúde; estão mais interessados na cervejinha gostosa”, conta, rindo.

O senegâles Mor usa a música para atrair clientes.
O senegâles Mor usa a música para atrair clientes.
Acuab é pajé, quem trabalha com plantas, e xamã. “Trabalho com a tua energia, com a energia da nossa Mãe Terra, do nosso Pai Fogo, que é o sol, da Mãe Água, e com a energia de vocês e com a das árvores”, explica. Algumas plantas já venderam no Acampamento, mas Acuab conta o motivo de pouco sucesso: “É muita concorrência”.

Seja pelos artigos africanos, pelos quadros coloridos, pelas roupas de Barbie ou pelos produtos indígenas, o visitante do Acampamento Farroupilha já não precisa visitar apenas tendas que vendem a cultura gaúcha. O Parque Harmonia, apesar de abrigar a tradição do Rio Grande do Sul, abre espaço para todos os tipos de comércio e de produção artística.

Texto: Bibiana Meneghini Dihl (6º semestre)
Fotos: Janaína Marques (6º semestre)