Notícias da crise na Venezuela chegam mais rápido ao exterior

Venezuelanos em Porto Alegre dizem conhecer melhor os fatos aqui do que seus familiares no país

  • Por: Luísa Soares (4º semestre) e Ritieli Moura (3º semestre) | 08/08/2017 | 0

Descobrir o que acontece e se informar sobre a crise política em que a Venezuela vive é
mais fácil quando se está morando fora do país, de acordo com Rinoa Acosta, 42 anos. A
enfermeira, natural de Caracas, reside há três anos em Porto Alegre e acredita que o povo
consegue se manter informado por familiares que vivem em outros países e trocam
mensagens pelas redes sociais.

Embora não enfrente diretamente os conflitos e as manifestações na capital venezuelana,
ela afirma que passou por dificuldades para entrar no Brasil e, agora, encara o desemprego.
“Toda minha família está na Venezuela e infelizmente ainda não pôde vir”, conta Rinoa.
O estudante de Engenharia Física Jesus Daniel Yepez Rojas, 20 anos, compartilha uma
experiência mais positiva, pois a viagem para o Brasil “foi tranquila”. Como Rinoa, Rojas
veio para a capital gaúcha em 2014, a fim de acompanhar os pais nos estudos de
doutorado. Desde então, passou a estudar para conquistar uma vaga na Universidade
Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), onde estuda hoje.

Além dos dois conterrâneos, Porto Alegre recebe também Jesus Agelvis, 29 anos, formado
em comércio exterior e hoje atuando na área da gastronomia. Em 2014, Agelvis deixou a
Venezuela para conhecer o Brasil, mas devido às crises política, econômica e social do país
de origem, não conseguiu voltar para Caracas. Enquanto morava na capital venezuelana,
participou de alguns protestos e manifestações. “Quase fui baleado na época. Tenho
amigos que foram brutalmente agredidos pelos militares, outros foram presos e saíram do
país e têm aqueles que ainda seguem na resistência”, conta.

O que existe em comum entre os três, além da nova cidade em que vivem, é o fato de que
partes de suas famílias continuam na Venezuela e ainda não conseguiram se mudar para a
capital gaúcha. “Minha mãe e meu padrasto, como muitos, já não sabem o que fazer, se
imigram e começam tudo de novo ou se ou esperam o que acontece lá. É uma situação
difícil”, comenta Agelvis.

De acordo com a ONG Observatório Venezuelano de Conflitos Sociais, mais de 160 pessoas
já perderam a vida em conflitos e protestos desde abril até segunda-feira (7). “O pessoal que
sai para as ruas e luta pelos seus direitos são os que estão dando a cara pelo país, só que cada
vez mais protestantes morrem”, diz Rojas.

Em julho, mais de 100 venezuelanos participaram de um plebiscito simbólico, realizado em
Porto Alegre, contra o projeto para reformar a Constituição da Venezuela, proposto pelo
presidente Nicolás Maduro. Rinoa foi uma das organizadoras do evento e se disse surpresa, na
ocasião, pois houve bastante procura por venezuelanos, conforme matéria publicada no G1. De
acordo com ela, políticos, estudantes e quaisquer pessoas que não estiverem a favor do
governo podem ser presas na Venezuela. “Não há liberdade de expressão”, ressalta.

As notícias que recebem de outros familiares que continuam no país vizinho não são das
melhores. “As pessoas estão desesperadas, todo dia falo com meus primos, que me falam
que está muito difícil. É muito maior esse problema, é complexo. Uma esquerda cega e
fanática, e uma direita que não dá a cara e não assume seu compromisso com o país,
então o povo fica abandonado contra o governo”, conclui Agelvis.