Palestrantes do SET desconstroem preconceitos contra favelas e classes C, D e E

Os três palestrantes que dividiram o palco do auditório da PUCRS na última segunda-feira (22), durante a programação do 27º set universitário, Celso Athayde, Renato Meirelles e Eduardo Lyra, embora de origens diferentes, compartilham experiência de vida junto das classes C, D e E. Enquanto Athayde e Lyra nasceram em favelas, no Rio de Janeiro e São Paulo, respectivamente, Meirelles vem de um bairro classe média alta da capital paulista. Na adolescência, todavia, Meirelles resolveu trocar a escola privada pela pública e assim entrou na causa da defesa das comunidades pobres. Os outros dois não tiveram a possibilidade de escolha, pois viveram toda infância como moradores na favela.

Meirelles é Sócio Diretor do DataPopular e contribui para o Instituto de Pesquisa das Classes C, D, E, que produz estudos de comportamento do consumidor Brasileiro. Junto com Celso Athayde, escreveu o livro “Um país chamado favela”, lançado no dia 7 de agosto. Athayde é fundador da CUFA (Central Única das Favelas). Já Eduardo Lyra estudou jornalismo e escreveu o livro “Jovens falcões”, que conta histórias para inspirar os jovens a superarem seus destinos. Filho de um presidiário e sem estrutura familiar, Lyra mostrou que todos podem mudar seu futuro e fugir da regra.

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Enquanto a mídia retrata apenas a violência e a marginalidade das favelas, os três apresentaram uma perspectiva positiva. “O que nós vemos é que boa parte do noticiário busca notícias ruins, em qualquer aspecto, inclusive na favela. Temos muito mais notícias sobre o que dá errado na favela, notícia sobre o tráfico de drogas e a violência”, afirmou Renato Meirelles. Seu livro não ignora a violência, mas tenta mostrar outro lado, o de pessoas solidárias e felizes que vivem naquela comunidade. Ainda assim, ele acredita que “quando a notícia é boa, chamam de comunidade, quando é ruim, chamam de favela e aí começa o preconceito”.

Atualmente, 12 milhões de brasileiros moram em favelas e representam o sétimo colégio eleitoral do país. Além disso, 94% dos favelados se consideram felizes e 65% se considera pertencente à classe-média. Mais da metade revelou que não sairia da periferia, independente das condições financeiras. Meirelles explica que isso se deve à vida em comunidade que existe nesses locais, onde todos se ajudam e até dividem a conexão à Internet, por exemplo. A vida na favela é mais coletiva e menos individualista.

Em relação aos programas sociais criados a partir do governo PT ao longo desses últimos 12 anos, tanto Athayde como Meirelles afirmam que a realidade das favelas merece mais atenção dos políticos, que só se preocupam em subir ao morro em épocas de eleições. Para dar mais visibilidade a esta situação, o livro foi entregue para a presidente Dilma, os ex-presidentes FHC e Lula e os candidatos Aécio e Marina.

“Em primeiro lugar, o Bolsa família não é um benefício da favela, mas sim da população com baixa renda. As oportunidades de uma renda maior e a partir dessa renda ter a possibilidade de crescer surgiram com esses programas, mas não é o suficiente”, completa Athayde. Além disso, embora 76% dos moradores da favela digam que a vida melhorou, somente 1% vê participação do governo na melhoria.

Com a ascensão da classe C, esses moradores passaram a consumir outros produtos e a investir seu poder de compra. Conforme explica Athayde, a favela nunca foi completamente esquecida pelo poder público, pois na hora das campanhas sempre se pede votos na comunidade. O esquecimento surgiria na hora do estado conceder benefícios.

“No momento atual a lógica do capitalismo faz com que o poder público se importe com você quando você passa a consumir. Desse modo, o estado passa a olhar para essas pessoas não mais apenas compaixão, mas como indivíduos que podem comprar e, portanto atraem a atenção das empresas. Assim, surge um novo perfil do morador da favela, que é aquele que tem a possibilidade de crescer e sonhar um pouco mais”, finaliza Athayde. Hoje, a renda anual das favelas chega a movimentar R$ 64 bilhões por ano.

Texto: Sofia Schuck (2 semestre) e Pedro Silva (4 semestre)
Foto: Edissa Waldow/Famecos/PUCRS