Porto Alegre revive mobilizações do Fórum Social

15 anos depois da primeira edição, cidade atrai militantes de causas sociais

  • Por: Angelo Werner (4º sem.), Eduarda Endler Lopes (4º sem.) e Kamylla Lemos (5º sem.) | Foto: Camila Lara (3º sem.) | 21/01/2016 | 0
Cathana defende o parto humanizado
Cathana defende o parto humanizado

Em permanente construção, o Fórum Social Mundial realiza sua 15ª edição entre os dias 19 e 23 de janeiro deste ano nas ruas de Porto Alegre, mesmo local onde foi inaugurado, em janeiro de 2001. Com um comitê organizador formado por oito entidades brasileiras, o evento inicialmente procurou se contrapor ao Fórum Econômico Mundial de Davos, na Suíça, que desde 1971 é um grande espaço de promoção e defesa das políticas neoliberais por todo o mundo.

Logo na primeira edição, o Fórum Social Mundial já reuniu aproximadamente 20 mil participantes, representando ao todo 118 países. Girando em torno de quatro eixos temáticos, A Produção de Riquezas e a Reprodução Social, O acesso às Riquezas e a Sustentabilidade, A Afirmação da Sociedade Civil e dos Espaços Públicos e o Poder Político e Ética na Nova Sociedade, o evento surpreendeu mesmo os veículos jornalísticos, que precisaram se mobilizar de última hora para a cobertura devido à dimensão inesperada que adquiriu.

Desde então, o Fórum continuou a atrair multidões, chegando a um público de 120 mil pessoas na edição de 2009, e a tratar de temas corajosos e relevantes, como a luta contra a militarização, crítica ao predomínio da figura masculina no comando do ambiente familiar, exclusões sociais, sectarismo religioso, capitalismo e questões de gênero e sexualidade. O evento também passou a ocorrer em outras localidades, como a edição de 2004, sediado pela primeira vez fora de Porto Alegre, em Mumbai, na Índia, além de edições descentralizadas, com sedes em continentes diversos ao mesmo tempo.

Frei Betto, escritor e religioso brasileiro que foi figura central nos Fóruns de 2001 a 2004 devido ao seu envolvimento com movimentos sociais desde a adolescência, acredita que nas primeiras edições o cenário era de muito esperança em mudanças estruturais na América Latina. Para ele, a importância e o papel do Fórum é de congregar movimentos sociais cujas diferenças não são tidas como divergências e traçar uma estratégia comum de luta. “É um espaço democrático de debate e intercâmbio entre movimentos sociais que se empenham na busca de outros mundos possíveis”, define.

No ano de 2016, de volta às ruas da capital gaúcha, o Fórum aparece com a temática de relembrar e comemorar seus 15 anos de história, com o objetivo de avaliar o que foi feito até o momento e fortalecer os eventos futuros. No seu primeiro dia, reuniu 10 mil pessoas, que caminharam do Mercado Público até o Parque Farroupilha. Estas trazem as mais variadas lutas. O Editorial J conversou com elas e investigou o motivo de participarem do evento.

Cathana Oliveira, 34 anos, que atua como Consultora do Ministério da Saúde, afirma que vem ao FSM para discutir as principais questões de saúde, para que as pessoas possam ter acesso à saúde pública de qualidada a sociedade, faz com que a gente consiga olhar para algumas coisas que antee. Ela salienta que o público presente no evento revela como gostaria de ser cuidado e que procura ajudar nessa missão. “O Fórum Social Mundial levanta novas bandeiras pars a gente não estava vendo com clareza,” diz.

Psicóloga de formação, consultura e doula, Cathana explica que, preocupada com o bem estar das mulheres, estudou o parto humanizado. “Chega uma hora que o conhecimento que a gente tem como profissional técnico não dá conta, a gente tem vontade de tocar, de cuidar de um outro jeito”, explica o motivo de ter se interessado pelo procedimento e ter vindo até o Fórum para debater o assunto.

Cathana enfatiza a importância dos debates que acontecem no Fórum. Aparentemente simples assuntos são trazidos, como a falta de água em alguns lugares ainda no Brasil e no mundo. Entretanto, essa discussão de um tema simples faz com que ele ganhe força.

Comovidos com a questão social, o casal Renata Gomes e Ediel Rangel, 25 e 31 anos, que mora em Minas Gerais vieram até Porto Alegre para prestigiar o evento. Renata é assistente social e afirma que sempre se interessou pelo assunto, salientando a importância de estar atualizada para, assim, tentar melhorar o mundo e discutir temáticas importantes. Já seu marido acredita na força que o Fórum tem de exibir a ideologia de esquerda e que percebe a necessidade de discussão. Eles contam que a cidade em que vivem não tem muitos movimentos sociais, por isso sentem a necessidade de entender o que está acontecendo no mundo.

Mas além disso, o Fórum também é arte. O pernambucano Clebson Cristovão, 27 anos, conheceu o evento por meio de uma amiga. Morando há dois anos em Curitiba, veio para Porto Alegre para expor seus trabalhos. Formado em Artes Visuais, ele fala que além da questão social, encontrou no evento uma forma de divulgar a sua arte. Usando como inspiração os orixás, ele procura ter mais contato com as suas raízes e desconstruir o preconceito que envolve o tema. “Tinha muito preconceito sobre o assunto e então comecei a pesquisar muito sobre a religião”, explica.

Também com vontade de compreender, os jovens Kevin Waschington e Scarllet Brenda Alves dos Santos, de 16 e 18 anos, vieram para o evento do Espírito Santo. Lá, fazem parte do Movimento Popular Cidadão do Mundo e foram convidados para participar do Fórum. Eles esperam que possam aprender mais sobre direitos, expressar o próprio modo de pensar e entender o que as pessoas pensam. Scarllet, que faz pesquisa com jovens que desistiram da escola, espera que consiga obter novos conhecimentos em Porto Alegre.

 Aos 59 anos, Iara Fátima Rufino, relata que entrou na Economia Solidária em 2001 e assim participou do primeiro Fórum Social Mundial. Foi lá que surgiu a sorveteria artesanal Beijo Frio e, após o sucesso do negócio, nasceu a Associação de Mulheres Solidárias da Zona Norte, composta apenas por mulheres negras e de baixa escolaridade. “Acho que o Fórum evolui a cidade inteira. Para nós é muito importante ter um evento desse formato e tamanho em Porto Alegre”, afirma.

A oportunidade de participar do evento foi apenas o começo para a sorveteria. Uma parceria com a Secretaria Municipal da Produção, Indústria e Comércio (SMIC) transformou a Beijo Frio na loja de número 60 do Mercado Público de Porto Alegre. Mas, após o incêndio que atingiu o prédio, em julho de 2013, várias lojas – incluindo a Beijo Frio – perderam seus produtos. Atualmente, a sorveteria se encontra, provisoriamente, no espaço de eventos do Mercado. “Mas está tudo sob controle, é onde a gente faz o nosso trabalho”, conta Iara. Após onze anos afastada do evento, a sorveteira Beijo Frio retorna para onde tudo começou, mostrando que nesses quinze anos de Fórum, as sementes que são plantadas acabam se tornando árvores.