Servidor público pede esmola no trânsito

Parcelamento dos salários desorganiza economia familiar de servidores públicos no RS

“O jeito é pedir esmola”, diz o sargento da Brigada Militar Alceu Mendes, de 60 anos. Com uma faixa preta enrolada no braço e segurando um chapéu, ele pedia contribuições, nessa segunda-feira (31) para os motoristas que passavam em frente ao Palácio Piratini.

  • Por: Kamylla Lemos (4º semestre) | Foto: Wellinton Almeida (1º semestre) | 01/09/2015 | 0

Servidor público pede esmola no trânsito

“O jeito é pedir esmola”, diz o sargento da Brigada Militar Alceu Mendes, de 60 anos. Com uma faixa preta enrolada no braço e segurando um chapéu, ele pedia contribuições, no dia 31 de agosto, para motoristas que passavam em frente ao Palácio Piratini. Assim como outros servidores públicos estaduais, ficou apavorado quando viu seu contracheque. Com os descontos, Mendes recebeu apenas com R$ 150. “O banco descontou tudo o que eu tinha. Trabalhei 30 anos e hoje estou aqui pedindo dinheiro para sobreviver”, conta. Com um filho policial e uma filha professora, ele vê toda a sua família afetada pelo segundo parcelamento de salários determinado pelo governo Sartori.

A divisão em quatro parcelas é para todos os funcionários vinculados ao Poder Executivo. Em protesto, os servidores entraram em greve por quatro dias. Na frente do Palácio Piratini, integrantes da Associação das Esposas dos Policiais Militares e Policiais Femininas do nível médio do Rio Grande do Sul protestavam nesta segunda. A preocupação da presidente da associação, Claudete Valau, é com aqueles que, como ela, tiveram descontos nos seus contracheques: “A gente vai ficar aqui hoje. Se o salário é parcelado, a segurança também vai ser parcelada. Que motivação nossos brigadianos têm para trabalhar sabendo que seus filhos passam necessidade?”

Junto com os cartazes do protesto estavam um manequim e um boneco vestidos com roupas de brigadiano. Enquanto o sargento Mendes pedia dinheiro aos motoristas, uma das manifestantes segurava o boneco. “Representa nossos filhos, que estão pedindo coisas e a gente não tem como dar”, explica Josiane Ribeiro. Ela trabalha como diarista para sustentar a família e planeja atrasar o pagamento das contas. Sua única filha completa 13 anos em 1º de setembro. “Ela perguntou o que a gente ia fazer para comemorar a data. Vai ser difícil, mas ela entendeu. Não tem o que fazer”, lamenta.

Sentada em uma cadeira e apoiada por muletas, Geci de Oliveira da Rocha, 75 anos, não deixou de protestar. Ela não conseguiu pagar o aluguel e se colocava a mesma pergunta que milhares de outros funcionários estaduais: o que fazer com apenas R$ 600? Os estudos da neta também são preocupação, pois é Geci quem a sustenta. Além disso, ela é cardíaca e não havia podido comprar os remédios para o coração.

A professora Débora Varisto, que leciona nas escolas CIEP e Pedro Lenz, em Sapiranga, não teve opção e atrasou os pagamentos. O dinheiro que recebeu não foi suficiente para pagar todas as contas. Agora, ela espera a segunda parte do parcelamento. A comida e o restante ficarão a cargo do marido, que trabalha no comércio. “Tu estudas para ter uma formação e se vê, agora, como um nada, que o teu valor não está sendo reconhecido”, desabafa.

Conforme o governo estadual, a segunda parcela, de RS 800, será depositada em 11 de setembro. Dia 15, mais R$ 1400 deverão aparecer nas contas bancárias. Para quem ganha acima de R$ 2.800, o restante deverá ser depositado até o dia 22.