Perdas com incêndio no museu atingem também a economia

Além de prejuízos ao patrimônio cultural do País, museus como o Nacional do Rio de Janeiro integram um ciclo econômico

  • Por: Fernanda Nudelman (2° semestre) e Roberta Berti (4° semestre) | Foto: Divulgação/UFRJ/Roberto da Silva | 07/09/2018 | 0

Coleções de fósseis, documentos históricos, a maior coleção egípcia da América Latina, relíquias indígenas, móveis originais da época imperial compunham um acervo de 20 milhões de itens que desapareceram devido ao incêndio no Museu Nacional do Rio de Janeiro ocorrido em 2 de setembro. No decorrer de 200 anos pesquisadores, cientistas e especialistas de outras áreas agregaram artefatos ao museu, iniciado por Dom João VI no ano de 1818.

A perda irreversível deste patrimônio histórico é reflexo de uma sequência de desacertos do governo, erros de planejamento e gestão da reitoria da universidade, e, principalmente, o desprezo por sua história. Muitos alertas de que o Museu Nacional precisava de atenção já haviam sido lançados sem que medidas tivessem sido adotadas a tempo.

Além das funções de preservar o patrimônio, desenvolver pesquisas, fomentar a criatividade e de apresentar uma narrativa sobre uma história contada pelos objetos, os museus também têm um grande potencial econômico. Segundo, Francisco Marshall, professor e pesquisador da Universidade Federal do Rio Grande do Sul com pós-doutorado em História Antiga e Medieval, a máquina pública não nota que o museu é o pivô do desenvolvimento social, maior que muita indústria e empresa. “O museu faz parte de um ciclo econômico, que envolve ciência, educação, e turismo. Ele está articulado na economia que mais cresce hoje na sociedade, que é a do turismo. Ele também tem outros valores, outras funções que mudam inclusive o desempenho do estado, da economia e da sociedade”.

Em 2016, o governador José Ivo Sartori propôs e a Assembleia Legislativa do Rio Grande do Sul aprovou a extinção de seis fundações estaduais incluindo a de Ciência e Tecnologia (Cientec) e a Fundação Zoobotânica. Era um dos projetos do pacote apresentado pelo Executivo estadual para reduzir a máquina pública e amenizar a crise. Francisco Marshall lembra esse fato para exemplificar que o não investimento em cultura faz “parte de um cenário onde as autoridades por não entenderem qual é a importância do museu ou, até mesmo por temerem o conhecimento produzidos por ele, estão nesse momento além de desdenhar e  descuidar, estão atacando os museus”.

É preciso ter consciência de que um país que não investe em educação acaba perdendo em outros aspectos como segurança, saúde, políticas sociais e direitos humanos. Além da importância da educação formal nas escolas, o professor diz que “o museu é parte da educação. Há ali conteúdo com uma qualidade muito superior e complementar a que se encontra em sala de aula, com artefatos e documentos da época. Temos que articular o museu com a educação. Entrar no museu é como entrar dentro de um enciclopédia”, explica.

Quando alguma empresa opta por não investir na manutenção de um edifício, certamente terá problemas à frente. A escolha por remediar a prevenir causou estragos irreparáveis para a história do País. A lição que os brasileiros devem tirar dessa tragédia é a importância da prevenção e a valorização da cultura do país. “Um museu serve para facilitar o modo como se olha para o mundo, para os outros e para nós mesmos. O incêndio do museu representa, além da morte de 200 anos de passado, a indiferença do Brasil e de sua nação”, completou.