Placa instalada em frente ao Palácio da Polícia relembra as “Marcas da Ditadura”

  • Por: Jéssica Moraes (5º semestre) | Foto: Frederico Martins (7° semestre) | 01/04/2015 | 0

MG_9945-2

 

Na tarde de primeiro de abril, o Movimento de Justiça e Direitos Humanos do Rio grande do Sul (MJDH-RS), em parceria com a Prefeitura, inaugurou um memorial em frente ao Palácio da Polícia. Trata-se de uma placa, parte do projeto “Marcas da Memória”, que se propõe desvendar a repressão em locais urbanos. No segundo andar do Palácio estava instalado o Departamento de Ordem e Política Social(DOPS), responsável por torturas entre os anos de 1964 a 1982. A lembrança foi posta na calçada, em frente ao prédio.

Jair Krischke, presidente do MJDH-RS, fez a abertura da cerimônia e salientou que o ato era singelo, mas um resgate fundamental da memória. “70% da população atual nasceu depois da ditadura e não sabe pelo que passamos. Esse é um momento oportuno para mostrar as pessoas que pedem a volta dos militares que não teremos outra tragédia”, salienta. Krischke enfatiza que a placa é uma provocação, para que as pessoas passem pela rua e se perguntem o motivo dela estar ali: “Ao recuperar a história queremos mostrar que houve uma tragédia de 21 anos nesse país e precisamos conhecer bem e consolidar o processo democrático. À medida que o povo conhece a ditadura, nunca vai querer o período de volta.”

O prefeito, José Fortunati (PDT), estava no local e parabenizou o Movimento de Justiça e Direitos Humanos por sua luta pela liberdade desde 1970: “E eu gostaria de fazer essa homenagem a quem lutou e segue lutando para termos um estado democrático de direito consolidado. A prefeitura assumiu com o Movimento esse importante projeto, para resgatar a memória da ditadura e compreendermos melhor o que se passava nos porões, que vitimou tantas pessoas no Brasil.” Fortunati afirma que passar a limpo a ditadura é fundamental, mas não há espírito de vingança na instalação da placa. “Precisamos fazer esse resgate. Se temos condições de combater a corrupção hoje, é porque estamos comungando o direito de ter uma democracia plena”, explica.

Dirceu Messias, 73 anos, estava presente à cerimônia. Ele passou pelo DOPS, onde foi interrogado, entre os anos de 1962 e 1964. “Os torturadores ficavam na porta, quando nós entrávamos eles já começavam a nos chutar”, relata Messias, que na época era Secretário do Sindicato de Energia Elétrica do Estado. Quando começou a ser perseguido, o advogado do Sindicato disse a Messias que ele precisava sair do país, ou seria morto. Dirceu foi para o Chile e passou boa parte da vida também na Europa, mas sempre ligado aos movimentos sociais. Para ele, esse momento é uma pequena vitória.

Bona Garcia, também torturado pelo DOPS, lamenta que o local tenha sofrido modificações. Ele gostaria que uma placa também fosse instalada na entrada do Departamento. “É evidente que o DOPS teve uma parte séria de culpa, mas é importante dizer que quem comandava tudo eram as forças armadas, e elas estavam presentes dentro do DOPS”, lembra. Bona relata que os presos chegavam encapuzados, sem enxergar nada:

– Começava com as surras, depois queimavam a pele com cigarro. Se não falássemos, íamos para tortura. Choque, pau de arara. A pior tortura que eu sofri foi por parte de um major da época, ele tinha prazer por fazer os outros sentirem dor. Muitos eram frios e calculistas, outros sentiam prazer em torturar. Um médico me examinava e dizia ‘pode bater que o guri é forte’, é isso que acontecia aqui dentro.

Emocionado, Garcia diz ter só um desejo: “Continuar com liberdade, fortalecendo a democracia e instalar placas de um passado que nunca mais volta.”