José Clemente Pozenato: “meu projeto era colocar na literatura brasileira a experiência dos imigrantes italianos aqui no Sul”

O autor de O Quadrilho, cuja versão em ópera volta ao estado, conversa com o Editorial J

  • Por: Clarissa Freiberger (1º semestre) | Foto: Gilberto Perin/divulgação | 06/06/2019 | 0

Após turnê que percorreu nove cidades gaúchas no ano passado, o espetáculo O Quatrilho volta com nova temporada pelo estado no mês de junho. A ópera, cujo público atingiu quase seis mil pessoas, é baseada no livro homônimo de José Clemente Pozenato, escritor gaúcho cuja obra foi lançada em 1985. Após dez anos tornou-se filme, sob a direção de Fábio Barreto e chegou a concorrer ao Oscar de melhor filme estrangeiro no ano de 1996. Durante conversa com o Editoral J, Pozenato salientou a experiência de transformar uma obra literária em libreto de ópera.

A ópera de dois atos de Vagner Cunha com libreto do próprio escritor narra a história de dois casais de descendentes italianos que constroem suas vidas no interior do Rio Grande do Sul no inicio do século XX.

Em entrevista pelo telefone de Caxias do Sul, José Clemente Pozenato conta como foi transformar a obra literária em ópera:

 

Como foi o processo de escrever o libreto? O senhor escreveu sozinho?

Eu consultei libretos de outras óperas clássicas como La Traviata, por exemplo, adaptação de Alexandre Dumas. Descobri que são passados os momentos de emoção, não é a ação como é mostrado no cinema e teatro. Na ópera o que importa é o momento de emoção da personagem. Não foi difícil, já conhecia todas elas, então foi só montar a sequência das ações. Foi escrito em quinze dias, duas semanas. A pesquisa foi o que mais demorou.

 

Quais as maiores dificuldades que o senhor encontrou para fazer esse libreto?

Primeiro tive que situar qual o foco que eu devia dar. Quinze dias demorou depois que eu sentei para escrever. O que demorou mais foi essa fase de estudo e investigação. Quando eu saquei qual era o esquema foi fácil. Eu escrevi inclusive já com a versão em italiano.

 

E quando vocês estavam no processo de criação, houve alguma dúvida de como seria a aceitação do público?

Sobre isso não houve dúvida, não houve questionamento. O único recurso que foi utilizado para facilitar o público foi o de colocar legendas da letra em português na beira do palco. Todos podem acompanhar o desenrolar da trama, quem não ouve direito o canto ou quem não conhece o italiano.

 

Houve alguma adaptação da história para uma linguagem mais atual ou seguiu exatamente como está no livro?

As situações dramáticas que geraram as emoções são exatamente as mesmas do romance. Claro que houve a necessidade de selecionar os personagens, no romance você pode colocar quinze, vinte pessoas ou mais e na ópera tive que reduzir.

 

O senhor ajudou na escolha dos intérpretes?

Não, nessa parte não opinei até porque não tenho conhecimento. Mas fiquei satisfeito de ver a soprano Carla Maffioletti, assisti uma apresentação dela em São Paulo.

 

E na composição da música?

Essa parte não está dentro da minha área de criação. Ficou totalmente a encargo do maestro Vagner Cunha. Ele captou muito bem o espírito da narrativa do drama. Nós afinamos bem.

 

Para o senhor, qual o segredo do grande sucesso que a ópera está fazendo, estando na segunda temporada?

A programação é de que não haja interrupção das turnês. Claro que contribui para tudo isso o fato de a obra O Quatrilho já ser de conhecimento do público. A partir, principalmente, de quando o filme concorreu ao Oscar. Se tornou não apenas uma noticia nacional, mas global. Então isso é um fator que seguramente chama a atenção, quem viu o filme certamente tem interesse em conferir como fica a história na ópera.

 

Qual a sensação de ver a sua obra fazendo tanto sucesso nos palcos em forma de ópera?

O que costumo dizer é que meu projeto deu certo. Meu projeto era colocar não na literatura regional, mas na literatura brasileira a história da experiência dos imigrantes italianos aqui no sul. Não fiz uma obra com foco regionalizado, fiz com foco mais amplo e deu certo, foi levado para o cinema não só no Brasil e até fora acabou sendo reconhecido.

 

O autor gaúcho José Clemente Pozenato, natural de São Francisco de Paula, é membro da Academia Sul-Brasileira de Letras e da Academia Rio-Grandense de Letras e foi membro do Conselho Estadual de Cultura. Já escreveu vários livros para adultos e crianças, sendo o romance histórico O Quatrilho o mais conhecido. Pozenato é bacharel em Filosofia, mestre em Literatura e doutor em Letras pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul

 

SERVIÇO:

ÓPERA O QUATRILHO

Classificação: Livre

Duração: aproximadamente 2 horas (incluindo 15 minutos de intervalo)

 

VACARIA

Dia 12 de junho, quarta-feira, às 20h
Casa do Povo (R. Borges de Medeiros, 1987 – Glória)


PASSO FUNDO 
Dia 15 de junho, sábado, às 20h

Teatro Notre Dame (Rua Morom, 2255 – Centro – Passo Fundo


PORTO ALEGRE

Dia 16 de junho, domingo, às 20h

Teatro do Bourbon Country (Av. Túlio de Rose, 80 – Passo D’Areia – Porto Alegre)


NOVO HAMBURGO
Dia 18 de junho, terça-feira, às 21h

Teatro Feevale (Universidade Feevale – ERS-239, 2755 – Campus II – Novo Hamburgo