Pedrinha tenta se firmar no circuito profissional de surf

  • Por: Luiz Henrique Escopelli (7º semestre) | 15/05/2015 | 0

Local de Tramandaí, Josias mostra todo o seu conhecimento das ondas do lugar ao acertar manobras como essa

Josias “Pedrinha” Pospichil de Jesus é um dos principais nomes do surf gaúcho. Seu domínio sobre o circuito estadual de 2014 revela a superioridade do surfista em comparação a outros atletas amadores no cenário regional e prova sua capacidade de alçar voos maiores.

Em meio a tantos talentos que buscam espaço e oportunidade para mostrar a qualidade de seu surf em nível nacional e internacional, Pedrinha, surfista nascido na Barra de Tramandaí, a 100 quilômetros de Porto Alegre, tem uma história de vida que, por si só, já o torna um vencedor. Mesmo com as barreiras impostas pelo destino, conquistou o título de bicampeão gaúcho e já é um dos mais respeitados e admirados surfistas do Rio Grande do Sul. Poucos atletas no estado possuem um repertório de manobras tão completo quanto o de Josias Pedrinha e quase nenhum é tão consistente.

Editorial J conversou com Pedrinha sobre seus planos para o futuro.

Como foi seu início no surf, sua infância?
Bom, quando eu tinha um ano e meio de idade, fui adotado pela família com a qual vivo hoje. Fui criado por eles na Barra de Tramandaí. Eu sempre fui muito rebelde, sempre perdia a calma com a minha mãe. Então, aos nove anos, meu pai acabou me mandando de volta pra minha mãe biológica, mas não durou nem uma semana. Estava acostumado com a minha família adotiva e a mudança não deu certo. Acabei meio que rolando dos nove até os quinze anos de idade, morando em casas de amigos, conhecidos, mas minha mãe adotiva nunca deixou de me ajudar. Com onze fui morar em Osório e com treze voltei para a casa de um amigo na Barra, porque queria ficar mais perto dela. Foi nesse momento que comecei a surfar. O filho da dona da casa em que acabei indo morar surfava e acabei me instigando. Quando completei quinze anos, meu pai adotivo faleceu, então voltei a morar com a minha mãe adotiva. Entrei de vez no surf e também comecei a estudar de verdade, mas ainda não tinha patrocínio da Proside. Assim que voltei pra casa, minha mãe me dizia para trabalhar e ter meu dinheiro. Eu ia mal na escola e, como meus irmãos adotivos tinham sempre trabalhado e saído de casa cedo, rolava uma pressão pra eu arranjar logo um emprego e ter minhas coisas. Comecei a trabalhar em obra, nos limpa-fossa, ou com meus irmãos. Depois, comecei a ganhar alguns campeonatos e falei pra minha mãe “agora não preciso mais trabalhar, já faço uma grana vendendo a premiação das etapas”, mas ela achava que surf não era trabalho. Ela nunca entendeu muito bem como alguém poderia ‘só surfar’, era da cultura dela. Mesmo quando fechei o patrocínio que tenho hoje e passei a ganhar um salário e roupas, ela não gostava. Por isso acabei saindo de casa de novo aos dezoito anos, entrei na faculdade e vim morar no escritório dos meus irmãos em Imbé, onde estou hoje.

Como foi o seu ano em 2014?
No ano de 2014, eu foquei bastante no Circuito Gaúcho Amador. De nove etapas, consegui vencer sete. Com isso, me tornei bicampeão gaúcho. Foi um ano em que me senti preparado para entrar no WQS (World Qualification Series, divisão de acesso ao Circuito Mundial), mas, infelizmente, devido às condições financeiras, não pude concretizar esse projeto.

No ano passado você também foi para a Indonésia, certo?
Fui pra Indonésia em Maio e fiquei lá durante dois meses. Foi uma experiência de vida incrível, amadureci bastante e senti que meu surf também mudou. Minha leitura de onda, a força nas manobras… Na volta, me senti bem mais confiante. Acho que em qualquer viagem é assim. Logo depois que cheguei ao Brasil, houve mais três etapas do Circuito Gaúcho, nas quais consegui me dar bem e, assim, conquistar o bicampeonato.

