Preferência pela cremação diminui em 15% demanda por tumbas no Cemitério Santa Casa

Uma família do interior do estado do Rio Grande do Sul foi se despedindo aos poucos e o destino dos três integrantes foi o mesmo: a cremação. Primeiro o pai, depois o filho e, por último, a mãe. A liberdade do espírito e o contato com a natureza foram as razões pelas quais essa decisão foi tomada. Após a queima dos corpos, as cinzas foram jogadas numa cachoeira na cidade natal dos familiares.

A preferência pela cremação chega a 18% das famílias no Rio Grande do Sul. O aumento da demanda dos que preferem o crematório  sepultar os corpos diminuiu em 15% as vendas de espaços no Cemitério Santa Casa em Porto Alegre, segundo o administrador do local. Para garantir o movimento e compensar esse número, a locação da capela para velórios é a saída. “Criamos produtos e serviços para compensar essa ‘nova’ técnica”, diz Christian Silveira.

A dúvida de muitos administradores da área é até quando eles vão conseguir segurar o modelo de enterro convencional, pois o número vem caindo ano a ano. “Ainda não temos uma grande preocupação com isso. Hoje, não tem perigo de sumir, mas em um futuro não muito distante, não podemos garantir”, afirma o administrador.

Por questões de preservação, contaminação ambiental, religião, ou até por motivos simbólicos, muitas pessoas estão optando pela cremação. A especialização do setor e o crescente entendimento da população ao longo dos anos ajudam para a maior aceitação. É possível escolher entre uma grande variedade de urnas e preços, incluindo modelos solúveis em água, biodegradável, ideal para ser jogado no mar ou em rios, e também para ser plantado com sementes para a floração de plantas em memória ao falecido.

Diferentes religiões, diferentes práticas

Embora seja uma prática adotada desde a antiguidade, a cremação continua sendo um tema que gera polêmica. A forma de tratar o corpo de um ente sempre foi uma questão cultural.

Judeus e muçulmanos não permitem a cremação. O judaísmo acredita que a cremação envolve mais que apenas um corpo. Trata-se da alma. Com a morte, a alma passa por uma dolorosa separação do corpo, que até então a tinha abrigado. Este processo de separação ocorre conforme vai ocorrendo a decomposição do corpo. A decomposição é fundamental, pois esse é o momento em que a alma deixa lentamente o corpo.

Já os muçulmanos acreditam que o corpo após a morte não tem tanto significado, mas a alma continua tendo valor. Ao se separar do corpo, o espírito permanece consciente, ouve as palavras de quem visita o seu túmulo e o reconhece. O contato com a terra é muito importante na religião.

O Cristianismo, seguindo a Tradição Judaica, sempre se afeiçoou mais à prática do sepultamento, mas não era contrário a cremação. Até que nos séculos 18 e 19, o racionalismo, contestando dogmas cristãos como a ressurreição e a imortalidade da alma, passou a incentivar e a praticar a cremação, e hoje em dia, quase todas as formas de cristianismo permitem a cremação.

Os budistas também aceitam a cremação. O budismo acredita no desapego das coisas materiais e o corpo, por ser matéria, também deve sofrer esse desapego, tornando assim recomendável a pratica da cremação. As cinzas resultantes da cremação podem ser depositadas num templo, altar doméstico ou ser devolvidas à natureza.

Texto: Carolina Zorzetto (3º semestre)
Foto: Gerson Raugust