Número de passageiros de transporte público reduz 17% em dez anos em Porto Alegre

A facilidade de comprar automóveis e o surgimento dos aplicativos de transporte diminuíram a preferência pelo transporte coletivo

  • Por: Mariana Gomes Puchalski (2° semestre) | Foto: Divulgação/Prefeitura Municipal de Porto Alegre | 15/05/2017 | 0
As tarifas estão sendo discutidas há semanas.
As tarifas estão sendo discutidas há semanas.

Conforme dados da EPTC (Empresa Pública de Transporte e Circulação), nos últimos 10 anos houve um decréscimo de 17% na média de passageiros pagantes dos ônibus em Porto Alegre. O preço da tarifa de ônibus em Porto Alegre está acima da inflação. Além disso vereadores da oposição contestam a versão das empresas de transporte.

A diminuição de usuários do transporte coletivo está ocorrendo na maior parte do Brasil. “Este fenômeno não é exclusivo de Porto Alegre. Atinge capitais de todo o país. Como Belo Horizonte, Curitiba e Goiânia, tiveram respectivamente uma redução de 6,5%, 8% e 7,9% em 2015”, destaca a Associação dos Transportadores de Passageiros de Porto Alegre (ATP) por meio de sua assessoria de imprensa.

O engenheiro e Técnico de Trânsito e Transporte da EPTC Flávio A. Tomelero Jr salienta que

o declínio de passageiros é devido a um conjunto de fatores, dentre eles o aumento do poder aquisitivo, que faz com que as pessoas almejem outros meios de transportes, e o preço da tarifa, que aumentou com o reajuste de salários dos rodoviários e o custo do combustível.

Para a ATP, alguns dos motivos que levaram à queda de usuários são as desonerações para a compra de carros que promoveram o aumento dos veículos particulares nas ruas. A entidade também aponta o problema da segurança pública e o número de pessoas isentas nas passagens, cerca de 35% do total dos usuários.

Aumento da tarifa

De acordo com o Coletivo Meu Ônibus Lotado, que faz um debate do transporte coletivo de Porto Alegre se o valor da tarifa de ônibus fosse corrigido pelo IPCA (Índice de preços ao consumidor amplo) desde 1994, quando era de R$ 0,37, hoje estaria em R$ 2,06, pouco mais da metade do valor atual (R$ 4,06), conforme visto no gráfico disponível nas redes do grupo.O Editorial J confirmou estes dados através da Calculadora do Cidadão, do Banco Central, que atualiza valores pela inflação, e por meio dos Indicadores Anuais de Mobilidade Urbana de Porto Alegre de 2011, que certificam o preço inicial da passagem.

Para o Coletivo, existem fatores que agem em conjunção para o aumento da tarifa: a variação normal do preço dos insumos (óleo diesel, pneus e outros equipamentos), a depreciação de capital (envelhecimento dos ônibus), a compra de novos ônibus e as despesas administrativas. Conforme o grupo, o justo aumento destinado aos rodoviários e a diminuição de usuários do transporte coletivo, porque quantos menos usuários, também encarecem o valor da tarifa. Integrantes do coletivo ressaltam que existem formas de controlar cada um desses fatores e evitar que a tarifa limite o direito de ir e vir da população de baixa renda.

Na política municipal, a questão do transporte público é polêmica. Vereadores da oposição contestam a visão da prefeitura e da ATP. O vereador de Porto Alegre Marcelo Sgarbossa (PT), por exemplo, defende que “o transporte coletivo não é colocado como prioridade”. O parlamentar explica ainda que “existe uma falsa de ideia de isenção. Continua igual, mas diminuiu a quantidade de pessoas pagantes”.

Segundo a vereadora Fernanda Melchionna (PSOL), a tarifa de ônibus sempre aumenta acima da inflação. Ela ressalta ainda que, segundo o argumento da prefeitura, o preço subiu 15% em 2016 e 8% em março de 2017. Com este acréscimo, deveria haver um crescimento no número de linhas e a instalação de ar condicionado nas frotas, conforme previsto na licitação de 2015. Para Melchionna, alguns dos problemas são o preço do óleo diesel apresentado pelas empresas, que é acima do valor de mercado, e a forma como é feita a rodagem.

Outro problema apresentado por ela são os combustíveis e outros insumos, que têm um impacto de 22% no valor da tarifa. “A solução seria uma auditoria visando os interesses do povo, não das empresas. Ampliar a participação da Carris, que é um transporte público. Prezar pelos itens de qualidade e ter um transporte menos poluente, que melhore a mobilidade urbana”, coloca.

Segundo o economista e pós graduado em finanças e controladoria Everton Lopes, a crise econômica é um fator de impacto para a diminuição de usuários do transporte público. Ele explica que “o desemprego é uma grande influência, visto que existem 203 mil desempregados na Região Metropolitana de Porto Alegre. Se estes perderam seu emprego, eles deixam de utilizar o ônibus”.

Melhorias no serviço

Para os ônibus ampliarem o número de usuários, a ATP afirma que as empresas operadoras do transporte público vêm investindo nas suas frotas e há o desejo de qualificar cada vez mais o serviço, adquirindo novas tecnologias e recursos. Contudo, o que impede as empresas de realizar os investimentos é o suposto quadro de insuficiência financeira, que as torna muito dependentes de decisões políticas. A ATP ressalta que, no momento, existem muitas dificuldades, como pagar itens básicos, combustível e salários.

Apesar desse cenário, Tomelero lembra que a EPTC está buscando alternativas para melhorar o serviço para os usuários, como disponibilizar aplicativo informativo além de poder comprar créditos pela internet.

Novas tecnologias

Em 2017, a Prefeitura de Porto Alegre regulamentou os aplicativos individuais de transporte. Com isso, os ônibus perderam  passageiros. “A insegurança presente na atualidade fez com que as pessoas procurassem os aplicativos de transporte, que são mais acessíveis que o táxi e se tornam um concorrente para o transporte coletivo”, afirma Tomelero.

Segundo a Polícia Civil, ocorrem em média quatro assaltos a ônibus por dia em Porto Alegre. De acordo com a ATP e a EPTC, existem projetos a serem desenvolvidos em conjunto com a prefeitura que visam minimizar os problemas de segurança. Entre eles está a instalação de câmeras de vigilância, que ajudam na identificação dos criminosos, até o final de 2017, além de GPS, para que o passageiro usuário saiba quanto tempo o ônibus vai demorar para chegar na parada.

Conforme Tomelero, a EPTC trabalha em conjunto com a Polícia Civil e a Brigada Militar para ações cooperadas de segurança pública que busquem reduzir os assaltos. Ele ressalta que faz alguns anos que foi criada uma delegacia exclusiva para crimes em transporte coletivo.

A tecnologia favoreceu que diferentes nichos, entre eles os estudantes, deixassem de utilizar o transporte público. Em um grupo do Facebook, estudantes da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), por exemplo, procuram outras pessoas que queiram dividir carona, aplicativos de transporte e transporte sustentável para voltarem dos Campi à noite.

A estudante de Direito Aline Pazzini é usuária do grupo e afirma que “dividindo os custos em aplicativos de transporte, é mais seguro e economiza tempo”. Outra participante do grupo, Larissa Badaraco, estudante de Engenharia de Produção, não consegue utilizar o serviço de carona compartilhada. Ela diz que, se pegar o ônibus da Escola de Engenharia, no centro de Porto Alegre, onde estuda, até a sua casa, leva em média 25 minutos. Já se utilizar um aplicativo de transporte leva oito, e afirma: “chego em casa mais segura e com uma qualidade de serviço melhor”.