E depois de um ano tão produtivo, quais são seus planos para 2015?
Meus planos eram entrar no WQS, porém não estou com as condições financeiras necessárias pra isso. Então, vou continuar no Circuito Gaúcho e, em julho, pretendo ir para a Austrália. Quero ir pra lá ver se surge alguma oportunidade e também para melhorar meu surf. Eu gostaria de estudar, isso seria o certo, só que não sei se vou ter a grana necessária. Vou chegar, trabalhar e ficar o tempo que der. De repente, seguir para a Indonésia, que é ali perto. Quando voltar, vou continuar estudando, como venho fazendo.

Você estava cursando Educação Física, não é?
Eu estou no segundo semestre e quero me formar. Vou aproveitar esse ano para ir pra Austrália e, quando voltar, se voltar, pretendo continuar estudando. Acredito que é o melhor a fazer, se não houver oportunidade para continuar só surfando.

Como é sua rotina em Imbé, onde reside atualmente?
Antes eu estava estudando, então ficava bem ocupado. As aulas eram à noite. Eu estagiava na academia de um amigo na parte da manhã, fazia treino funcional ao meio dia na própria academia e, de tarde, surfava antes de ir pra aula. Quando o mar estava bom, confesso que acabava não treinando (risos). Volta e meia, nos finais de semana, também vou com amigos até Santa Catarina, para pegar ondas melhores.

Você evoluiu rapidamente nas manobras aéreas. Tem se dedicado especialmente a este aspecto do surf?
Estou aperfeiçoando bastante meus aéreos, mas também tenho prestado atenção ao surf de linha. Quero evoluir o surf de borda, como o Rodrigo “Pedra” Dornelles faz. Sei que, se quero entrar no WQS, não adianta só mandar aéreos. Estou trabalhando nos dois lados.

Recentemente você trocou de shaper. Por que essa mudança?
Sempre fiz pranchas com o Maicon (Nunes, shaper das Pranchas Netuno), desde quando era moleque. Cheguei a morar com ele no tempo em que minha mãe me mandou embora de casa. Porém, um tempo atrás, o Fábio (Ribeiro, da FR Surfboards) me fez uma proposta boa, então comecei a usar suas pranchas. É um shaper muito bom. No entanto, nossa parceria prescreveu e a proposta acabou se alterando. Como tenho uma relação ótima com o Maicon e sei que ele trabalha muito bem, acabei conversando com o Fabinho e voltei para o meu antigo shaper. Estou amarradão de estar trabalhando com ele de novo! Já recebi alguns modelos ótimos e até meus amigos de Torres estão felizes de eu estar de volta na Netuno.

Como você vê o momento atual do surf no Brasil? Mesmo com o título de Gabriel Medina, parece que os investimentos só vêm para os atletas que estão no circuito profissional ou na mídia internacional.
Não sei, mas acho que não vai mudar muita coisa. Acho que pode melhorar para os caras que já estão lá em cima. As marcas fortes vão continuar não querendo buscar um cara que está surfando fora dos grandes centros, vão procurar os caras que já estão no Tour.
Eu torço pra que algo mude aqui no Rio Grande do Sul. Agora, teremos a primeira etapa do Circuito Gaúcho Profissional deste ano, o que já é alguma coisa, mas daria para fazer mais. As marcas daqui não investem, não adianta. Sinto que o tempo está passando! Tem caras que sabem que é só dar um empurrãozinho, mas não ajudam. Isso é triste, porque o surfista acaba se frustrando. Então, vou ter que sair do Brasil em busca de uma oportunidade e, se não conseguir, vou voltar para estudar e me formar, como todo mundo faz; ser professor de educação física e, talvez um dia, trabalhar na área do surf.