Professor vê esgotamento da democracia representativa e parlamentar

“Há uma consciência muito clara do esgotamento das formas da democracia representativa e parlamentar”. Com essa frase, o professor de filosofia da USP Vladimir Safatle encerrou sua palestra, na segunda-feira (25/08), na Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas da PUCRS. Essa também é uma amostra do discurso politizado do filósofo, conhecido nas frequentes aparições na mídia, em colunas semanais no jornal Folha de São Paulo e na revista Carta Capital.

Editorial J entrevistou Safatle que foi preterido este ano pelo Psol na escolha do candidato ao Governo do Estado de São Paulo. Ele também é incluído na nova geração de pensadores de esquerda, que pautou parte das manifestações de junho do ano passado, com a ideia de esgotamento dos dispositivos de representatividade política, disponíveis no atual modelo de democracia parlamentar.

Você foi um dos intelectuais mais ativos nas manifestações de junho do ano passado. Em 2014, ano de eleições de Copa do Mundo, para onde desaguaram as pautas levantadas durante aquele período?
Elas ainda estão em latência, não conseguiram se constituir como pauta dentro do debate. Tem questões ligadas à reinvenção da democracia que, aos poucos, vão reaparecendo. Mas as pautas estão, ainda, muito em latência.

Estas pautas devem aparecer nas eleições deste ano?
Pouco provável. O que não significa que estarão perdidas. Talvez elas precisem de mais tempo para conseguir forçar a agenda eleitoral do país, que é muito resiliente à modificações.

Hoje, quem é o maior inimigo da democracia?
O sistema financeiro. Ele é o maior risco da democracia. Enquanto o sistema financeiro existir com essa força, com essa capacidade de lobby, de intervenção, nossa democracia vai ser uma simples farsa.

Nos discursos, você enfatiza a necessidade de uma reforma na tributação de grandes fortunas, para o estabelecimento de uma social-democracia efetiva, próxima ao modelo europeu. Qual a sua interpretação sobre a imobilidade e as poucas possibilidades destas reformas serem aprovadas, devido aos atuais mecanismos legislativos do modelo brasileiro?
Dentro da estrutura parlamentar, como ela é hoje, é uma reforma quase impossível. No entanto, ela é a mais necessária de todas. Então, vai muito da força política popular, para pressionar a criação de mecanismos de transformação.

Você afirma que no atual governo, acabaram-se as medidas anticíclicas. Você enxerga uma grande ruptura entre o segundo mandato do governo Lula e o primeiro mandato da Dilma?
Há de se reconhecer que, no primeiro mandado do Lula, havia mais intervenções estatais do que no mandato Dilma, algo que eu realmente não esperava. O governo Dilma tentou, por exemplo, diminuir os juros bancários, fazer uma luta política contra o sistema financeiro brasileiro e abandonou isso em dois ou três meses. Este governo se mostrou muito fraco neste sentido, o que não significa que um terceiro mandado do Lula seria melhor. Simplesmente, houve um momento histórico da economia mundial que permitiu o Lula fazer as políticas que ele faz.

Poucos dias antes da Copa, você publicou um artigo na Folha de São Paulo, intitulado “Não teve Copa”, que teve muita repercussão. Passado o evento, após muitas pessoas terem mudado a percepção sobre a Copa do Mundo, você ainda diz que “não teve copa”?
Eu ainda acho que não teve Copa, no sentido de ser um evento de reconciliação nacional, onde o Brasil mostraria ao mundo uma sociedade nova e consagrada, com sua grandeza e desenvolvimento. Isso passou longe de ter ocorrido. Durante o evento, ficou muito evidente, as fraquezas do modelo nacional. Claro, não houve uma catástrofe, no sentido de grandes revoltas populares. Mas essa Copa esteve longe de ser a consagração do modelo econômico brasileiro.

Texto: Gabriel Gonçalves (4º semestre) e João Pedro Arroque Lopes (6º semestre)