Obras na Avenida Tronco mudam a vida dos moradores da região

Desde que Porto Alegre foi escolhida como uma das cidades-sede da Copa do Mundo de 2014, uma série de melhorias na infraestrutura do município foram planejadas. Entre elas, a duplicação da Avenida Moab Caldas, conhecida como Avenida Tronco, na zona sul da capital gaúcha. As obras começaram em maio deste ano e para avançarem é necessário que sejam retiradas diversas moradias que ficam à margem da avenida. Mas e como fica o destino das 1.400 famílias que vivem nessas casas? Para muitos a mudança vai trazer uma melhora considerável na sua qualidade de vida.

Esse é o caso do autônomo Daniel Martins dos Santos, 44 anos. Morador do bairro há 25 anos, ele terá que deixar a casa onde mora devido às obras da avenida. Mas a mudança forçada e a ajuda do governo vão contribuir para a concretização de um sonho. “Eu não posso reclamar. Vão me dar o bônus-moradia e vão pagar também pros meus dois filhos que moram aqui comigo. Com o dinheiro do bônus, vamos poder comprar algum imóvel na praia. Todo verão nós íamos pra lá para trabalhar, mas sempre pagando aluguel. Dessa vez poderemos comprar e ficar o ano todo. Já decidimos a cidade (Xangri-Lá) e a casa que vamos comprar, até já falamos com o proprietário. Estamos ansiosos para receber o bônus e para fazer a mudança logo”, relata.

De acordo com o Departamento Municipal de Habitação de Porto Alegre, as famílias que precisam desocupar suas moradias têm duas opções. Receber o bônus-moradia concedido pelo Demhab, no valor de R$ 52.340,00, que corresponde a uma unidade habitacional construída pelo programa Minha Casa, Minha Vida, mais despesas com tabelionato, registro e impostos. No caso, os moradores escolhem o local em que vão morar, que pode não ser na região. Para Paulo Jorge presidente da Amavtron, Associação dos Moradores e Amigos da Vila Tronco Neves e Arredores, o valor estipulado no bônus-moradia, decidido em 2011, não é suficiente. “O valor de 52 mil reais era válido na época. Foi feita pesquisa e era possível comprar uma casa na região. Hoje, por causa da especulação imobiliária, estão pedindo 100 mil”, relata.

A outra opção é serem reassentados, ou seja, esperam pelo apartamento que será construído pela prefeitura na região. Mas como as obras de construção das novas moradias ainda não começaram, quem optar por isso, vai receber um aluguel social (custeado pelo Demhab no valor de até 500 reais) para deixarem suas casas até que as novas unidades habitacionais fiquem prontas. Segundo o diretor-geral do Demhab, Jorge Dusso, o processo para se chegar nesse acordo foi árduo. “A Prefeitura fez, no mínimo, 22 reuniões com as comunidades para explicar os motivos da transferência e quais os benefícios para todos”, conta. “A principal reivindicação dos moradores é que fossem transferidos para moradias na região em que vivem; algo que foi prontamente atendido pela Prefeitura, com a desapropriação de 14 áreas nas imediações, nos bairros Cristal, Santa Tereza e Glória”, completa. Até então, 22 famílias já estão em aluguel social e o Demhab já pagou o bônus-moradia para 43 pessoas.

Dusso afirma que as construtoras responsáveis pelas novas moradias já foram selecionadas e passam por análise de caixa econômica federal, pois os recursos são do programa Minha Casa, Minha Vida. O diretor-geral do Demhab projeta que até o fim de 2012, as obras comecem e que em dezembro de 2013 as primeiras unidades devem ser entregues.

Apesar das melhorias que virão com as obras muitos moradores ainda não estão convencidos de que a mudança trará benefícios e acreditam que serão prejudicados. “Esse pessoal que está aqui dentro, o governo sempre deixou de lado. Muitos não pagam água, não pagam luz. Agora o pessoal vai ter que pagar tudo isso aí. Antes o pessoal estava numa boa, fazendo casa de dois pisos. Muitos até alugavam casa aqui dentro. Tem pessoas que vivem só de aluguel de casa e ganha até cinco mil reais”, conta Paulo Jorge. Segundo o presidente da Amavtron, as pessoas que têm casas melhores, construídas com esforço através dos anos, também irão receber a mesma quantia de bônus-moradia que outros que possuem habitações em péssimas condições.

O Demhab explica que os moradores com renda superior a R$ 1.600,00 ou aqueles que possuem uma casa com valor maior do que o proposto pelo governo podem optar pelo bônus-moradia ou por uma indenização da edificação.

Para ajudar na orientação dos moradores, o Demhab criou o Escritório Nova Tronco, onde as pessoas podem tirar suas dúvidas sobre as questões habitacionais. O atendimento é prestado por advogados, arquitetos, técnicos sociais e assistentes administrativos. As principais dúvidas que os moradores têm são sobre os locais para onde irão. Os técnicos verificam a situação das pessoas e informam quais as opções disponíveis.

O presidente da Amavtron, Paulo Jorge acredita que a duplicação da Avenida Tronco vai mudar o modo como a região é vista. “Daqui a cinco anos esse bairro vai ser outro. A região vai crescer comercialmente, pessoas vão vir morar aqui. E vai acabar aquela visão de que a Cruzeiro era foco só de drogados e assaltos”, conclui.

Texto: Marcel Klein (6º semestre)
Foto: Divulgação